Capítulo 53: O Mestre Bebe a Água Maldita — A Esposa Amarela Traz o Remédio
Tang Sanzang e Zhu Bajie bebem por engano das águas do Rio Mãe-e-Filho e engravidam. Sun Wukong deve encontrar a água do poço medicinal na Caverna do Parto para salvar seus mestres.
O espírito da Montanha Dourada os despediu com uma tigela de arroz quente e bênçãos sinceras, e os quatro peregrinos continuaram seu caminho a ocidente. A primavera havia chegado cedo naquelas terras remotas: andorinhas de bico vermelho faziam seus ninhos nos galhos curvos sobre os caminhos, e o vento carregava perfume de ameixeiras que floresciam sem que ninguém as plantasse.
Tang Sanzang respirou fundo e sentiu, por alguns instantes preciosos, que tudo estava bem.
Então encontraram o rio.
Era um riacho de aparência inocente, com águas transparentes que corriam sobre pedras cinza entre duas margens de salgueiros. Não havia nada de ominoso nele — nenhum cheiro estranho, nenhuma coloração suspeita, nenhuma vibração de magia nas margens. Apenas água limpa e fresca num dia de primavera.
— Estou com sede — disse Tang Sanzang.
Zhu Bajie não esperou pela permissão de ninguém. Encheu a tigela e bebeu longamente, depois a encheu de novo e passou ao mestre com um sorriso satisfeito.
Tang Sanzang bebeu metade e o resto voltou para Bajie, que esvaziou a tigela com prazer.
Sha Wujing apontou para uma placa de madeira apodrecida na margem. Havia caracteres gravados que o tempo quase havia apagado, mas ainda eram legíveis: Rio Mãe-e-Filho.
— Que nome estranho para um riacho — disse Sha Wujing.
Sun Wukong examinou as margens com olhos estreitados. Havia uma energia aqui, antiga e fértil, e não lhe agradava.
Continuaram o caminho. Passaram-se talvez trinta minutos quando Tang Sanzang franziu o cenho e colocou a mão no abdômen.
— Estou sentindo... algo estranho.
Zhu Bajie gemeu ao mesmo tempo.
— Eu também. Uma cólica muito estranha.
Nos minutos seguintes, as cólicas se tornaram mais intensas, e os dois começaram a notar com crescente alarme que seus ventres estavam inchando. Não gradualmente, como quando se come demais, mas de forma rítmica, pulsante, como se algo vivo se movesse dentro deles.
Wukong os examinou com atenção clínica e chegou a uma conclusão que preferia muito não ter chegado.
— Vocês beberam a água do Rio Mãe-e-Filho.
— E? — disse Bajie, ainda esperançoso.
— Neste reino — explicou Wukong com uma paciência que escondia mal o seu desconforto —, esse rio é o único substituto dos homens. As mulheres daqui bebem dele quando atingem vinte anos e concebem. Levam três dias para parir.
Seguiu-se um silêncio de peso considerável.
— Mas nós somos homens — disse Tang Sanzang, com voz fininha.
— Homens que beberam a água.
Bajie emitiu um som que não era bem um grito mas tampouco era calmo. Era um som de alguém que está tendo uma revelação profundamente indesejada.
— Vou parir? Eu, um porco, vou parir?
— Pelo jeito, sim — disse Wukong.
— Mas por onde vai sair? — perguntou Bajie, com uma voz que tinha adquirido várias oitavas extras.
— Pelos flancos, provavelmente, quando o feto amadurecer — disse Wukong, com o tom neutro de quem está recitando fatos medicinais desagradáveis.
O choro de Bajie foi alto e não muito digno. Tang Sanzang gemeu em silêncio, as mãos no abdômen, os olhos fechados com a expressão de alguém que está tentando se convencer de que está sonhando.
Chegaram a uma aldeia de casas vermelhas onde as mulheres os receberam com sorrisos sabedores. Uma velha de rosto enrugado e olhos espertos examinou as barrigas crescentes dos dois peregrinos e deu uma gargalhada tão sonora que as galinhas fugiram do quintal.
— Beberam do Rio Mãe-e-Filho! — exclamou ela, sem nenhuma tentativa de disfarçar a diversão. — Bem-vindos ao nosso reino, novos cidadãos!
— Existe algum remédio? — perguntou Wukong diretamente.
— Existe — disse a velha, ainda sorrindo. — Na Montanha da Dissolução, a três mil li daqui, há uma gruta chamada Caverna do Parto. Dentro da gruta há um poço chamado Fonte do Nascimento Interrompido. Quem beber dessa água aborta o feto. Mas o guardião daquela gruta, um imortal chamado Xian da Vontade, não dá a água a ninguém sem presentes adequados — quatro porcos, quatro carneiros, vinho, frutas, incenso. São pessoas simples que trabalham duro; onde vão arranjar tudo isso?
— Não são pessoas simples — disse Wukong. — Mas sou eu que vou buscar a água, não eles.
Pegou a tigela que a velha lhe ofereceu e disparou nos ares.
A Montanha da Dissolução era um lugar de beleza selvagem, com flores silvestres cobrindo encostas íngremes e cascatas que cantavam entre penhascos de jade. Na entrada de uma gruta, Wukong encontrou um velho imortal sentado ao sol, tocando uma cítara.
— Viajante da Buda — disse o imortal, sem parar de tocar. — Que te traz aqui?
— Meu mestre bebeu a água do Rio Mãe-e-Filho por engano — explicou Wukong. — Ele e meu irmão de jornada precisam da água deste poço para se livrar da condição em que estão. Venho pedir um favor, não trazer presentes, porque sou um peregrino em missão sagrada. Peço que considere nossa situação com misericórdia.
O imortal parou de tocar e olhou para Wukong.
— Você é Sun Wukong, o Grande Sábio Igual ao Céu.
— O mesmo.
— Então é parente do Rei Demônio do Touro — disse o imortal, e a simpatia em seu rosto fez lugar a algo mais frio. — Aquele ser destruiu meu sobrinho, o Santo Infante do Fogo. Sou irmão do Rei Demônio do Touro. E você acha que vou dar água ao discípulo de quem capturou meu sobrinho?
Wukong cerrou os dentes. A história nunca era simples.
— Tio de Red Boy... — murmurou ele. Então, em voz mais alta: — Red Boy está bem! O Bodhisattva Guanyin o acolheu como discípulo. Ele é um Menino da Fortuna agora, ao lado da Grande Misericórdia. Isso não é melhor do que ser rei de uma montanha perdida?
— Ser rei era sua escolha — disse o imortal. — Servir é servidão.
— Seja como for — respondeu Wukong, perdendo a paciência —, seu sobrinho está vivo e bem cuidado. Agora, você vai me dar a água ou não?
— Não.
A batalha foi rápida e desequilibrada em favor de Wukong, que tinha mais treinamento, mais astúcia e o Bastão de Ouro. Em três encontros, o imortal foi derrubado duas vezes por ganchos nos tornozelos que o mandaram cara no chão. Na terceira, Wukong usou o truque do tigre-de-montanha — fingiu recuar, virou repentinamente, e deixou o imortal avançar direto para um golpe de bastão no peito que tirou o fôlego do ancião por um tempo considerável.
Enquanto o imortal se recuperava no chão, Wukong entrou correndo na gruta, foi até o poço, e começou a puxar água.
O imorsal se arrastou até a entrada da gruta.
— Não vai deixar eu pegar a água em paz? — perguntou Wukong, com a voz de quem acha tudo isso cansativo.
— Você entrou no meu poço sem permissão!
— E você negou água que cura a quem dela precisa. Cada um tem suas razões para não ficar feliz com o outro. — Wukong encheu a tigela de jade até a borda. — Mas eu preciso ir.
O imortal, deitado ao sol com os ossos doloridos, viu Wukong sair, parou a meio um gesto de lançar mais um ataque, e deixou o braço cair. Havia dignidade em saber quando a batalha estava perdida.
Wukong voltou para a aldeia em tempo de ver Bajie curvado sobre si mesmo, gemendo com a frequência de alguém que está convencido de que vai morrer. Tang Sanzang estava sentado com os olhos fechados, tentando usar meditação para superar a dor, sem muito sucesso.
A velha encheu duas taças pequenas de porcelana azul — não a tigela inteira, apenas um cálice cada um.
— Não bebam tudo de uma vez — alertou ela. — Uma pequena quantidade resolve. Se beberem demais, dissolverão tudo — inclusive o que não devem dissolver.
Tang Sanzang bebeu seu cálice com a dignidade de um monge recebendo um elixir sagrado.
Bajie pegou a tigela e tentou beber tudo.
— Não! — gritou a velha.
— Só um gole a mais — suplicou Bajie.
— Você vai se dissolver por dentro!
Bajie largou a tigela com uma expressão de quem acabou de ser privado de uma sobremesa muito merecida.
Em menos de uma hora, os dois estavam curados. As cólicas desapareceram, os ventres voltaram ao tamanho normal, e Bajie ficou de pé, espreguiçando-se como se nada tivesse acontecido.
— Bem — disse ele —, isso foi uma experiência que prefiro não repetir.
— Todos nós — concordou Sha Wujing.
Tang Sanzang inclinou-se diante da velha em agradecimento profundo.
— Você nos salvou. Que o céu recompense sua bondade.
— O céu já me recompensou muito — disse a velha, sorrindo. — Por favor, tomem este arroz que fiz para a jornada. E cuidem do macaco — ele trabalha muito e reclama pouco, o que é raro neste mundo.
Wukong recebeu este elogio com um sorriso que tentou esconder atrás de uma expressão de falsa modéstia.
Quando os quatro peregrinos partram da aldeia, o sol estava alto e dourado, e a estrada para o oeste se abria bela e clara na distância.
Continuariam.