Capítulo 41: O Macaco do Coração É Derrotado pelo Fogo; A Mãe da Madeira É Capturada pelo Demônio
Sun Wukong e Zhu Bajie atacam a Caverna das Nuvens de Fogo mas são derrotados pelo fogo das Três Chamas do Rei Menino Sagrado. Os quatro dragões-reis são chamados mas a chuva deles não apaga o fogo espiritual. Sun Wukong quase morre afogado quando mergulha no riacho para aliviar as queimaduras. Zhu Bajie parte buscar Guanyin mas é enganado pelo demônio disfarçado.
A Caverna das Nuvens de Fogo tinha uma placa de pedra na entrada com oito caracteres gravados fundo: Número Um da Montanha, Ravina do Pinheiro Seco, Caverna das Nuvens de Fogo. Não havia guarda visível, mas havia fumaça — não de madeira queimando, mas do tipo de fumaça que vem de chamas que não precisam de combustível.
Sun Wukong parou na entrada e gritou:
— Demônio! Devolva meu mestre!
A resposta foi um grupo de demônios menores que abriram a porta e recuaram. Depois o Rei Menino Sagrado saiu em pessoa — não com armadura pesada, mas com uma saia de batalha bordada e os pés descalços, carregando uma lança de ponta de fogo, com a expressão descontraída de alguém que não espera trabalho difícil.
Era jovem, de rosto quase belo, cabelos negros e olhos com aquela qualidade específica de quem passou séculos refinando uma única habilidade até a perfeição. Trezentos anos no Monte da Chama praticando o fogo das Três Chamas Samsara — o fogo que nascia do fígado-madeira, aquecia o coração-fogo, estabilizava o baço-terra, purificava o pulmão-metal, e retornava ao rim-água em ciclo perpétuo. Não era um fogo que se apagava com água porque não era um fogo feito de calor.
— Grande Sábio — disse o Rei Menino com o prazer de alguém encontrando um adversário digno. — Você veio rápido.
— Devolva o mestre — disse Sun Wukong.
— Meu jantar? — O Rei Menino levantou uma sobrancelha. — Você devia esquecer o jantar e ir embora.
— Você disse que não era meu inimigo.
— Disse que você poderia ser meu tio. — A lança girou com uma fluência que mostrava anos de prática. — Mas tios não protegem jantares de sobrinhos. Escolha entre o parentesco e o monge.
Sun Wukong escolheu não responder e atacou.
A batalha durou vinte rodadas.
Era uma batalha de equivalentes técnicos — Sun Wukong era mais experiente, mais versátil; o Rei Menino era mais concentrado, com uma especialização que compensava a profundidade menor. A lança de ponta de fogo era rápida e precisa. O bastão de ouro era pesado e implacável. Durante vinte rodadas, nenhum dos dois conseguiu uma abertura definitiva.
Zhu Bajie, que havia observado com a avaliação profissional de um guerreiro experiente, decidiu que a batalha estava se estendendo por muito tempo e entrou com o rastelo de nove dentes.
O Rei Menino viu o rastelo chegando pelo ângulo, recuou um passo, avaliou a situação — dois contra um — e tomou sua decisão.
Colocou uma mão na face e deu dois socos no próprio nariz.
— O que está fazendo? — disse Zhu Bajie.
— Acordando o fogo — disse o Rei Menino.
Depois abriu a boca.
O que saiu não era chama no sentido convencional — não havia faísca, não havia calor ascendente, não havia o odor de combustível. Era fogo puro de cinco naturezas simultâneas, emergindo de cinco carros mágicos dispostos em formação de cinco elementos ao redor da entrada da caverna: madeira, fogo, terra, metal, água — cada um alimentando o seguinte num ciclo que produzia um calor que não tinha princípio nem fim.
O céu sobre a ravina ficou vermelho.
Zhu Bajie correu.
Não foi uma decisão calculada — foi o instinto de sobrevivência de alguém que havia passado tempo suficiente no mundo para reconhecer fogo que não se apaga com determinação. Correu de volta pela ponte de pedra, atravessou o riacho, e chegou ao lado de Sha Wujing antes que a fumaça o alcançasse.
Sun Wukong ficou.
Tinha o encantamento de esquivar do fogo — uma técnica aprendida há muito tempo que criava uma camada de intenção ao redor do corpo que o fogo convencional respeitava. Mergulhou nas chamas usando o encantamento, procurando o Rei Menino no interior.
O que não havia previsto era a fumaça.
O fogo das Três Chamas não queimava Sun Wukong — seu corpo havia sido temperado na fornalha de Lao Zi e era imune a maioria das chamas. Mas a fumaça que acompanhava o fogo das Três Chamas não era fumaça comum. Era fumaça de cinco elementos simultâneos, e quando entrou nos olhos de Sun Wukong — os olhos dourados que haviam resistido a quarenta e nove dias de refinamento celestial — causou a única coisa que aqueles olhos não podiam resistir.
Lágrimas.
Não de tristeza — de irritação física insuportável. Os olhos arderam, a visão borrou, e por um momento Sun Wukong estava cego no interior de um inferno de fogo das Cinco Naturezas, sem conseguir ver onde estava o Rei Menino ou onde estava a saída.
Saiu às cegas, guiado pela memória da direção que havia entrado.
Aterrisou na encosta fora da ravina, com os olhos fechados e as lágrimas descendo pelo rosto — não o pranto dramático de alguém sofrendo, mas as lágrimas involuntárias de alguém cujos olhos encontraram algo que não conseguiam processar.
Os quatro Reis Dragão chegaram rapidamente quando Sun Wukong os convocou do Mar Oriental.
Eram quatro irmãos — os soberanos dos quatro oceanos — e vieram com seus exércitos completos de criaturas marinhas: tubarões como vanguarda, enguias como artilharia, tartarugas como estrategistas. Disposeram-se no céu acima da ravina numa formação que cobria três li em cada direção, e quando Sun Wukong deu o sinal, despejaram chuva.
A chuva era genuína — água real dos quatro oceanos, fria e pesada, o tipo de downpour que apagaria qualquer incêndio convencional em minutos.
O fogo das Três Chamas não diminuiu.
Ficou exatamente do mesmo tamanho, da mesma intensidade, da mesma cor, como se a chuva fosse transparente para ele. Os Reis Dragão aumentaram a intensidade — a chuva virou dilúvio, o dilúvio virou algo que alagou o vale e fez o riacho seco transbordar — e o fogo ficou igual.
— Água privada apaga fogo convencional — disse o Rei Dragão do Mar Oriental para Sun Wukong com a expressão desconfortável de alguém entregando uma notícia ruim. — O fogo das Três Chamas Samsara não é convencional. Não temos autorização para invocar chuva sagrada sem decreto celestial.
— Então o que temos aqui não serve — disse Sun Wukong.
— Temo que não.
Sun Wukong agradeceu os quatro irmãos e os dispensou. Quando ficou sozinho na encosta olhando para o fogo que continuava exatamente como antes, sentiu algo que raramente sentia — não a frustração imediata de um obstáculo, mas a frustração mais profunda de uma limitação genuína.
Havia combates que o bastão resolvia. Havia armadilhas que a inteligência resolvia. Este era um problema de natureza: o fogo que o Rei Menino usava era feito de uma substância que os recursos disponíveis não podiam desfazer.
Havia apenas um lugar onde esse tipo de problema tinha solução.
Antes de ir buscar ajuda, tentou mais uma vez entrar na caverna — desta vez transformado em um pacote de bagagem, que um demônio menor trouxe para dentro sem suspeita. De dentro, como uma mosca, ouvia o Rei Menino dar instruções aos seis comandantes: ir buscar o Rei Touro. Convidar o pai para o banquete do monge Tang.
Sun Wukong seguiu os seis commandantes para fora e voltou para onde Sha Wujing esperava.
O problema era que Sun Wukong estava fraco.
O fogo e a fumaça haviam causado danos reais — não físicos, mas ao sistema de energia que permitia as transformações e o voo. Precisava de tempo para recuperar. Tempo que o mestre não tinha.
— Eu vou — disse Zhu Bajie.
Sun Wukong olhou para ele.
— Se você vai ao sul, vai ao Oceano do Sul, vai à ilha de Potalaka, e fala com Guanyin pessoalmente — disse Sun Wukong. — Não para ninguém no caminho. Não toma desvios. Não acredita em nenhuma aparência que você encontrar a menos que seja claramente ela.
— Eu sei buscar ajuda — disse Zhu Bajie com dignidade levemente ofendida.
— Você não sabe. Mas é o que temos agora. Vai.
Zhu Bajie partiu para o sul em nuvem, com a velocidade considerável de alguém cujas orelhas grandes funcionavam como velas no vento.
O Rei Menino, que havia antecipado essa possibilidade, já havia tomado o caminho mais curto para o sul.
Chegou antes de Zhu Bajie, transformou-se numa aparência convincente de Guanyin — a mesma postura serena, a mesma veste branca, o vaso com galho de salgueiro — e esperou numa rocha conveniente na rota.
Zhu Bajie viu a figura e parou. Havia algo que não estava completamente certo — um detalhe de postura, uma qualidade de luz ao redor da forma — mas a aparência era boa o suficiente para que sua mente já estivesse compondo o relato antes de processar a dúvida.
Desceu da nuvem e se ajoelhou.
O falso Guanyin o escutou com atenção educada e disse que conhecia a Caverna das Nuvens de Fogo, que podia ajudar, que Zhu Bajie deveria segui-la.
Zhu Bajie seguiu.
Quarenta minutos depois, estava pendurado dentro de um saco de couro no caibro da Caverna das Nuvens de Fogo, com o Rei Menino sentado abaixo dele de volta na sua forma verdadeira, sorrindo.
Sun Wukong, que havia percebido o problema quando sentiu uma brisa de mau agouro, foi ele mesmo ao sul — com dores nas costas e o sistema de energia ainda instável — para pedir ajuda diretamente.