Capítulo 54: A Natureza do Dharma Chega ao País das Mulheres — O Coração do Macaco Planeja a Fuga
Os peregrinos chegam ao País Ocidental das Mulheres, onde a rainha deseja desposar Tang Sanzang. Sun Wukong traça um plano ardiloso para escapar sem machucar ninguém.
O País Ocidental das Mulheres começava de forma gradual e depois de forma completa.
Primeiro havia sinais sutis: as aldeias menores tinham apenas vozes femininas, apenas pés pequenos na lama dos caminhos, apenas mãos finas tecendo às portas. As crianças que brincavam nos quintais eram todas meninas de tranças escuras e risos altos que enchiam o ar como pássaros. Depois, conforme os quatro peregrinos se aproximavam da capital, a transformação tornou-se absoluta. Cada mercador no bazar era uma mulher. Cada guarda nas muralhas era uma mulher. Cada músico nos palanquins era uma mulher. Até as crianças eram meninas — não havia nenhum menino em nenhum lugar, nem mesmo nas faces das pinturas que decoravam as paredes dos muros fronteiriços.
Tang Sanzang percorreu aquele espaço com os olhos descidos e o coração em oração silenciosa, como quem atravessa uma brasa sem querer notar o fogo.
As mulheres os receberam com uma mistura de curiosidade e alvoroço que foi ligeiramente desconcertante. Alguém na multidão gritou primeiro, e depois o grito se propagou como centelha em palha seca:
— Sementes humanas! — gritavam algumas, com a mesma inflexão com que alguém poderia gritar "ouro" ou "festa". — Chegaram sementes humanas!
Tang Sanzang ficou vermelho até as orelhas.
A multidão crescia de cada beco e cada porta. Mulheres de todas as idades apareciam — velhas com bengalas de bambu, jovens com cestos no braço, crianças que se espremiam entre as saias das mais altas para tentar ver os quatro estranhos que vinham do leste. Havia nas suas expressões não malícia nem ameaça, apenas a viva e desorientadora curiosidade de quem nunca viu algo que sempre esperou ver.
Zhu Bajie, por sua vez, ficou com os olhos brilhantes e uma expressão que misturava orgulho e confusão.
— Somos populares — observou ele, satisfeito, alisando as orelhas com as costas das mãos.
Sun Wukong fez seu rosto mais assustador, mostrando os dentes amarelos e torcendo os olhos de modo que as mulheres que se aproximavam demais recuavam com gritos. Era eficaz. Sha Wujing segurou o bastão em posição ambígua — nem ataque nem defesa, mas suficientemente visível para fazer as mais corajosas reconsiderarem o avanço.
A funcionária da estalagem oficial — uma senhora de meia-idade com um coque alto e expressão profissional — os recebeu com cortesia e os conduziu ao Chalé da Face ao Sol, que era, descobriram eles, a hospedaria para visitantes estrangeiros. Havia algo de gentileza deliberada na organização do espaço: água quente para lavar os pés, chá servido em tigelas verdes de porcelana, toalhas dobradas com capricho sobre os tamboretes. A anfitriã saiu para reportar a chegada ao palácio com a rapidez de quem tem uma notícia extraordinária para anunciar.
A rainha, quando recebeu a notícia, ficou tão animada que pulou da cama.
Ela havia tido um sonho na noite anterior: um espelho de jade refletindo luz dourada, uma tela de seda pintada com dragões. Toda a corte sabia que aquele era o sonho que anunciava grande prosperidade. Ela o havia guardado como quem guarda uma promessa, e agora a promessa chegava com cara de homem, veste de monge, e aquele ar de dignidade indiferente que fazia o coração acelerar como tambor de festival.
Os quatro peregrinos ainda estavam jantando quando a mensageira voltou, acompanhada de uma senhora idosa de dignidade considerável — a Grã-Tutora, de sobrancelhas brancas e postura de quem carrega décadas de protocolo na espinha — e da própria responsável pela estalagem.
— Maravilhosa notícia — anunciou a Grã-Tutora, inclinando-se diante de Tang Sanzang com um respeito que o deixou desconcertado. — Nossa rainha, ao ouvir da chegada do Venerável Tang, irmão juramentado do imperador da Grande Tang, deseja propor uma aliança. Seria honrada em tomá-lo como consorte real. O País Ocidental das Mulheres oferece suas riquezas, seu trono, e a possibilidade de uma linhagem que perdure por séculos.
Tang Sanzang ficou mais vermelho ainda. Havia na sua expressão o ar específico de alguém que foi surpreendido por uma avalanche de gentileza e não tem como recuar sem ser rude.
Bajie levantou a mão.
— Eu me ofereço — disse ele. — Sou solteiro, disponível, e de constituição robusta.
— Agradecemos — disse a Grã-Tutora, com um sorriso que não chegava aos olhos —, mas a proposta é para o Mestre Tang especificamente.
— Mas observem minha constituição — insistiu Bajie.
— Obrigada, não — disse a Grã-Tutora, com a firmeza de quem tem autoridade para encerrar assuntos indesejados.
Sun Wukong havia ficado em silêncio estratégico durante todo esse exchange. Agora se inclinou para Tang Sanzang e sussurrou, com a voz baixa e o tom de quem já fez os cálculos e quer que o outro confie no resultado:
— Mestre, aceite.
Tang Sanzang quase caiu da cadeira.
— O quê?
— Aceite o pedido de casamento — disse Wukong, em voz baixa e firme. — Tenho um plano. Confie em mim.
— Confie em você para o quê, exatamente? Para me casar com uma rainha de um país sem homens?
— Para nos levar daqui sem que ninguém se machuque. — Wukong piscou. — Se recusarmos agora, elas podem ficar com raiva. Podem nos reter, nos machucar. São gente boa, mas são muitas, e nós somos poucos. Se aceitarmos, podemos tratar do documento de viagem, jantar gentilmente, e depois sair todos juntos sem conflito.
Tang Sanzang compreendeu, e odiou compreender.
Havia momentos na jornada em que o dharma exigia de um homem não a coragem do combate mas a coragem de agir contra os próprios instintos mais honestos. Aquele era, claramente, um desses momentos. Tang Sanzang fechou os olhos por um segundo — o comprimento exato de uma prece muito breve e muito sincera — e depois os abriu novamente.
Com uma expressão de quem está engolindo algo muito amargo, virou-se para a Grã-Tutora e disse:
— A proposta de Sua Majestade nos honra muito. Estamos... abertos a conversas.
A Grã-Tutora saiu radiante, sua postura de protocolo por um momento esquecida em favor da velocidade.
Nos bastidores do palácio, a rainha trocou de roupa três vezes, escolhendo sempre algo mais elegante, e mandou preparar o banquete de noivado, o carro de seis dragões, os músicos, os guardas de honra, as damas de companhia com seus leques de plumas cor de pêssego. Toda a capital soube no espaço de uma hora. As ruas encheram-se novamente, mas desta vez havia flores lançadas dos parapeitos e música tocada nas esquinas, e a cidade tinha o tom de ouro e vermelho de uma celebração que esperava há gerações para acontecer.
Chegou à estalagem em cortejo real, desceu do palanquim com um movimento que era ao mesmo tempo milenar e jovem, e ficou olhando para Tang Sanzang por um longo momento silencioso.
Ela era genuinamente linda. Tinha olhos como os de uma andorinha em voo rasante e sobrancelhas curvadas como pétalas de lótus desenhadas por um pincel seguro, e quando sorriu havia naquele sorriso um calor que não era calculado nem performático. Ela não havia ensaiado aquele sorriso — era simplesmente o que seu rosto fazia quando encontrava algo que o alegrava sem pedir permissão.
— Irmão Dourado da Tang — disse ela, suavemente —, aceitarás compartilhar o trono desta nação comigo?
Tang Sanzang olhou para o chão, incapaz de encontrar aqueles olhos sem sentir uma pontada de algo que ele preferia classificar como compaixão e não como outra coisa. Havia na sua expressão — se alguém olhasse com cuidado suficiente — não desprezo, não indiferença, mas algo mais complicado: a dor específica de um homem que reconhece a beleza do que está à sua frente e ainda assim deve passá-la adiante.
— O Venerável tem sido modesto demais — disse Wukong, interrompendo o silêncio embaraçoso com a velocidade de quem sabe que silêncios demais tornam-se respostas por si sós. — Mestre, suba no palanquim com Sua Majestade. Iremos ao palácio, cuidaremos do carimbo no documento de passagem, jantar todos juntos, e depois nós três seguimos nosso caminho ao Oeste enquanto o Mestre se instala aqui.
Tang Sanzang olhou para Wukong com a expressão de alguém que entende o plano mas não confia completamente nele. Havia entre os dois, naquele olhar, uma conversa inteira sem palavras: você tem uma saída planejada? / Tenho. / Jura? / Pelo meu bastão e pela minha cabeça raspada.
— Jure-me que há uma saída — murmurou.
— Juro por minha cabeça raspada — disse Wukong, com aquele sorriso de macaco velho que significava tanto "confie em mim" quanto "pode ser que eu improvise um pouco pelo caminho".
E assim Tang Sanzang subiu no palanquim ao lado da rainha, que tomou sua mão com delicadeza e ficou olhando para ele como se fosse a coisa mais preciosa que já havia visto em todos os seus anos de governo — como se cada manhã que ela havia acordado rainha de um país de mulheres tivesse sido, sem ela saber, a preparação para este momento específico.
Bajie correu à frente, chegou primeiro ao palácio, e ficou circulando pela sala do banquete admirando as tigelas de jade e os copos de cristal com a expressão de alguém que está calculando quanto vai comer e em que ordem.
O banquete foi esplêndido. Havia pratos que nenhum deles havia provado, sabores que não tinham nome em nenhuma língua que conheciam — doces com a flor de lótus que crescia nos lagos do jardim, salgados perfumados com ervas de montanhas que só existiam neste reino onde o outono chegava diferente. Havia vinho de flores que perfumava o ar como um jardim inteiro destilado em líquido, e as músicas tocadas pelas mulheres da corte tinham aquela cadência peculiar de melodias que cresceram sem nunca precisar ser entendidas por homens.
A rainha serviu Tang Sanzang com suas próprias mãos, colocando os melhores pedaços em seu prato, enchendo seu copo antes que esfriasse, inclinando-se para perguntar se estava satisfeito com uma voz que tinha nela o timbre de quem genuinamente se importa com a resposta.
Tang Sanzang comeu com o ar de alguém que sabe que está sendo executado com muita gentileza. Cada gesto carinhoso da rainha chegava até ele como uma faca suave: não cortava mas pesava.
Bajie comeu com o abandono completo de quem não se preocupa com dignidade. Encheu o prato quatro vezes. Pediu o vaso do vinho para si. Quando as mulheres da corte olhavam para ele com expressão de desgosto genuíno, ele retribuía o olhar com tal entusiasmo que elas desviavam o rosto rindo apesar de si mesmas.
Quando o banquete terminou, Wukong ficou de pé.
— Mestra Rainha — disse ele, com a dicção cuidadosa de quem está tocando numa corda que precisa da tensão exata —, como o Mestre Tang precisará de seus documentos de viagem para quando voltar da missão e quiser visitar sua bem-amada esposa, poderíamos por favor cuidar dos selos agora? E talvez permitir que nós três nos despedíssemos da capital antes de a senhora e o Mestre se recolherem para os aposentos reais?
A rainha, num estado de felicidade que embotava um pouco o raciocínio crítico — aquele estado específico de quem está no centro de uma festa esperada há muito tempo e ainda não acredita completamente que acontece de verdade —, concordou. Mandou buscar os documentos, carimbou com o grande selo imperial, assinou com sua própria caligrafia numa tinta vermelha escura que cheirava a bambu molhado.
Wukong pegou o documento com um sorriso gentil. Dobrou-o com cuidado, passou para Sha Wujing, que o colocou no embrulho dos pertences com a discrição de quem entende a importância do gesto.
E então Wukong disse, em voz clara e firme:
— Mestre, vamos.
Tang Sanzang desceu do palanquim com a rapidez de alguém que estava esperando essa palavra desde o início — com o alívio físico de um homem que havia segurado o ar nos pulmões por horas e finalmente podia deixar sair.
A rainha levou um segundo para compreender o que estava acontecendo. Depois mais um segundo. E então o entendimento chegou, e com ele aquela expressão específica — não de raiva mas de algo mais fundo, mais doloroso, a expressão de alguém que entende que foi gentilmente enganado por uma gentileza ainda maior.
— Mas... ficou decidido que...
— Ficou decidido que obtaríamos os documentos e nos despedíssemos na saída da cidade — disse Wukong, com toda a gentileza que conseguiu reunir. — O que estamos fazendo agora, Majestade. Com todo o nosso respeito e gratidão.
A rainha ficou de pé. Os olhos ficando brilhantes não de alegria, mas com as lágrimas específicas de quem não vai chorar mas não pode impedir que os olhos saibam o que o coração sente.
— Você prometeu!
— Eu fiz o que precisava ser feito para garantir que saíríamos todos em paz — disse Tang Sanzang, com a voz trêmula de alguém que está sendo honesto às custas de um custo emocional real. Sua voz carregava a tonalidade exata da confissão: não havia prazer nem leveza nela. — Perdoe-me, Majestade. Não posso abandonar minha missão. Mas carregarei comigo a memória da sua bondade pelo resto dos meus dias, e essa memória será pura porque não será manchada pela minha falta de honra.
Bajie ficou ao fundo, com cara de quem preferia não estar presente para esta parte e estava se arrependendo de ter comido tanto, porque agora não tinha a desculpa da fome para sair correndo.
A rainha fez uma coisa que nenhum deles esperava: não mandou seus guardas prender os peregrinos. Não gritou. Não ordenou nem implorou. Ficou parada no patamar do palanquim, com os olhos brilhantes sobre a multidão que observava em silêncio, e disse apenas:
— Vão com segurança.
E na voz havia não resignação mas uma qualidade diferente e mais difícil de nomear: a dignidade de quem decide não diminuir a si mesmo pela dor de ter sido deixado.
Wukong fez uma reverência profunda. Tang Sanzang também, com a testa inclinada, os olhos fechados, como numa prece de despedida.
Sha Wujing tomou o cavalo pelo freio. Bajie pegou o fardo. E os quatro peregrinos voltaram pelas ruas da capital em direção ao portão ocidental, enquanto atrás deles a capital permanecia imóvel como numa pintura — toda aquela multidão de mulheres, toda aquela cidade de flores, toda aquela vida de um país construído sem homens e agora novamente sem eles.
Estavam quase fora dos portões — o ar já tinha a qualidade diferente do lado de fora, mais seco, menos perfumado — quando um redemoinho de vento desceu do nada, um vento que não vinha de nenhuma direção identificável mas de todas ao mesmo tempo, e uma figura feminina surgiu na estrada, bloqueando o caminho com o corpo e com aquela aura específica de poder que não pertence a seres humanos.
— Tang Dourado — disse a voz, e havia nela uma doçura que era a doçura do mel envenenado, a doçura de algo que promete prazer e entrega outra coisa —, venha brincar comigo.
Sha Wujing levantou seu cajado e atacou, mas a mulher desapareceu num turbilhão como fumaça que o vento dispersa, e quando o vento baixou, Tang Sanzang tinha desaparecido com ela — apenas o cavalo branco ficou para trás, sacudindo a cabeça como quem tenta entender o que acabou de ver.
O silêncio que se seguiu foi o silêncio de alguém que acabou de ganhar e perder ao mesmo tempo.
Sun Wukong olhou para o lugar vazio onde seu mestre havia estado e disse, com uma voz muito calma — a calma de quem sabe que a raiva não resolve o problema mas ainda assim a sente:
— E agora temos um demônio diferente para lidar.
A estrada para o oeste continuava à frente, indiferente. O vento já havia parado. A noite começava a cair sobre o País das Mulheres, e lá dentro, na capital que deixavam para trás, uma rainha estava de pé numa varanda alta, olhando para o horizonte ocidental com aquela expressão que não é tristeza nem esperança mas o espaço exato entre as duas — o espaço onde as histórias que não aconteceram ficam guardadas para sempre.