Capítulo 44: O Monge Dharma Destrói os Demônios no País da Carroça Lenta; O Macaco do Coração Obtém Vitória sobre os Monstros Taoístas
Os peregrinos chegam ao País da Carroça Lenta onde quinhentos monges budistas estão escravizados por três imortalistas taoístas — o Tigre, o Veado e o Carneiro — que governam o rei com demonstrações de poder. Sun Wukong distribui amuletos protetores aos monges escravizados e depois, com Bajie e Sha Wujing, infiltra o templo dos Três Puros para devorar as oferendas e tomar o lugar das estátuas — até que um garoto taoísta descobre a farsa.
O País da Carroça Lenta tinha muros de tijolos cinzentos e um odor que Sun Wukong reconheceu antes de chegarem à porta da cidade — incenso de cedro misturado com o cheiro específico de trabalho forçado: suor, madeira verde, e a qualidade particular de exaustão que os corpos humanos exalam quando fazem o que não escolheram.
— Tem monges aqui — disse Sun Wukong em voz baixa para o mestre enquanto se aproximavam do portão.
Tang Sanzang olhou para ele.
— Tem monges em muitos lugares.
— Não do tipo que estou vendo. — Os olhos dourados de Sun Wukong alcançavam além do muro da cidade até o pátio interior onde uma fileira de figuras de cabeça raspada puxava uma carroça. — Monges em correntes.
Tang Sanzang ficou imóvel no cavalo por um momento.
— Devemos entrar com cautela.
— Devemos entrar com informação — disse Sun Wukong. — Esperem aqui.
Transformou-se num papagaio — um pássaro pequeno o suficiente para passar despercebido, com penas verdes que combinavam com a folhagem das árvores ao longo dos muros da cidade. Sobrevoou o interior do País da Carroça Lenta durante tempo suficiente para construir uma imagem clara do que havia lá dentro.
O que havia era este: quinhentos monges budistas, identificáveis pelo manto e pela cabeça raspada, distribuídos em grupos de trinta e cinquenta pelo pátio de um templo taoísta grande ao norte da cidade. Alguns puxavam carroças carregadas de pedra. Outros carregavam água em baldes. Outros ainda, os mais velhos e visivelmente mais fracos, removiam entulho de uma construção que estava sendo ampliada. Havia guardas taoístas nos cantos com chicotes — não os chicotes dos soldados que Sun Wukong havia enfrentado em batalhas, mas os chicotes funcionais de supervisores de trabalho, usados com a eficiência de pessoas acostumadas a gerir trabalhadores forçados.
No templo central, três figuras sentavam em cátedras elevadas: um homem com máscara de tigre, um homem com coroa de chifres de veado, e um homem com vestes de carneiro. Recebia um fluxo constante de peticionários do povo da cidade — comerciantes, funcionários, camponeses — que chegavam com oferendas e saíam com a expressão de quem havia recebido o que precisava. Os três taoístas realizavam, enquanto Sun Wukong observava, uma invocação de chuva que produziu resultado visível: nuvens se formaram sobre a cidade em minutos e um aguaceiro leve caiu no pátio.
O povo aplaudiu. Os monges continuaram carregando pedras sob a chuva.
Sun Wukong voltou para os portões.
— Três imortalistas — disse ele para o mestre e os outros dois discípulos. — Não sei a origem ainda — podem ser demônios refinados ou praticantes humanos que foram longe demais. Mas têm poder real: invocação de chuva em minutos, o que não é trivial.
— E os monges? — disse Tang Sanzang.
— Quinhentos. Trabalho forçado. Condições que parecem ter durado anos.
Tang Sanzang ficou em silêncio com aquela expressão específica que Sun Wukong havia aprendido a reconhecer — não impulsividade, mas a qualidade de alguém que havia tomado uma decisão e estava calculando como implementá-la.
— Não podemos deixar esses monges assim.
— Não — concordou Sun Wukong. — Mas precisamos ser cuidadosos. Cinco contra três imortalistas com poder real, numa cidade inteira de súditos, é diferente de uma caverna de demônio isolada. Precisamos de estratégia.
— Qual é a estratégia?
Sun Wukong olhou para o pátio do templo que estava visível pela porta aberta da cidade.
— Primeiro, preciso falar com os monges. Descobrir quantos podem se mover, como são vigiados à noite, se há uma rota de saída. — Fez uma pausa. — E preciso entrar sem parecer um macaco.
A transformação que escolheu foi de um taoísta itinerante — manto cinza, chapéu de palha, cajado de bambu. Era uma ironia que não perdeu, dado o contexto, mas era a aparência que causaria menos suspeita num templo taoísta. Entrou pelo portão principal com o passo despreocupado de alguém passando por.
Os guardas nem levantaram os olhos.
Os monges escravizados eram mais cuidadosos — olharam para o taoísta disfarçado com a expressão de quem havia aprendido que qualquer interação com pessoal do templo era risco. Mas havia um velho monge perto da pilha de pedras que carregava menos peso do que os outros e tinha a postura de alguém acostumado a observar.
Sun Wukong se aproximou devagar, fingindo inspecionar a qualidade das pedras.
— Quantos monges — disse ele em voz baixa, sem olhar para o velho.
O monge olhou para o taoísta disfarçado por um momento.
— Quinhentos e trinta — disse ele com a voz de alguém que respondeu à pergunta antes de decidir se devia. — Trinta morreram no primeiro ano.
— Há quanto tempo?
— Três anos. Desde que os Três Mestres chegaram e fizeram chuva durante a seca grande.
— À noite, como são guardados?
— Fechados em dois galpões. Vinte guardas por galpão. Os Três Mestres dormem no templo central e têm alarmes de energia ao redor dos muros — qualquer tentativa de escavar ou escalar acorda eles imediatamente.
— E a porta principal?
— Dez guardas, substituídos a cada quatro horas.
Sun Wukong absorveu isso.
— Você sabe que não é um taoísta de verdade — disse o velho monge, ainda sem olhar diretamente.
— Como sabe?
— Passei a vida inteira praticando — disse o monge. — Reconheço a qualidade de energia de quem pratica o caminho. Você tem uma qualidade diferente. Mais velha. Mais refinada e mais bruta ao mesmo tempo.
Sun Wukong ficou em silêncio por um momento.
— Esta noite — disse ele —, quando os sinos tocarem a hora do rato, os guardas dos galpões vão dormir. Todos vocês devem sair e seguir para o norte da cidade, onde há um campo de trigo. Fiquem abaixados no trigo até o amanhecer.
— Como os guardas vão dormir?
Sun Wukong tirou da bolsa um punhado de pelos — pelos dourados do próprio corpo, transformados em algo parecido com sementes ou pellets de fumaça. Depositou-os na palma do velho monge.
— Distribua um pelo debaixo de cada almofada de guarda antes do jantar. Não vai machucar ninguém — só vai garantir sono mais profundo do que o habitual.
O velho monge fechou o punho em torno dos pelos.
— E depois de amanhã?
— Depois de amanhã, os Três Mestres terão outros problemas.
Havia dois jovens taoístas que patrulhavam o pátio durante o dia — estudantes do templo, com menos de vinte anos, incumbidos de supervisionar os monges mais velhos que removiam entulho. Sun Wukong os observou por algum tempo e chegou à conclusão de que eram o elo mais fraco da vigilância: jovens, distraíveis, confiantes demais na proteção do templo.
Esperou até que os dois se separassem dos monges perto de um corredor lateral.
O que aconteceu a seguir, Sun Wukong não descreveu para o mestre — Tang Sanzang fazia perguntas incômodas sobre meios quando os fins eram claros. Os dois jovens taoístas foram encontrados na manhã seguinte inconscientes atrás de uma pilha de pedras, sem ferimentos visíveis, mas sem a capacidade de identificar o que havia acontecido.
Isso removeu parte da vigilância do pátio.
À noite, Sun Wukong voltou para o mestre e os outros dois discípulos na estalagem onde Tang Sanzang havia conseguido acomodação com o salvo-conduto imperial.
— O mestre deve ficar aqui esta noite — disse ele. — Bajie e Sha Wujing vêm comigo.
Zhu Bajie levantou do prato de comida que havia estado trabalhando.
— Para onde?
— O templo dos Três Puros é o maior do país. À noite, depois dos sinos das orações, fica vazio exceto pelas oferendas do dia. — Sun Wukong havia feito um segundo voo de reconhecimento ao entardecer. — As oferendas deste ano são substanciais — a colheita foi boa e o povo está grato aos Três Mestres. Há arroz cozido, carne assada, frutas de três tipos, vinho de dois anos.
Sha Wujing disse:
— Você quer que comamos as oferendas do templo.
— Quero que comamos as oferendas e tomemos o lugar das estátuas.
Silêncio.
— As estátuas dos Três Puros — disse Bajie devagar. — Você quer que nos tornemos as estátuas dos Três Puros.
— Só por esta noite.
— E o que acontece quando os sacerdotes encontrarem as estátuas reais?
— Já cuidei disso — disse Sun Wukong. — As estátuas reais estão temporariamente em outro lugar.
— Onde?
— Na latrina dos fundos.
Zhu Bajie ficou em silêncio por um momento.
— Você colocou as estátuas dos Três Puros na latrina.
— Com cuidado. Não as danifiquei. — Sun Wukong pegou o bastão e o ombro e virou para a porta. — Vocês dois vêm?
O templo dos Três Puros era impressionante à noite — pilares vermelhos, teto de telhas douradas que brilhavam com a luz das lanternas externas, o cheiro de incenso de cedro tão concentrado que se tornava quase sólido. O corredor central media cinquenta passos de largura e cem de comprimento, com as três cátedras do fundo iluminadas por velas permanentes que não se apagavam.
As estátuas originais — Yuan Shi Tian Zun no centro, Ling Bao Dao Jun à esquerda, Tai Shang Lao Jun à direita — haviam de fato sido removidas, com o cuidado prometido, para o complexo dos fundos.
Sun Wukong subiu ao pedestal central.
Zhu Bajie ficou olhando para ele.
— Você parece um macaco em cima de um pedestal.
— Vou me transformar. — Sun Wukong fechou os olhos por um momento e, quando os abriu, havia se tornado a imagem de Yuan Shi Tian Zun — a estatura considerável, o manto de oito diagramas, a fisionomia serena de alguém que havia transcendido a necessidade de expressão. Exceto pelos olhos, que eram ainda ligeiramente dourados demais e tinham a qualidade específica de atenção que os olhos de Sun Wukong nunca perdiam completamente.
— Funciona à distância — disse Sha Wujing com a avaliação objetiva de alguém examinando um disfarce.
— À noite funciona em qualquer distância — disse Sun Wukong com a voz de Yuan Shi Tian Zun, que era mais grave do que a sua própria. — Bajie, suba.
Zhu Bajie subiu no pedestal esquerdo e se transformou em Ling Bao Dao Jun — a tentativa de solenidade saiu razoavelmente bem, embora houvesse algo no volume da figura que era ligeiramente maior do que o original.
Sha Wujing tomou o pedestal direito e se transformou em Tai Shang Lao Jun com a precisão habitual de alguém que havia passado séculos em prática de meditação e tinha controle considerável sobre a aparência externa.
As três figuras ficaram imóveis nos pedestais.
As oferendas estavam numa mesa comprida na frente dos pedestais — arroz cozido em tigelas de jade, patos assados em pratos de prata, mangas e melancias e damascos em cestas de vime, três jarras de vinho de dois anos com o lacre ainda intacto.
— Esperamos quanto tempo? — disse Bajie na voz de Ling Bao Dao Jun.
— Até ter certeza de que não há ninguém no corredor.
Sha Wujing, sem mover o corpo, disse:
— O corredor está vazio. Os sinos da oração soaram há vinte minutos. O próximo patrulhamento é daqui a uma hora.
— Então comemos — disse Sun Wukong.
As três estátuas desceram dos pedestais.
Eram boas oferendas.
Zhu Bajie tinha a tendência de não comer com elegância em situações normais, e comer com elegância debaixo de um disfarce de divindade taoísta era ainda mais difícil. Sun Wukong o silenciou duas vezes com um olhar quando os sons de mastigação ficaram grandes demais para o espaço sagrado.
— O vinho é bom — disse Sha Wujing em voz baixa, examinando a jarra.
— Para o meu lado — disse Bajie.
— Você já tem metade da fruta.
— Posso ter metade da fruta e metade do vinho. As divindades não racionam.
— As divindades não comem — disse Sun Wukong.
— Nós somos as divindades esta noite — disse Bajie com a lógica específica de alguém que havia encontrado um argumento que não tinha resposta imediata. — Portanto, o que as divindades fazem esta noite é o que estamos fazendo.
Sun Wukong concedeu o ponto e voltou para o pato assado.
Estavam no último terço das oferendas quando o problema chegou.
Era um garoto — não mais do que doze anos, com o uniforme de estudante taoísta iniciante e um sino pequeno de bronze que claramente havia esquecido no templo durante as orações. O som dos passos era pequeníssimo, mas Sun Wukong tinha ouvidos que captavam passos de formiga.
— Volta ao pedestal — disse ele em voz baixa.
Todas as três figuras subiram e se congelaram na posição das estátuas em tempo que Sun Wukong calculou como suficiente — as tigelas e pratos foram rearrajados em aproximação do estado original, com os restos escondidos sob a mesa, e as três transformações foram refeitas completamente.
O garoto entrou pelo corredor lateral, acendeu uma lanterna de mão, e foi para o fundo do templo onde havia deixado o sino.
Encontrou o sino.
Ergueu a lanterna para confirmar que estava no lugar certo.
Olhou para os três pedestais.
As estátuas estavam em seus lugares. A mesa de oferendas parecia completa à distância com pouca luz. A qualidade do silêncio era a qualidade correta de um templo sagrado à noite.
O garoto começou a sair.
Então Zhu Bajie tossiu.
Não foi intencional — foi o resíduo de um osso de pato que havia ficado na garganta e que a imobilidade havia mantido lá, e que o relaxamento de achar que o perigo havia passado fez vir à tona. Era uma tosse pequena, abafada, quase nada.
Mas num templo vazio à noite, era claramente um som de Zhu Bajie.
O garoto parou.
Ergueu a lanterna mais alto.
Olhou diretamente para o pedestal do meio, onde Ling Bao Dao Jun tinha os olhos um milímetro mais abertos do que há trinta segundos.
— As... as estátuas estão comendo as oferendas? — disse o garoto para si mesmo em voz que subia de pitch a cada palavra.
— Silêncio — disse Sun Wukong, com a voz mais grave e serena de Yuan Shi Tian Zun. — Somos divindades descendo a consumir as oferendas do povo devoto. É uma bênção que você testemunhe este momento.
O garoto olhou para Sun Wukong.
Olhou para Bajie.
Olhou para Sha Wujing.
Olhou de volta para Bajie, que havia dado um sorriso encorajador.
O garoto saiu correndo.
A velocidade era impressionante para alguém de doze anos — Sun Wukong estimou que saiu do templo, cruzou o pátio principal, e chegou ao complexo residencial dos Três Mestres em menos de dois minutos. Podia ouvi-lo gritando, a voz quebrando entre sílabas de pavor e urgência: as estátuas, as oferendas, Ling Bao Dao Jun sorriu para ele.
— Quanto tempo temos? — disse Bajie, descendo do pedestal.
— Tempo de terminar o vinho — disse Sun Wukong. — Não vou deixar o vinho para eles.
— Concordo — disse Sha Wujing, segurando a jarra.
Do lado de fora do templo, à distância crescente, podiam ouvir as vozes dos Três Mestres levantando, as vozes dos guardas sendo acordados, o som de tochas sendo acesas em sequência ao longo dos corredores do templo.
Sun Wukong bebeu o último da sua tigela, devolveu-a para a mesa com precisão, e apontou para a porta lateral que havia identificado no reconhecimento da tarde.
— Por ali.
As três figuras saíram pela porta lateral enquanto as lanternas dos Três Mestres chegavam pelo corredor central, e o capítulo desta noite no País da Carroça Lenta terminou com o cheiro de vinho bom e pato assado e o som distante de três imortalistas taoístas descobrindo que suas estátuas sagradas haviam sido colocadas na latrina e que alguém havia comido três quartos das melhores oferendas do ano.
Tang Sanzang estava acordado quando os três voltaram para a estalagem.
— Aconteceu algo?
— Um jantar — disse Sun Wukong. — Nada mais.
— Por que Bajie está com gordura de pato no queixo?
Zhu Bajie limpou o queixo.
— Jantar de trabalho — disse ele. — As divindades do oeste comem assim.
Tang Sanzang olhou para os três discípulos por um longo momento.
— Durma, mestre — disse Sun Wukong. — Amanhã teremos trabalho real com os Três Mestres. Esta noite foi apenas a preparação.