Capítulo 59: O Caminho Bloqueado pela Montanha de Fogo — Wukong Tenta o Leque de Bananeira pela Primeira Vez
Os peregrinos chegam à Montanha de Fogo, um obstáculo de oitocentas léguas de chamas perpétuas. Sun Wukong vai buscar o Leque de Bananeira da Rainha Ferro-Leque, mas ela o expulsa com o próprio leque.
O outono havia chegado ao mundo, mas na região que se aproximava não havia nenhum sinal de mudança de estação.
Os peregrinos haviam aprendido, ao longo da jornada, a ler o território antes de chegar a ele — a interpretar as mudanças no ar, as cores do horizonte, os comportamentos dos pássaros e dos insetos como um texto que anunciava o capítulo seguinte. Mas nenhum dos sinais habituais tinha preparado Tang Sanzang para aquilo. O calor não chegou de repente — chegou por graus, crescendo tão devagar que a percepção ficava sempre um passo atrás do corpo, que já estava desconfortável antes da mente reconhecer a causa. Primeiro uma persistência no calor do sol que parecia excessiva para a hora. Depois uma espessura no ar que tornava cada respiração ligeiramente mais trabalhosa. Depois, à medida que avançavam pelo caminho que estreitava entre pedras cada vez mais vermelhas, um cheiro que era difícil de definir — não fumaça de madeira nem de carvão, mas algo mais fundamental, como se a pedra em si estivesse em combustão a partir de dentro.
Tang Sanzang suava em cima do cavalo branco, e o cavalo suava também, e a veste de seda do monge havia escurecido nas costas e nos ombros com aquela umidade específica do calor extremo. Bajie tirou o casaco e depois a camisa por baixo do casaco e ainda assim a pele rosada do seu torso largo brilhava de suor. Sha Wujing mantinha a impassibilidade de costume, mas havia um brilho nos seus olhos que era mais esforço do que tranquilidade.
— Este calor não é natural — disse Sha Wujing, olhando para o horizonte que havia tomado a cor do carvão em brasa — vermelho-alaranjado com bordas que pulsavam como coisa viva.
Pararam diante de uma casa de paredes vermelhas, telhado vermelho, portas vermelhas — como se o construtor houvesse escolhido aquelas cores antes de conhecer a vizinhança e depois simplesmente se conformado com a coincidência. Um velho de rosto cor de cobre saiu para recebê-los, com o ar de alguém que há décadas recebe viajantes naquele mesmo estado de calor e confusão e que desenvolveu para eles a paciência específica do guia que não pode resolver o problema mas pode ao menos nomeá-lo.
— Doutos viajantes, de onde vêm?
— Da Grande Tang, a caminho do Oeste em busca das Escrituras — disse Tang Sanzang, descendo do cavalo com aquela agilidade reduzida de quem está suado e desconfortável e tentando não demonstrar nenhum dos dois. — Mas este calor nos detém. O que é aquilo no horizonte?
O velho olhou para o horizonte com a expressão de alguém que está olhando para uma vizinha que não escolheu mas aprendeu a conviver.
— A Montanha de Fogo — disse ele, sem cerimônias. — Oitocentas léguas de chamas que nunca se apagam. Ardeu durante toda a minha vida e durante a vida do meu pai e do pai do meu pai. Não há primavera nem outono aqui por causa dela — apenas este calor perpétuo que faz as pedras cantarem à noite quando a temperatura desce o suficiente para que a diferença seja perceptível. — Uma pausa. — É o caminho obrigatório para o Oeste. Mas se tentarem atravessá-la sem proteção, mesmo uma armadura de cobre e ossos de ferro derreteriam como cera a trinta pés de distância.
Os peregrinos ficaram em silêncio contemplando esta informação. Havia na expressão de cada um uma qualidade diferente do silêncio: Tang Sanzang com os olhos fechados em oração involuntária, Bajie com o ar de alguém fazendo cálculos sobre alternativas, Sha Wujing olhando para a montanha com atenção clínica, Wukong com aquela expressão específica que vinha entre o reconhecimento de um problema e o início da busca por solução.
Da estrada chegou então um som improvável: a voz de um vendedor ambulante, alegre e deslocada, empurrando um carrinho vermelho pelo calor como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. No carrinho, em cestos cuidadosamente cobertos, havia bolinhos quentes que cheiravam a gengibre e gergelim.
Wukong parou o homem. Transformando um pelo numa moeda de cobre — o truque mais elementar do seu repertório —, comprou um bolinho. Estava tão quente que pulou de mão em mão enquanto Wukong tentava segurá-lo, um objeto aparentemente simples mas que tinha nele condensado o calor impossível da região inteira.
— Como a farinha para fazer isso existe nesta terra? — perguntou Wukong ao vendedor, que equilibrava o carrinho no calor com a perícia de quem faz aquilo todo dia e desenvolveu para o trabalho uma ergonomia particular.
— Da Fada Ferro-Leque — disse o homem, com a voz de quem recita uma informação conhecida por todos na região. — Ela tem um leque mágico de bananeira. Uma vez, apaga o fogo. Duas vezes, traz vento fresco. Três vezes, chove. É só assim que plantamos e colhemos aqui. — E havia no tom uma mistura de admiração e gratidão prática que não era devoção religiosa mas algo mais terrestre: o reconhecimento de que certas forças são tão parte da vida que se tornam simplesmente parte da paisagem. — A cada dez anos as famílias daqui se reúnem e fazem oferendas ricas para pedir que ela venha usar o leque e deixe a terra respirar por uma temporada.
— E ela vem? — perguntou Wukong.
— Sempre veio — disse o vendedor, com a serenidade de quem não questiona o que funciona.
Wukong voltou para o grupo com o bolinho finalmente frio o suficiente para comer — ou pelo menos para tentar. Relatou o que havia ouvido com aquela concisão de quem já está formulando o próximo passo enquanto relata o anterior.
— Há uma saída — disse ele. — Uma fada com um leque que apaga o fogo. Preciso ir buscá-la.
— A Fada Ferro-Leque — repetiu o velho, com uma expressão que não era exatamente entusiasta e que carregava nela a memória de conversas anteriores com viajantes que haviam tentado a mesma rota. — Ela mora no Monte das Nuvens Turquesas, a rumo noroeste daqui. Mas ela não empresta o leque facilmente para ninguém.
— Veremos — disse Wukong.
Tang Sanzang rezou pelo sucesso enquanto Wukong partia. Havia um alívio prático em ter um problema com uma solução identificável, por mais incerta que fosse essa solução — era melhor que o calor indefinido de um obstáculo sem nome.
Wukong encontrou o Monte das Nuvens Turquesas depois de um voo que levou menos tempo do que o caminho normal porque o céu estava limpo e o bastão funcionava bem como timão numa boa brisa. Era uma montanha de beleza impressionante num contraste quase irritante com a planície chamuscada abaixo: cascatas de água turquesa caindo entre pedras negras polidas, pinheiros curvados pelo vento permanente do cume como figuras em meditação, e um ar que tinha aquela qualidade fria e clara das altitudes onde o fogo não chega. A gruta da Fada era marcada por uma porta de pedra verde sobre a qual estava escrito, em caracteres que tinham a fluidez da caligrafia mas a permanência da pedra: Caverna das Nuvens Turquesas.
Wukong bateu com os nós dos dedos — três batidas, o ritmo cortês.
Uma serva jovem abriu, olhou para o visitante, avaliou-o com a rapidez dos que foram treinados para avaliar visitas, e foi buscar a senhora.
A Fada Ferro-Leque chegou ao patamar da sua gruta com uma aura de autoridade que não precisava de acessório. Era uma mulher que havia vivido suficiente para não precisar mais de nada para ser intimidante além da sua própria presença — alta, de vestes escuras com bordados de bambu, com aquele ar de quem guarda algo valioso e está acostumado a pessoas que querem esse algo.
— Sun Wukong — disse ela, com uma voz que carregava o peso de uma história não resolvida.
— Fada — disse Wukong, inclinando-se com o respeito de quem reconhece poder superior. — Venho pedir o empréstimo do seu Leque de Bananeira para apagar as chamas da Montanha de Fogo e permitir que meu mestre Tang Sanzang continue sua jornada sagrada ao Grande Templo do Trovão.
A Fada olhou para ele por um momento que tinha aquela qualidade de avaliação profunda — não da aparência mas de algo mais interno.
— Você tem audácia — disse ela, finalmente. — Venha pedir o meu leque a mim, você que prejudicou meu filho.
— Seu filho?
— Red Boy. O Santo Infante do Fogo. Que você entregou às mãos de Guanyin quando ele tentou capturar seu mestre no Vale do Pinheiro Seco. Eu sou a esposa do Rei Demônio do Touro. Red Boy é meu filho. E meu filho está agora sob os cuidados de uma Bodhisattva que eu não escolhi para ele.
A informação chegou com o peso específico das revelações que reorganizam uma situação. Wukong havia enfrentado Red Boy meses atrás — um demônio poderoso de fogo, filho do Rei Touro, que havia sido subjugado por Guanyin depois de capturar o mestre. Havia considerado aquilo um problema resolvido. Agora o problema tinha uma mãe, e a mãe tinha o leque que ele precisava.
— Fada — disse Wukong, com aquela mistura de argumento e apelo que era o seu modo de falar quando precisava de algo mas não tinha posição de força — , seu filho está bem cuidado pela Bodhisattva Guanyin. Está protegido, instruído, em caminho diferente do que teria sido como rei de montanha num território cercado de perigos. Não é isso melhor?
— Ele escolheria o caminho dele — disse a Fada. — Você tirou a escolha.
— Fada, não venho pedir que me perdoe. Venho pedir que seu generoso coração considere os inocentes que sofrerão se a Montanha de Fogo não for apagada. As famílias que vivem aqui há gerações plantando e colhendo sob um calor que não podem controlar, que dependem do seu leque a cada dez anos como dependem da chuva e do sol—
— Eles dependem de mim porque eu escolho ajudá-los. Não porque me pertençam.
— Então ajude pela virtude do Mestre Tang, que não tem culpa do que aconteceu ao seu filho. Ajude pelas famílias. Ajude pelo mérito próprio de um ato de compaixão.
A Fada fechou o rosto com aquela firmeza de quem decidiu antes de começar a conversa.
— Não.
E então abriu o leque.
O leque era enorme — muito maior do que parecia quando fechado, desdobrando-se em proporções que desafiavam a geometria do objeto original, como se o espaço dentro de si fosse diferente do espaço fora. Feito do que parecia folha de bananeira mas com uma textura que não era vegetal — mais próxima de metal esmerilhado, de seda endurecida, de algo que havia sido forjado por um processo que não era nem fogo nem tecedura mas alguma arte entre as duas. Havia nele uma qualidade de poder concentrado que Wukong reconheceu com o instinto de quem passou a vida inteira em contato com objetos mágicos: não é a aparência que conta, é o que o objeto faz ao ar ao redor quando está aberto.
Ela o agitou num movimento único, fluido, com a prática de quem usou aquele objeto por séculos.
Wukong voou.
Não metaforicamente. O vento daquele leque era tão absoluto — tão diferente de qualquer vento produzido por natureza ou por magia comum — que não havia resistência possível. Wukong foi lançado pelos ares como uma folha seca num temporal de proporções impossíveis, girou várias vezes sem controle, tentou fixar a nuvem de ouro sob os pés e a nuvem se desfez no vento como fumaça, e foi finalmente depositado numa montanha completamente diferente a uma distância considerável.
Ficou deitado de costas, olhando para o céu que havia ficado subitamente mais sereno acima da montanha onde havia pousado.
— Bem — disse ele para ninguém em particular, com a resignação específica de quem está avaliando um resultado ruim e tentando extrair dele informação útil. — Aquele não foi o resultado desejado.
Levantou-se. Sacudiu a roupa. Começou a pensar.
O leque havia o expulsado mas não o havia ferido — era um vento de afastamento, de remoção, não de destruição. O que significava que o seu princípio era diferente de uma arma. E onde havia princípios, havia limites, e onde havia limites havia formas de trabalhar dentro deles.
Havia um espírito local — o deus da montanha onde havia pousado — que Wukong invocou com uma palmada no chão e uma invocação breve. O espírito desceu numa nuvem baixa: um ancião de aparência gentil, feito da qualidade particular dos espíritos de montanha que existem num equilíbrio preciso entre o visível e o invisível.
— Grande Sábio, que aconteceu?
— Fui mandado para cá pelo leque da Fada Ferro-Leque. Em que montanha estou, e a quantas léguas da Montanha de Fogo?
— Esta é a Montanha do Pequeno Sumeru, no Estado de Tufã — disse o espírito. — A cinquenta mil léguas da Montanha de Fogo.
Cinquenta mil léguas. Wukong assoviou silenciosamente para o horizonte.
— Há algum ser de sabedoria particular aqui?
— Há o Grande Xian Lingji, um discípulo do Buda que vive nestas rochas há eras. Homem de conhecimento considerável e de temperamento hospitaleiro.
Wukong foi visitá-lo. O Xian Lingji era exatamente o que o espírito havia descrito: um ser de boa disposição com o aspecto de um estudioso do tipo que passa a maior parte do tempo em câmaras silenciosas rodeadas de escritos antigos e que desenvolveu para o conhecimento aquela relação de afeto que outros desenvolvem para pessoas.
Ouviu a situação com atenção completa.
— Tenho o que você precisa — disse ele, tirando do interior de sua veste um objeto redondo e suave como uma pérola de jade verde-claro, com uma luz interna que pulsava com a regularidade de uma respiração. — Chama-se Pílula da Fixação ao Vento. Se a engolir antes de ser atingido pelo leque, o vento não pode movê-lo. Seu corpo ficará firme como pedra de granito independente da força aplicada.
— Isso é exatamente o que preciso — disse Wukong, com a gratidão concisa de quem tem pressa mas ainda sabe reconhecer um presente.
Engoliu a pílula. A sensação foi breve — um frescor que desceu pela garganta e se distribuiu pelos membros como raízes invisíveis encontrando chão. Agradeceu o Xian Lingji com a brevidade de quem tem uma montanha para apagar, e voltou voando para o Monte das Nuvens Turquesas.
A segunda tentativa seria diferente.
E de volta à Montanha de Fogo, Tang Sanzang esperava na sombra escassa de uma formação de pedras vermelhas, com o rosário nos dedos e os lábios em movimento de oração, o rosto voltado para a direção de onde Wukong havia partido. Bajie tinha encontrado uma pedra suficientemente plana para deitar e estava usando aquela habilidade específica de dormir em qualquer superfície em qualquer clima. Sha Wujing ficou de pé ao lado do mestre, o cajado plantado no chão, os olhos na distância.
O sol vermelho baixava sobre a montanha em chamas, e as chamas refletiam o sol de volta para o céu num diálogo de luz e calor que havia durado milênios e que, por uma vez, teria fim.
Wukong voltaria. Era o que ele fazia.