Capítulo 48: O Demônio Conjura Vento Frio e Faz Cair Grande Neve; O Monge Deseja Reverenciar o Buda e Atravessa o Gelo
O Rei Sensível, humilhado, planeja uma armadilha: usa poderes de neve e gelo para congelar o Rio Celestial inteiro, e recruta peixes disfarçados de viajantes para enganar Tang Sanzang a atravessar pelo gelo. No meio da travessia, o gelo quebra e Tang Sanzang cai nas águas do demônio, sendo capturado enquanto os três discípulos escapam para as margens.
O Rei Sensível desceu ao fundo do Rio Celestial com a humilhação específica de alguém que havia sido surpreendido durante um ritual que considerava garantido há décadas. Não era a humilhação da derrota em combate — isso ele poderia ter absorvido com mais facilidade, porque derrota em combate implicava pelo menos que houvera combate. Era a humilhação mais corrosiva de ter chegado a uma cerimônia de recebimento e encontrado lá dois seres que estavam à sua espera com armas desdobradas. Havia sido enganado. E o engano havia acontecido antes que ele chegasse ao templo, na substituição das crianças que ele não havia percebido.
As criaturas do palácio aquático reuniram-se ao redor dele no salão de coral e jade. Bagres anciãos que haviam servido no conselho por décadas. Carpas de escamas manchadas que conheciam os segredos de quinhentos anos de rio. Enguias que emergiam das fendas do fundo quando havia assunto sério. O palácio era belo com a beleza específica do que fica no fundo das coisas — sem a luz direta que simplifica, iluminado por bioluminescência que tornava tudo ligeiramente mais complexo do que parecia na superfície.
— O que aconteceu, Grande Rei? — perguntou um bagre velho que havia estado presente em todos os conselhos que o Rei Sensível havia convocado em quarenta anos.
— As crianças eram impostores — disse o Rei Sensível. — Um deles era Sun Wukong.
Silêncio de fundo de rio — não o silêncio da superfície, que sempre tem vento ou pássaro ou o som distante de algo acontecendo em algum lugar, mas o silêncio denso das profundezas onde o som se move de forma diferente.
— Aquele que perturbou o Palácio Celestial — disse o bagre.
— O mesmo. E havia um outro — um demônio com rastelo de origem celestial. Não foi possível combater os dois sem armas.
A carpa de escamas manchadas avançou do seu canto com o movimento dos que não são consultados formalmente mas são ouvidos quando falam porque o que dizem costuma ser útil.
— O Grande Rei tem poderes que aquele macaco não tem — disse ela. — O macaco voa, transforma-se, tem o bastão. Mas o macaco não faz neve. O macaco não faz gelo. O macaco não pode congelar oitocentos li de rio numa única noite com o esforço de quem respira.
O Rei Sensível ficou em silêncio.
— E os viajantes precisam cruzar — continuou a carpa. — Não têm barco. Não têm ponte. A única maneira de cruzar oitocentos li de água é pela superfície, e a superfície só é sólida quando está congelada. Se o rio estiver congelado, e se houver figuras que pareçam pessoas comuns atravessando pelo gelo, o monge Tang vai concluir que é seguro e vai querer passar. — A carpa pausou com a precisão de quem sabe onde colocar o silêncio numa explicação. — E quando estiverem no meio — no ponto mais distante de qualquer margem, no ponto onde o peso de um cavalo e quatro pessoas está mais concentrado — o Grande Rei parte o gelo por baixo desse ponto exato. A água do fundo, que é a mais fria, encerra o problema.
— O macaco vai voar — disse o bagre.
— O macaco sempre voa — disse a carpa. — Os outros dois discípulos são criaturas de água e vão nadar. Mas o monge Tang não voa e não nada. E é o monge Tang que importa.
O Rei Sensível olhou para as paredes do palácio aquático — o coral velho, o jade do fundo, os relevos de escamas e conchas que decoravam as colunas. Havia governado esse rio há décadas com o arranjo do sacrifício anual, um arranjo que havia funcionado porque as aldeias da margem não tinham escolha e porque ninguém de poder suficiente havia aparecido para contestá-lo. Agora havia aparecido. E a resposta não era abandonar o rio — era adaptar os meios.
— Congelo — disse ele.
A neve começou às três da manhã do dia seguinte.
Sun Wukong acordou com ela — não pelo som, que era mínimo no início, o sussurro quase inaudível de flocos encontrando o telhado de colmo da estalagem onde os peregrinos dormiam. Acordou pela mudança na qualidade do ar, que ele havia aprendido a ler ao longo de décadas como outros leem rostos — a queda súbita de temperatura que não correspondia ao vento, a umidade aumentando de um tipo para outro tipo, a pressão sobre os ouvidos que a neve produz antes de cair quando a acumulação no céu é muita.
Ficou sentado na sua esteira de cipó no quarto do ancião Chen e ouviu. O vento havia parado completamente — a neve cai com mais eficiência sem vento, e havia algo deliberado nessa calmaria, como se o ar tivesse recebido instruções. Lá fora, no pátio, o primeiro acúmulo sobre as pedras era já silencioso, branco na escuridão com a brancura que a neve tem quando não há luz mas há neve suficiente para ser a própria fonte de claridade.
Bajie estava roncando com a regularidade de algo que havia decidido que o sono era mais importante do que qualquer informação nova que a noite pudesse conter.
Sha Wujing estava acordado. Havia acordado antes de Sun Wukong — a qualidade de atenção no silêncio do terceiro discípulo era diferente do sono e diferente da vigília comum. Era a atenção de quem havia vivido sozinho por muito tempo e havia desenvolvido uma relação diferente com o estado intermediário entre estar acordado e estar dormindo.
— Está fazendo neve — disse Sha Wujing em voz baixa.
— Sei — disse Sun Wukong.
— Em agosto.
— Sei.
Tang Sanzang estava na janela do quarto principal, que dava para o jardim do ancião e para a margem do rio além. Recitava em voz baixa — não os sutras longos da meditação formal, mas as passagens curtas que ele recitava quando o silêncio precisava de alguma coisa dentro dele. A neve caía no jardim com uma equalidade que não discriminava flores de pedras de terra nua, cobrindo tudo com a mesma camada de branco que era simultaneamente apagamento e preservação.
Quando amanheceu, havia cinquenta centímetros de neve no pátio da Aldeia Chen, e a neve continuava caindo com a constância de algo que não havia recebido instruções para parar.
— Isso não é natural — disse Sun Wukong para o ancião, que havia saído com um cobertor de lã nos ombros para ver o que havia acontecido com o mundo durante a noite.
— É agosto — disse o ancião. O jardim que ele havia cuidado por quarenta anos estava completamente branco, as ervas medicinais e as flores tardias enterradas sob meio metro de neve que não deveria existir naquele mês naquela latitude. — A neve aqui é rara mesmo no inverno. Assim...
Gesticulou para o branco que cobria tudo — os telhados, os caminhos, a margem do rio, o próprio rio que havia começado a desenvolver bordas de gelo nas margens durante a noite.
— É o demônio — disse Sun Wukong. — Está preparando algo. O gelo é a preparação.
Ficou olhando para o rio com os olhos dourados que distinguiam a natureza espiritual do que parecia natural. A neve que caía tinha uma qualidade diferente da neve comum — cada floco individual era perfeito demais, com uma simetria que a neve produzida por pressão atmosférica raramente consegue manter, a simetria de algo feito com intenção em vez de condensado por acidente.
A neve parou ao meio-dia com a abruptidão de algo que havia cumprido uma medida determinada.
Por dois dias, os peregrinos ficaram na Aldeia Chen. O ancião insistia que esperassem pelo degelo com o argumento razoável de que nenhuma travessia de rio congelado em agosto havia terminado bem na memória da aldeia, e preparava refeições progressivamente mais elaboradas com a hospitalidade de quem usa a comida para dizer o que a situação não permite dizer diretamente: fiquem, a gratidão não tem pressa, há espaço aqui para quem salvou as crianças.
Bajie estava explicitamente satisfeito com o arranjo e não fazia esforço para disfarçar isso. Sha Wujing aproveitava as horas livres para remendar as costuras das sacolas de couro que haviam sofrido com as montanhas e os rios anteriores, trabalhando com a paciência silenciosa de alguém que encontra no trabalho manual um tipo de meditação que as palavras não oferecem. Tang Sanzang ficava inquieto da maneira que o inquietava desde Luoyang — a inquietude de alguém que sabia que havia uma direção e que cada dia sem movimento era um dia que o imperador esperava, que a Terra Pura esperava, que os sutras que precisavam de ser buscados esperavam numa prateleira distante de uma biblioteca que ele ainda não havia chegado.
Saía para o jardim nevado do ancião no início da manhã e recitava com os pés descalços na neve, voltando com os dedos vermelhos do frio e a expressão de quem havia conseguido manter o foco apesar do frio, ou talvez por causa dele — o frio físico como âncora da atenção que o conforto às vezes dissolvia.
No terceiro dia, um mercador que passava pelo porto da aldeia com um burro carregado de tecidos disse, com a indiferença de quem transmite uma notícia que para ele era simples logística, que o Rio Celestial estava congelado de margem a margem e que havia pessoas atravessando. Havia visto da colina ao norte.
Tang Sanzang ouviu isso e disse que queria ver.
O rio congelado era, objetivamente, impressionante.
Oitocentos li de água que havia engolido pedras e espelhado luas estava agora coberto de uma superfície que refletia o sol da manhã com a claridade de um espelho enorme e perfeito — mais perfeito do que gelo natural costuma ser, sem as bolhas e rachaduras e colorações irregulares que o gelo produzido por temperatura produz. Este gelo era uniforme com a uniformidade de algo que havia sido feito, não formado.
E havia, como o mercador havia dito, figuras movendo-se sobre o gelo. Seis ou sete delas, com pacotes nas costas e a postura de pessoas acostumadas a cruzar rios congelados, avançando da margem oposta em direção à margem onde os peregrinos estavam parados. Moviam-se com a calma segura de quem conhece o terreno.
— Veja — disse Tang Sanzang para Sun Wukong. — Há pessoas atravessando. Se é seguro para elas, é seguro para nós.
— Mestre — disse Sun Wukong — aquelas figuras no gelo...
— Parecem mercadores. Carregam fardos.
— A distância, sim.
Tang Sanzang já havia descido do cavalo. Havia na sua determinação naquele momento uma qualidade que Sun Wukong reconhecia e que era, em certos sentidos, a coisa mais difícil de contornar no mestre: não era teimosia, que seria simples de trabalhar — era a convicção genuína de alguém que havia decidido que o propósito não podia esperar mais. Oito anos de peregrinação. A promessa ao imperador. Os sutras em Gridhrakuta que ele não havia visto ainda mas que existiam, que eram reais, que precisavam de ser buscados. A pressão acumulada de oito anos de atrasos estava presente naquele passo em direção ao gelo.
Sun Wukong olhou para as figuras com os olhos dourados focados não nas formas mas na natureza espiritual por trás das formas. O que viu não era energia humana — era a energia de peixes em forma emprestada, a qualidade de algo que pertencia à água e havia assumido temporariamente a aparência de coisa que pertencia ao ar. As figuras moviam-se com a fluência ligeiramente errada de quem está imitando o movimento humano em vez de realizando-o.
— Mestre, essas figuras são peixes disfarçados.
— Sun Wukong — disse Tang Sanzang com a paciência cultivada de anos — você vê demônios em tudo.
— Porque há demônios em tudo nesta parte do caminho. Este rio tem um espírito com motivo específico para nos prejudicar. O gelo está aqui em agosto quando não deveria estar. E as figuras naquele gelo têm a energia de peixes, não de pessoas.
— O ancião disse que mercadores costumam cruzar o rio congelado.
— No inverno. Quando é natural que congele. Isso é agosto.
— Talvez seja frio incomum este ano.
— Mestre, nada nesta situação é natural.
Bajie havia testado o gelo com o rastelo de nove dentes enquanto os outros dois discutiam — bateu com as duas mãos com força sobre a superfície. O gelo não cedeu. O rastelo voltou com a vibração de algo que havia encontrado resistência sólida demais para qualquer rastelo humano.
— Está congelado de verdade — disse Bajie. — Firme. — Uma pausa enquanto ele olhava para as figuras distantes e depois para as oferendas de comida que havia sobrado do jantar do ancião embrulhadas na bagagem. — Se é firme o suficiente para mercadores, é firme o suficiente para nós. E quanto mais demoramos, mais tempo ficamos aqui sem cruzar.
Tang Sanzang montou no cavalo.
— Estamos atrasados oito anos — disse ele, e havia na sua voz a qualidade de alguém que havia chegado a uma decisão através de uma contabilidade que não precisava de mais argumentos. — A promessa ao imperador era de três anos. Cada dia que passa é mais uma lacuna que preciso explicar ao Céu e ao imperador tanto. — Começou a mover o cavalo em direção à beira do gelo. — Vou cruzar.
Sun Wukong ficou parado por um momento.
Havia situações em que a oposição era possível e situações em que a oposição produzia exatamente o resultado que se queria evitar — Tang Sanzang, quando contrariado com suficiente firmeza, desenvolvia uma teimosia reflexiva que ultrapassava a convicção original. O mestre estava decidido. E havia a possibilidade, pequena mas presente, de que Sun Wukong estivesse errado sobre as figuras, de que o gelo fosse de fato seguro, de que o Rei Sensível não tivesse construído uma armadilha tão elaborada quanto parecia.
Havia também a possibilidade de que estivesse completamente certo sobre tudo. E as possibilidades não tinham o mesmo peso.
Foi buscar o ancião, que estava na entrada do portão observando com a expressão de quem havia dito o que podia dizer e sabia que não tinha mais argumentos disponíveis.
— Preciso de um feixe de palha — disse Sun Wukong.
— Para quê?
— Para embrulhar os cascos do cavalo. O gelo é escorregadio.
O ancião foi buscar a palha sem fazer outras perguntas — havia algo no tom de Sun Wukong que era diferente da argumentação anterior, uma qualidade de alguém que havia aceitado o que não podia mudar e estava agora fazendo o que era possível dentro disso.
Os cascos do cavalo branco foram embrulhados em palha com a atenção de um trabalho que importava. O cavalo ficou quieto durante o processo, com a paciência de alguém que compreendia o propósito mesmo sem poder alterar o que estava por vir.
A travessia começou com a calmaria de algo que funciona.
O gelo era sólido — não apenas firme, mas sólido com uma solidez que ultrapassava qualquer gelo produzido por temperatura, com a qualidade densa de algo que havia sido criado para ser sólido até o momento específico em que fosse útil não ser. Os cascos do cavalo branco, envolvidos em palha, não deslizavam. Os pés de Bajie e Sha Wujing tinham aderência suficiente. Sun Wukong caminhava na frente com o bastão horizontal — não a posição de combate, mas a posição de segurança que Bajie havia sugerido com mais perspicácia prática do que habitualmente demonstrava: se o gelo cedesse sob alguém, um bastão horizontal sobre o buraco poderia servir de apoio antes da queda.
Percorreram o primeiro terço.
Duzentos e tantos li de gelo uniforme, o sol da manhã refletindo em todas as direções com a intensidade de luz duplicada, o rio completamente silencioso abaixo deles — sem o movimento que a água corrente faz mesmo quando está sob gelo, sem o som de corrente que o ouvido de Sun Wukong esperava e não encontrava.
Isso também é errado, pensou ele. Rios de oitocentos li não ficam silenciosos completamente, mesmo sob gelo de cinquenta centímetros. Há sempre algum movimento, algum som.
Percorreram o segundo terço.
As figuras de peixes disfarçados haviam chegado à margem donde os peregrinos tinham partido e desaparecido — não como pessoas que chegam a uma margem e sobem para terra firme, mas como figuras que simplesmente deixaram de estar visíveis antes de chegarem completamente à margem, a dissolução de uma ilusão que havia cumprido o seu propósito de atrair.
Sun Wukong olhou para trás para verificar se Tang Sanzang havia percebido. O mestre estava olhando para a frente, para a margem oposta que ainda estava a mais de duzentos li, com a expressão de alguém focado no destino.
Percorreram mais cinquenta li.
Estavam no meio do rio — no ponto de oitocentos li exato, equidistante de ambas as margens, o ponto mais distante de qualquer possibilidade de margem, com o peso de um cavalo e quatro pessoas concentrado naquele único ponto da superfície.
Sun Wukong sentiu antes de ouvir — a vibração no gelo abaixo dos pés, não a vibração de gelo que cede por pressão, que começa nas bordas e progride, mas a vibração de algo grande se movendo nas profundezas diretamente abaixo com velocidade e propósito. A vibração de um ser de tamanho considerável que havia estado esperando exatamente ali, no exato ponto médio, durante todo o tempo da travessia.
— Fujam! — disse ele.
A palavra ainda estava no ar quando o gelo abriu.
Não foi uma rachadura gradual. Foi uma abertura súbita com o som de trovão subaquático — não a superfície cedendo por peso, mas a superfície sendo aberta por força aplicada de baixo, o gelo estilhaçando num círculo perfeito de raio de dez metros com o cavalo branco e Tang Sanzang exatamente no centro. A abertura tinha a precisão de algo guiado, não a irregularidade de algo que cede.
Sun Wukong saltou para o ar no instante da abertura — o instinto era mais rápido que o pensamento, e o ar era o elemento onde nenhuma armadilha aquática funcionava.
Bajie e Sha Wujing mergulharam. Bajie havia sido almirante celestial dos rios antes de ser monge peregrino e a água era para ele como o ar para Sun Wukong — um elemento de familiaridade e não de ameaça. Sha Wujing havia vivido no Rio de Areia por quatorze anos e as profundezas eram para ele algo próximo de lar. Ambos emergiram em menos de dois minutos com as bagagens ainda embrulhadas, o cavalo branco guiado para cima pela força dos seus braços, a água escorrendo dos equipamentos com o barulho de algo que havia estado onde não deveria e estava voltando.
Tang Sanzang não emergiu.
Sun Wukong, no ar sobre o buraco no gelo que estava lentamente se fechando de volta — o gelo tinha memória, ou o feitiço tinha continuidade — olhou para dentro da água escura do Rio Celestial.
Nas profundezas, descendo com a velocidade calma de quem tem destino definido, o Rei Sensível segurava Tang Sanzang com as duas mãos. O mestre estava imóvel na água — não morto, não desmaiado, mas com a imobilidade específica de alguém que está sendo levado por algo mais forte e que ainda não descobriu o que pode fazer dentro dessa circunstância. Os olhos do mestre estavam abertos. Olhavam para cima, para a superfície que se afastava, para a luz que diminuía.
O buraco no gelo fechou.
Sun Wukong ficou no ar sobre o gelo fechado por um momento que tinha a qualidade dos momentos em que a situação precisa ser processada completamente antes de qualquer ação ser possível.
Os três discípulos voltaram para a Aldeia Chen com o cavalo branco encharcado, as bagagens salvas pela competência aquática de Bajie e Sha Wujing, e o mestre ausente. A margem do rio, que havia estado branca de neve, estava agora marcada pelo buraco que o Rei Sensível havia feito — uma cicatriz escura no gelo que o frio já estava trabalhando para cobrir de volta.
O ancião saiu ao portão quando ouviu as pegadas molhadas no caminho de pedra. Olhou para os três e para o cavalo e para o espaço vazio onde deveria estar a quarta figura.
— O monge Tang — disse ele.
— Capturado — disse Sha Wujing. — O Rei Sensível estava esperando exatamente no meio.
O ancião ficou em silêncio com a qualidade de alguém que havia esperado um resultado e que a chegada do resultado não tornava mais fácil de receber.
— Eu disse para esperar o degelo natural — disse ele, eventualmente, sem acusação na voz — apenas o cansaço de alguém que havia dito o que podia e que o que podia não havia sido suficiente.
— O mestre estava preocupado com o tempo já perdido — disse Sha Wujing.
— O tempo que perde agora é maior.
Sun Wukong não disse nada. Estava de pé na margem do rio olhando para o gelo com a expressão de alguém que está catalogando variáveis.
O problema tinha a seguinte forma: o combate aquático era o ponto mais vulnerável da sua formação. Era voador, era transformista, tinha o bastão — no ar e na terra não havia ser vivo que o superasse. Mas nas profundezas de um rio controlado por um espírito aquático de poder estabelecido, as suas vantagens eram neutralizadas e as do adversário eram amplificadas. Bajie e Sha Wujing podiam lutar no fundo do Rio Celestial, mas os dois juntos não haviam derrotado adversários aquáticos menores nas jornadas anteriores sem sua intervenção. O Rei Sensível era mais poderoso do que qualquer um desses.
E o mestre estava no fundo do rio, vivo — o Rei Sensível não o havia capturado para comer imediatamente, porque a carne de um monge peregrino que havia cultivado virtude por décadas tinha propriedades espirituais que eram destruídas pela morte rápida e aumentadas pela espera. O mestre estava vivo como troféu e como recurso. Havia tempo, mas havia um limite para esse tempo.
— O palácio do Mar do Norte fica a que distância? — disse Sun Wukong para o ancião.
— A nordeste. Dois dias de viagem rápida. Por que?
— Porque o Rei Sensível tem uma origem — disse Sun Wukong. — Todo espírito de rio tem um registo em algum palácio aquático. Quero saber de onde veio, quem o conhece, e se há alguém que possa exercer pressão sobre ele além do combate direto. — Pegou o bastão. — O combate direto vai acontecer de qualquer maneira. Mas informação adicional nunca piora um resgate.
Sha Wujing ficou na aldeia com o cavalo branco. Bajie comeu o que havia sobrado do jantar com a calma de quem sabia que trabalho estava vindo e que trabalho exigia energia.
Sun Wukong saltou para as nuvens na direção nordeste, o bastão na mão, o rio escuro abaixo refletindo o sol da tarde — oitocentos li de água que guardava o mestre nas suas profundezas com a indiferença de algo que há muito havia aprendido a esperar.
O resgate estava apenas começando.