Capítulo 45: O Grande Sábio Deixa Seu Nome no Templo dos Três Puros; O Rei Macaco Demonstra Seus Poderes no País da Carroça Lenta
Os Três Mestres taoístas descobrem que suas oferendas foram consumidas e tentam obter água sagrada — mas recebem a urina dos três discípulos. Sun Wukong revela a farsa. Na corte, o rei ordena um concurso de invocação de chuva entre Tang Sanzang e os taoístas. Sun Wukong manipula discretamente os deuses do céu para garantir vitória esmagadora.
Os Três Mestres chegaram ao templo dos Três Puros bem antes do amanhecer, com tochas e a expressão de pessoas que haviam sido acordadas por um garoto em pânico.
O Mestre Tigre entrou primeiro e fez o que qualquer sacerdote faz quando encontra as oferendas do templo perturbadas — verificou os pedais, examinou os restos na mesa, e chegou à única conclusão que fazia sentido dentro da estrutura de crenças que havia cultivado:
— Os céus desceram — disse ele com satisfação profunda. — As divindades consumiram nossas oferendas em sinal de aprovação.
O Mestre Veado chegou logo depois, viu os pratos quase vazios, as jarras de vinho abertas, e concordou com a dignidade de alguém que havia esperado validação sobrenatural por décadas e finalmente a tinha.
— Devemos pedir água sagrada — disse o Mestre Carneiro. — Enquanto as divindades ainda estão presentes.
Trouxeram um barril grande, um prato de porcelana e uma jarra de flores. As três figuras nos pedestais permaneciam absolutamente imóveis — a qualidade de imobilidade de algo que sabe que está sendo observado e tem praticado a arte de não se mover o suficiente para parecer pedra.
O Mestre Tigre se prostrou e recitou um pedido formal de água benta que as divindades poderiam conferir sobre o reino para prolongar a vida do monarca.
Sun Wukong, no pedestal central, levantou a veste e contribuiu para a jarra de flores.
Zhu Bajie, com o entusiasmo de alguém que havia comido muito bem e tinha necessidades fisiológicas correspondentes, encheu o barril com algo que era indiscutivelmente sagrado para ele.
Sha Wujing completou o prato de porcelana.
Os sacerdotes, profundamente gratos, colheram o conteúdo dos recipientes num único reservatório.
O Mestre Tigre mergulhou uma concha e bebeu.
Ficou imóvel por um momento.
— Tem um gosto... espiritual — disse ele com cuidado.
— Um gosto de suíno — disse o Mestre Carneiro, que havia bebido depois dele.
— E algo mais — disse o Mestre Veado, que tinha a experiência de alguém que havia cheirado muitas coisas em muitos templos. — Este não é gosto de água sagrada.
O pequeno servente que havia escapado ao pânico da noite anterior havia passado a última hora reunindo coragem. Chegou nesse momento exato e disse, com a velocidade de alguém descarregando uma informação que estava ardendo:
— Eram monges. Vi um rir.
Sun Wukong, no pedestal, decidiu que o momento havia chegado.
— Eu conheço o nome taoísta de vocês — disse ele com a voz mais grave que conseguia, que era considerável. — E posso dizer quem eles pertencem. Somos Tang Sanzang e seus discípulos, viajando ao oeste por mandato imperial. Entramos neste templo à noite, comemos suas oferendas, e o que acabaram de beber era a nossa contribuição pessoal para a espiritualidade desta casa.
O silêncio que se seguiu tinha a qualidade específica de uma crença de vinte anos desmoronando num intervalo de cinco segundos.
Os três sacerdotes ergueram as tochas.
As três estátuas desceram dos pedestais, e as três figuras reais — um macaco com olhos dourados, um porco enorme, e um monge das areias — saíram pela porta lateral enquanto os sacerdotes chegavam à conclusão de que haviam servido suas melhores oferendas do ano a ladrões de templo e bebido o produto resultante.
Na manhã seguinte, os Três Mestres chegaram à corte do rei com a expressão de pessoas que tinham uma conta a cobrar.
Tang Sanzang e seus discípulos já estavam no salão do trono — haviam chegado cedo com o salvo-conduto imperial e solicitado formalmente a continuação da jornada. O rei estava no meio de examinar o documento quando os taoístas entraram e contaram tudo: os monges libertos, os dois serventes mortos, o templo dos Três Puros profanado, as oferendas consumidas, a água sagrada.
O rei ficou olhando para Tang Sanzang.
Tang Sanzang ficou olhando para o rei.
Sun Wukong, ao lado, disse com o tom razoável de alguém que havia pensado com antecedência nos argumentos disponíveis:
— As acusações sobre os monges libertos não têm testemunhas presentes. As acusações sobre o templo aconteceram à noite, num local fechado, sem ninguém autorizado a testemunhar o que as divindades fazem quando visitam seus próprios templos. E quanto à água sagrada — se o resultado espiritual de beber algo de origem desconhecida era desagradável, o problema está na crença, não em nós.
O rei, que era o tipo de monarca que governava por inércia mais do que por juízo, estava prestes a tomar uma decisão quando um funcionário entrou anunciando uma delegação de agricultores que pediam chuva.
A seca estava matando a colheita. Era o sétimo mês sem chuva significativa.
O rei virou para os Três Mestres.
— Invoquem chuva.
Virou para Tang Sanzang.
— Vocês também tentam. Quem conseguir chuva, fica em paz. Quem não conseguir...
Não terminou a frase, mas o sentido era claro.
A cerimônia foi instalada num espaço aberto fora do palácio, com uma plataforma alta de cem bancos de madeira empilhados que o Mestre Tigre subiu com a desenvoltura de alguém que havia feito isso muitas vezes. Ele queimou um talismã, bateu um bloco de madeira ritual, e começou a recitar.
Sun Wukong, observando do chão, não esperou para ver o resultado.
Subiu invisível ao ar até o nível das nuvens, onde encontrou os Deuses do Vento.
— A Deusa do Vento e o Filho do Vento — disse ele com a precisão de alguém citando títulos exatos. — Estou a caminho do oeste, protegendo Tang Sanzang por mandato celestial. Vocês estão aqui para ajudar aqueles taoístas. Não é o que deve acontecer. Guardem o vento.
A Deusa do Vento guardou o saco. O Filho do Vento fechou os laços.
O Mestre Tigre bateu o bloco ritual uma segunda vez. Nenhum vento veio.
Zhu Bajie, embaixo, disse em voz alta para o rei e os presentes:
— Não há nada. Alguém quer que eu suba lá?
O Mestre Tigre bateu uma terceira vez e queimou o segundo talismã. As nuvens foram convocadas.
Sun Wukong foi às nuvens antes que chegassem.
— Meninos das Nuvens e Senhores da Névoa — disse ele com a mesma precisão. — Vocês vêm por convocação de um taoísta que não está na lista de autorizados a invocar deuses para servir a um rei que persegue budistas. Dispersem.
As nuvens dispersaram. O sol saiu com a claridade de algo que não havia sido bloqueado.
O Mestre Tigre desceu da plataforma com a expressão de alguém tentando encontrar uma explicação técnica para uma falha que normalmente não acontecia.
O Mestre Veado disse:
— Os dragões dos quatro mares devem estar ocupados.
Tang Sanzang, ao lado do rei, disse para Sun Wukong em voz muito baixa:
— Discípulo, eu não sei invocar chuva.
— O mestre sabe recitar o Sutra do Coração — disse Sun Wukong igualmente baixo. — Vá para a plataforma e recite. Eu cuido do resto.
Tang Sanzang subiu à plataforma com a compostura de alguém que havia percorrido metade do mundo e aprendido que confiança e competência são coisas diferentes.
Sentou-se, cruzou as pernas, e começou a recitar o Prajna Paramita — as palavras que havia memorizado em criança no mosteiro de Chang'an e que continuavam sendo as palavras que sabia mais completamente de cor, as que vinham sem esforço quando tudo o mais requeria esforço.
No ar, Sun Wukong esperou até que o mestre estivesse bem estabelecido no ritmo, então tirou o bastão, segurou-o na vertical, e apontou para o leste.
O que veio era vento de verdade.
Não a brisa educada que a Deusa do Vento tinha produzido para o Mestre Tigre, mas o vento que vinha quando alguém com autoridade real o pedia — varrendo a praça, levantando os telhados de palha dos edifícios menores, fazendo os guardas se agarrarem às suas lanças para não serem derrubados.
Depois apontou para o norte. As nuvens chegaram — espessas, baixas, do tipo que fecha o céu num minuto e não abre durante horas.
Terceiro gesto: os trovões.
O Deus do Trovão, que havia sido alertado com antecedência de que havia um trabalho legítimo a fazer hoje, respondeu com a eficiência de alguém que havia esperado ser chamado por razões corretas em vez de convocado por talismãs de qualidade questionável.
O relâmpago rasgou o céu três vezes.
Quarto gesto: os dragões dos quatro mares abriram as comportas.
A chuva que veio não era a chuva comedida que o Mestre Tigre teria produzido — era a chuva que a terra seca precisava, pesada e constante, enchendo os canais de irrigação, preenchendo os poços que estavam baixos, saturando a terra que havia rachadocom a seca.
O rei estava no alto da varanda do palácio com os Três Mestres ao lado, e quando a chuva começou, o rei disse para o Mestre Tigre:
— Você disse que os dragões dos quatro mares estavam ocupados.
O Mestre Tigre não respondeu.
Depois de uma hora de chuva, o rei mandou um mensageiro para Tang Sanzang dizer que era suficiente — mais chuva daniaria a colheita que a seca havia poupado. Sun Wukong apontou o bastão para cima uma última vez, e o céu abriu numa claridade que era mais completa do que havia sido antes da chuva, o sol saindo com a qualidade específica de algo lavado.
Os Três Mestres viram os dragões dos quatro mares emergirem das nuvens em suas formas verdadeiras — Sun Wukong havia pedido isso especificamente — serpentes enormes e brilhantes que curvaram os corpos no céu como se fizessem uma reverência antes de retornar ao mar.
O rei ficou de pé na varanda com os olhos arregalados.
— Nunca vi um dragão real.
— Com o respeito devido a Vossa Majestade — disse Sun Wukong, que havia descido da plataforma —, os dragões estavam aqui hoje porque foram chamados por razões legítimas. A próxima vez que alguém invocar dragões para servir a interesses que contradizem o mandato celestial, pode ser que não venham.
O rei olhou para os Três Mestres.
Os Três Mestres olharam para o rei.
O rei ordenou que o salvo-conduto fosse carimbado.