Capítulo 47: O Monge Sagrado Detém as Águas do Rio Celestial à Noite; O Ouro e a Madeira, Compassivos, Salvam as Crianças
Os peregrinos chegam ao Rio Celestial e encontram a Aldeia Chen, onde dois irmãos devem oferecer seus filhos ao espírito Rei Sensível — um menino e uma menina. Sun Wukong se transforma no menino, Zhu Bajie na menina, e os dois vão ao templo para interceptar o demônio. O espírito ataca mas foge ao encontrar resistência, mergulhando no rio.
O Rio Celestial apareceu depois de um dia inteiro de caminhada que havia começado com neblina rala e terminado com a lua refletindo em água escura — uma lua que não subia mas afundava, espelhada numa superfície que devolveu a luz com uma precisão inquietante, como se o rio soubesse que estava sendo observado e quisesse que a observação durasse.
Sun Wukong subiu ao ar para avaliar a largura e voltou sem a resposta satisfatória que havia esperado dar.
— Não consigo ver a outra margem — disse ele.
Isso era uma afirmação considerável vinda de alguém com olhos que viam trezentos li em dia claro e duzentos na penumbra. O Rio Celestial media oitocentos li de margem a margem, e à noite não havia margem visível — apenas água que continuava além de qualquer alcance, escura e larga como o próprio esquecimento. A pedra que marcava a entrada carregava três caracteres em escrita de selo que o mestre leu em voz alta: Rio Celestial. E abaixo, em letras menores: oitocentos li de largura, poucos os que o cruzaram desde o início dos tempos.
Zhu Bajie atirou uma pedra no centro. O som que voltou era o de algo muito profundo recebendo uma pedra pequena com indiferença absoluta — não o respingo que a água rasa faz com satisfação, mas o engolir silencioso das profundezas que não precisam de barulho para demonstrar o que são.
— Não passamos esta noite — disse Bajie, com a certeza de alguém que havia chegado a uma conclusão que não lamentava.
Tang Sanzang ficou no cavalo com a expressão de alguém fazendo cálculos que não fechavam. Havia prometido ao imperador Tang que voltaria em três anos. Já faziam oito. Cada obstáculo novo — cada rio, cada montanha, cada demônio que precisava ser derrotado antes de seguir — era mais uma conta que não batia, mais uma prova de que o tempo humano não obedecia às mesmas leis que o propósito divino.
— Há uma aldeia — disse Sha Wujing, com a calma dos que observam sem urgência. Apontava para uma luz distante ao longo da margem, estável como vela protegida do vento. — E tem sons de cerimônia.
Eram sons de sinos e tambores — não os sinos que Tang Sanzang reconhecia dos templos budistas ao longo do caminho, de bronze claro e ressonância que subia, mas a percussão mais pesada e os sinos de metal escuro das cerimônias de apaziguamento. O tipo de ritual que se realiza não para celebrar algo alegre mas para pedir algo difícil a algo mais poderoso — o som específico de seres humanos negociando com o que não controlam, usando ritmo e incenso e promessa onde não têm força.
A Aldeia Chen ficava ao longo da margem do Rio Celestial com a qualidade de aldeias que existem próximas de forças maiores do que elas: construída com atenção, mantida com cuidado, mas com uma disposição das casas que sugeria que as pessoas que as construíram sabiam que estavam construindo junto a algo que tolerava a sua presença sem garanti-la. Os jardins voltavam-se para dentro. As janelas que davam para o rio eram menores do que as que davam para a terra.
O ancião da Aldeia Chen tinha sessenta e três anos e o rosto de alguém que havia carregado um peso específico por tanto tempo que o peso e o rosto haviam chegado a um entendimento. Recebeu Tang Sanzang com a hospitalidade genuína que as aldeias do interior reservavam para monges de longe — não a hospitalidade performática das cidades, mas a do tipo que começa com comida quente e termina com a sensação de que a casa ficou mais completa por ter recebido.
O irmão mais novo do ancião, que tinha cinquenta e oito anos e havia sido chamado Segundo Chen desde que se lembrasse, estava num canto do pátio interno em silêncio. Não chorava visivelmente — havia passado por isso, tinha chegado a um lugar além do choro audível, onde a dor se tornava uma qualidade constante do ar ao redor da pessoa em vez de um evento que começa e termina.
Tang Sanzang perguntou sobre a cerimônia. Era tarde demais para ser uma celebração qualquer, e o incenso que ardia nas vasilhas do pátio tinha o cheiro das ofertas sérias.
O ancião explicou.
Havia um espírito no Rio Celestial que a aldeia chamava de Rei Sensível — um espírito das profundezas de poder suficiente para que a aldeia nunca houvesse tentado resistir, em três gerações de memória dos mais velhos. Uma vez por ano, na noite do vigésimo quarto dia do oitavo mês, o Rei Sensível exigia uma oferenda da aldeia: um menino e uma menina, crianças reais das famílias, não substitutos comprados em mercados de outras províncias. O espírito era específico nesse ponto — havia, em algum momento remoto, tentado uma aldeia anterior substituir e a seca que se seguiu havia durado três anos, terminando apenas com a oferenda correta.
Em troca, o Rei Sensível providenciava chuva no momento certo, proteção da colheita de gafanhotos e pragas, e a contenção do rio dentro das suas margens durante as cheias de verão, quando sem intervenção as águas cobriam os campos baixos e destruíam o que havia sido plantado com meses de trabalho.
Era um arranjo antigo. Havia funcionado da maneira que os arranjos terríveis funcionam quando ninguém tem poder para propor outro.
Este ano era a família Chen que fornecia as crianças. O ancião tinha uma filha de oito anos. Havia custado trinta jin de ouro em oferendas ao templo antes de nascer — o nome que lhe deram, Uma Medida de Ouro, carregava a conta e o amor que havia precedido a chegada dela. O irmão mais novo tinha um filho de sete anos chamado Chen Guanbao, assim nomeado porque havia sido pedido ao deus Guan Yu com uma prece que o Segundo Chen havia feito a joelhos no inverno, sozinho, depois que a primeira criança não havia sobrevivido.
Os dois filhos estavam na sala interna do pátio menor, sem compreender completamente o que estava acontecendo ao redor deles — as crianças têm um instinto para o peso dos adultos que as rodeia, mas raramente a estrutura para nomear o que sentem. Uma Medida de Ouro estava fazendo uma trança no cabelo de um boneco de palha. Chen Guanbao estava perseguindo um gafanhoto no canto da parede. Ambos olharam para o estranho monge na entrada com a curiosidade limpa de quem ainda não aprendeu que estranhos trazem às vezes situações que mudam tudo.
Sun Wukong ouviu a história completa sentado numa pequena banqueta de madeira ao lado do ancião, sem interromper, sem a impaciência que normalmente transparecia quando as explicações humanas eram longas. Havia algo no relato — o peso específico da dor do Segundo Chen no canto do pátio, a maneira como o ancião escolhia cada palavra com o cuidado de alguém que havia contado a mesma história muitas vezes mas que esta vez sentia que a contagem importava de um jeito diferente — havia algo nesse relato que pedia atenção completa.
Quando o ancião terminou, Sun Wukong ficou em silêncio por um momento que não era vacilação mas consideração. Depois disse:
— Mostre-me o menino.
Chen Guanbao havia abandonado o gafanhoto por um besouro de asas douradas que havia aparecido numa fresta da parede do pátio. Tinha sete anos com toda a densidade que sete anos de mundo acumulam num ser humano pequeno — a memória corporal do primeiro inverno, o vocabulário que ainda estava sendo inventariado, a confiança específica de quem ainda não sabe o suficiente sobre o mundo para ter medo adequado dele. Tinha um rosto redondo com bochechas que os avós beliscavam, olhos que ainda carregavam a clareza de quem não havia precisado ainda de muita diplomacia, e uma mancha de suco de manga no queixo que havia resistido a duas tentativas maternas de remoção.
Sun Wukong ficou olhando para ele por um momento sem dizer nada.
Havia crianças ao longo da estrada do oeste — em aldeias, em cidades, nos pátios dos templos onde Tang Sanzang parava para trocar bênçãos por comida. Sun Wukong havia observado centenas delas com a curiosidade distante de alguém para quem a infância humana era um fenômeno que não havia experienciado da maneira que os humanos a experienciavam. Mas havia algo em Chen Guanbao naquele momento — a total indiferença ao próprio perigo, o besouro mais interessante do que tudo o que acontecia no pátio ao redor — que era ao mesmo tempo muito simples e muito precisamente o oposto do que seria justo perder.
Fechou os olhos. Recitou uma sílaba de transformação. Abriu os olhos.
O ancião olhou para as duas figuras idênticas no pátio — o macaco transformado e a criança real — com a expressão de alguém cujo cérebro estava tentando processar duas instâncias da mesma pessoa ocupando o mesmo espaço no mesmo momento. Era a mesma altura, o mesmo rosto redondo, o mesmo suco de manga no mesmo queixo, a mesma postura de alguém que estava interessado em outra coisa.
— Posso ir no lugar do menino — disse Sun Wukong com a voz de Chen Guanbao, que era uma voz levemente rouca com a rouquidão específica de crianças que gritam para gafanhotos. — E Bajie pode ir no lugar da menina.
Zhu Bajie, que havia estado examinando as oferendas de comida dispostas num altar próximo com a atenção de um especialista avaliando trabalho de outros, levantou os olhos devagar.
— Como assim?
— Você tem trinta e seis transformações — disse Sun Wukong. — Uma menina de oito anos com tranças e casaco bordado está definitivamente dentro das suas capacidades catalogadas.
— Uma menina pequena e delicada — disse Bajie, com o tom de alguém que está prestes a apresentar um argumento técnico. — Há limitações estruturais que as transformações honram mas não eliminam completamente. O volume não é arbitrário.
— Concentre-se no essencial — disse Sun Wukong. — O rosto, as mãos, a voz. O resto funciona na penumbra.
— Há garantia de que haverá penumbra?
— É um templo à noite. Haverá penumbra.
Bajie foi buscar Uma Medida de Ouro com a expressão de alguém fazendo um trabalho de preparação que preferia não fazer. A menina tinha tranças presas com fitas de seda vermelha e um casaco bordado com pêssegos e flores de ameixa que o ancião havia mandado fazer especialmente, numa tentativa de que a última roupa fosse bonita — esse detalhe, quando Sun Wukong o soube depois, ficou com ele de uma forma que raramente acontecia com detalhes.
Bajie ficou olhando para Uma Medida de Ouro por um tempo que ultrapassou o confortável para a menina, que ficou de pé no pátio sendo observada com a paciência de quem está acostumada a ser o centro da atenção dos adultos mas acha que desta vez o adulto está fazendo isso por razões diferentes das habituais.
Bajie fechou os olhos, recitou a transformação, e abriu os olhos.
O resultado era funcionalmente convincente à distância — o rosto estava certo, as tranças estavam certas, o casaco bordado estava certo. Havia, no entanto, algo no volume geral da figura que era ligeiramente mais substancial do que Uma Medida de Ouro era por natureza. Uma menina de oito anos tem uma leveza específica no modo como ocupa o espaço. Bajie tinha uma solidez que a transformação conseguia esconder na forma mas não completamente na presença.
— Fica bem na penumbra — disse Sha Wujing, com a diplomacia específica de alguém que escolhe a única coisa verdadeira disponível entre as coisas que poderia dizer.
— O templo do Rei Sensível fica a dois li ao longo da margem — disse Sun Wukong. — Penumbra é suficiente para o que precisamos.
O ancião e o Segundo Chen ficaram de joelhos no pátio enquanto quatro carregadores da aldeia — homens que haviam feito isso nos anos anteriores e carregavam no rosto a memória de ter feito e de não poder não fazer — transportavam Sun Wukong e Bajie sentados em bandejas de laca vermelha orladas de seda amarela até o templo do Rei Sensível, ao longo do caminho de margem onde o rio escuro refletia as lanternas com uma fidelidade que parecia intencional.
O Segundo Chen ficou no pátio com os joelhos na pedra depois que todos saíram. O ancião ficou ao lado dele sem dizer nada. Havia entre os dois irmãos naquele momento a linguagem que existe entre pessoas que partilharam décadas de vida e já não precisam de palavras para o essencial — apenas a presença, apenas o não estar sozinho no peso.
O templo era mais elaborado do que Sun Wukong havia esperado para um espírito de aldeia. Não o elaborado das cidades, com ouro e jade e esculturas de artesãos famosos, mas o elaborado de algo que havia recebido atenção constante durante gerações — o altar de pedra negra polida por décadas de incenso, as oferendas dispostas com a precisão de quem havia aprendido exatamente o que agradava, uma placa dourada com o nome do Rei Sensível escrito em caracteres que não eram exatamente o estilo de nenhuma escola de caligrafia que Sun Wukong reconhecia. E nenhuma imagem — nenhuma representação da forma do espírito, nenhuma estátua, nenhum retrato. Apenas o nome na placa dourada e o espaço vazio abaixo dele onde as oferendas eram colocadas.
Isso era um sinal. As entidades que preferem não ser representadas visualmente são, na experiência de Sun Wukong, as que têm formas que não correspondem ao que querem que se pense delas.
Os carregadores depositaram as bandejas com os movimentos de quem conhece o ritual — a inclinação exata, o número de passos para trás, a reverência antes de virar e sair. Saíram rapidamente, com a eficiência específica de pessoas que haviam feito isso antes e sabiam que o passo seguinte era estar em outro lugar o mais rápido possível.
Sun Wukong e Bajie ficaram sozinhos no templo com as oferendas — patos assados com a pele dourada e estaladiça, tigelas de arroz glutinoso envolto em folhas de bambu, peixes inteiros grelhados com gengibre e cebolinha, e taças de licor de ameixa que cheiravam ao outono que as ameixas haviam atravessado antes de virar aquilo.
Bajie olhou para a comida com a atenção concentrada de um estudioso diante de um texto importante.
— Não — disse Sun Wukong, sem olhar.
— Estava apenas avaliando a qualidade das —
— Não.
— Seria uma pena desperdiçar se o demônio não aparecer.
— O demônio vai aparecer. E você não vai tocar nada antes disso.
Ficaram em silêncio. O vento passava pelos vãos do templo com um som que era quase uma nota musical — não exatamente música, mas o tipo de som que a arquitetura faz quando foi construída sem perceber que estava construindo um instrumento. O incenso consumia-se com a constância de algo acostumado a queimar sem audiência, transformando-se em espiral branca que subia até o teto e depois se dissolvia na escuridão acima.
O rio era audível dali — não o barulho de água rápida sobre pedras, mas o som baixo e constante de água muito profunda em movimento muito lento, o som de algo que tem destino mas não tem pressa.
Depois o vento mudou.
Não foi uma mudança gradual como as que o outono produz, trocando o calor por frescor ao longo de horas. Foi a transição específica que Sun Wukong havia aprendido a reconhecer em décadas de encontros com entidades aquáticas: o cheiro de rio profundo — lama, raízes submersas, a qualidade mineral da água que não vê luz solar — misturado com algo mais antigo que estava nessa água antes de ser água, a qualidade de ar que precede a chegada de algo que passou tempo demais nas profundezas para que a superfície ainda lhe fosse completamente natural.
O Rei Sensível apareceu na entrada do templo.
A forma era imponente com a imponência das entidades aquáticas de poder estabelecido: armadura dourada de escamas sobrepostas como as de um peixe enorme, um elmo com franjas de coral e ágata, o rosto largo e os olhos da cor da água profunda onde a luz não chega. Havia na sua postura a combinação específica de quem possui território e sabe que possui — não a arrogância do conquistador, mas a segurança do dono que encontra o que esperava encontrar onde esperava encontrá-lo.
— Este ano a oferenda é da família Chen — disse ele, ainda na soleira, estabelecendo os termos com a formalidade de quem cumpre um ritual antigo.
— É — disse Sun Wukong com a voz de Chen Guanbao.
O Rei Sensível avançou um passo. Havia algo nessa resposta que estava errado numa dimensão que ele não conseguia imediatamente nomear. Crianças em situação de oferenda — crianças que compreendiam o suficiente para saber o que estava acontecendo — não respondiam com aquela qualidade de presença. Havia no sim da criança no altar uma calmaria que não era resiliência nem indiferença mas algo diferente de ambas.
— Você — disse ele, parando no segundo passo.
— Eu — disse Sun Wukong, e deixou a transformação.
O que estava na bandeja de laca vermelha já não era uma criança de sete anos. Era Sun Wukong de pé, com o bastão dourado já desdobrado da orelha e já nas duas mãos na posição de ataque. Na outra bandeja, a figura de Uma Medida de Ouro havia se tornado Zhu Bajie com o rastelo de nove dentes, de pé com a expressão de alguém que havia esperado pacientemente por esta exata oportunidade.
O Rei Sensível ficou parado olhando para os dois por um momento.
Não havia chegado armado — havia chegado para um ritual de recebimento, não para um combate. As duas mãos estavam vazias. Os dois adversários diante dele estavam claramente preparados, posicionados, e eram — havia que reconhecer — de uma classe que não era a dos mortais comuns. O macaco ele reconhecia de reputação: o Grande Sábio que havia perturbado o Palácio Celestial, que havia saído do forno dos Nove Elixires mais forte do que havia entrado, que havia suportado o Monte Wu Xing por quinhentos anos. O porco ele não conhecia tão bem, mas o rastelo de nove dentes era arma de origem celestial e não havia sido forjado para quem não soubesse usá-lo.
Fez o cálculo com a velocidade que os sobreviventes aprendem a fazer: mãos vazias contra dois adversários armados e preparados, em terreno fechado, sem nenhuma das suas criaturas subordinadas presentes. O resultado do cálculo não era ambíguo.
Criou uma rajada de vento escuro — o tipo de vento que as entidades aquáticas usam quando precisam de velocidade sem direção, uma perturbação do ar que era tanto impulso quanto cobertura — deu meia-volta na entrada do templo, e mergulhou de volta para o Rio Celestial antes que o bastão de Sun Wukong chegasse onde ele havia estado.
O bastão acertou o portal do templo com um som que o ancião e o Segundo Chen ouviram da aldeia a dois li de distância. O portal não havia sido construído para receber aquele impacto e demonstrou isso de forma conclusiva.
A bandeja de Bajie virou com o movimento do vento. Bajie caiu com o rastelo e ficou imóvel por um momento que ele próprio não soube classificar como desmaiado ou simplesmente surpreso.
— Ele fugiu — disse Bajie eventualmente, do chão.
— Para o rio — disse Sun Wukong, olhando para a entrada destruída do templo e para a escuridão do rio além dela. — Que é onde vive e onde tem todas as vantagens. Teremos que buscá-lo lá dentro.
Voltaram à Aldeia Chen carregando as oferendas intactas — os patos assados, o arroz glutinoso, os peixes, o licor — e Sun Wukong explicou para o ancião que a parte imediata estava resolvida mas que a parte estrutural ainda precisava de trabalho.
O ancião compreendeu sem que fosse necessário elaborar. Olhou para o Segundo Chen, que havia ficado de pé ao ouvir o som do bastão a dois li de distância e que agora estava na entrada do pátio com a expressão de alguém esperando notícia cuja natureza ainda não ousava confirmar.
— As crianças estão bem — disse Sun Wukong.
O Segundo Chen ficou em silêncio por um momento que tinha a qualidade de alguém reorganizando o peso que havia estado carregando. Depois curvou-se profundamente, e permaneceu curvado por mais tempo do que o protocolo exigia — não por protocolo, mas porque havia coisas que o corpo faz quando o alívio é grande demais para ser expresso de outra forma.
O ancião mandou chamar Uma Medida de Ouro e Chen Guanbao da sala interna. Chen Guanbao chegou correndo — havia encontrado o besouro de asas douradas de novo e queria mostrar para alguém. Uma Medida de Ouro chegou atrás dele com a trança levemente desfeita e a expressão de quem acabou de acordar do sono e ainda está organizando onde está.
O Segundo Chen ficou de joelhos diante de Sun Wukong e Bajie com os dois filhos ao lado, os joelhos na pedra do pátio, e não disse nada porque não havia nada para dizer que não fosse menor do que o silêncio.
Tang Sanzang, que havia esperado na estalagem com Sha Wujing e o cavalo branco ao longo da noite, ouviu o relatório pela manhã com a expressão de alguém calculando.
— Então o espírito está vivo e vai tentar de novo.
— Vai — disse Sun Wukong. — O rio é o território dele e ele vai recuar para lá e esperar que nós partamos. Se partirmos sem resolver isso, as crianças da aldeia continuam em risco.
— Como resolvemos o rio?
Sun Wukong olhou para as oitocentos li de água escura que não tinham margem visível do outro lado.
— Alguém vai ter que ir lá embaixo — disse ele. — O demônio precisa ser derrotado no seu próprio elemento. — Uma pausa. — E nós precisamos de um barco para cruzar depois.
Bajie, que havia estado comendo as oferendas da noite anterior com a satisfação de quem aguardou o momento correto, levantou os olhos.
— As duas coisas ao mesmo tempo?
— As duas coisas em sequência — disse Sun Wukong. — Primeiro o demônio. Depois a travessia.
O ancião, que havia ouvido tudo isso com a atenção de alguém que quer entender completamente o que está sendo discutido, mandou preparar um jantar que correspondesse à magnitude do que havia acontecido na noite anterior — a magnitude de duas crianças que estavam sentadas num pátio iluminado em vez de estarem na fundo de um rio escuro.
Bajie comeu com a concentração e o volume de quem tinha tudo ainda por fazer e sabia que precisava de energia para fazer.
Tang Sanzang recitou pela manhã no jardim do ancião, com os pés descalços na pedra fria, os sutras saindo em voz baixa que o rio ao longe recebia sem devolver. E havia nessa recitação, naquele jardim, diante daquele rio que ainda guardava o demônio que precisava ser derrotado, uma qualidade de determinação que não era confiança no resultado mas fidelidade ao caminho — a qualidade específica de quem sabe que não pode garantir o que vem mas pode garantir como chega lá.
O rio esperava. A manhã avançava. O trabalho continuava.