Capítulo 40: A Criança Diverte-se e Confunde o Coração Zen; O Macaco e o Cavalo Partem Enquanto o Demônio Captura a Mãe da Madeira
Uma nuvem vermelha cobre a montanha — o Rei Menino Sagrado, filho do Rei Touro, disfarça-se de criança amarrada numa árvore para enganar Tang Sanzang. Sun Wukong reconhece a armadilha mas não consegue evitar que o mestre seja capturado por um tornado de fogo. Os três discípulos buscam o covil do demônio na Ravina do Pinheiro Seco.
A nuvem vermelha apareceu antes de qualquer barulho.
Sun Wukong a viu primeiro — uma mancha escarlate subindo do vale à frente como fumaça de uma fogueira que ninguém havia acendido, concentrando-se no ar até virar uma bola de fogo que ficou suspensa sobre o pico mais alto da montanha como uma segunda lua.
— Mestre — disse ele —, desça do cavalo.
Tang Sanzang desceu antes de perguntar por quê, o que havia aprendido a fazer nos meses de estrada.
— Que é isso?
— Demônio — disse Sun Wukong. — De onde vem aquele fogo, venha alguém mal-intencionado.
Zhu Bajie e Sha Wujing formaram um círculo em torno do mestre com as armas prontas. Eram um conjunto razoavelmente intimidante: um porco gigante com um rastelo de nove dentes, um monge das areias com um cajado de lua, e um macaco com olhos que ardiam como brasas douradas. A maioria dos predadores pensaria duas vezes.
Mas então a nuvem vermelha dissipou-se.
O fogo sumiu como se nunca tivesse existido.
— Passou — disse Sun Wukong, examinando o horizonte com cuidado. — Um demônio de passagem, indo para outro lugar.
— Demônios de passagem existem? — perguntou Zhu Bajie.
— Se estão indo para um banquete em outra montanha, sim.
Zhu Bajie considerou isso.
— Seria bom se o nosso caminho passasse por esse banquete.
— Continue andando.
A voz veio quinhentos metros adiante.
— Socorro! Alguém me ajude!
Tang Sanzang parou o cavalo.
— Você ouviu?
— Ouvi — disse Sun Wukong. — Continue andando.
— Há alguém pedindo socorro.
— Há alguém dizendo que há alguém pedindo socorro. — Sun Wukong olhou para a floresta com a expressão concentrada de quem analisa múltiplas possibilidades ao mesmo tempo. — Nesta montanha, com aquela nuvem vermelha que acabamos de ver, qualquer coisa que não seja uma pedra é suspeita.
Tang Sanzang fez que o cavalo avançasse. A voz veio de novo — mais próxima desta vez, mais urgente, com o timbre específico de uma criança em desespero genuíno.
— Um menino — disse o mestre.
— Um demônio que imita um menino — disse Sun Wukong.
— Você não pode saber isso.
— Posso suspeitar fortemente. Esta montanha tem fogo espiritual. Cobras suficientemente velhas aprendem a imitar qualquer som humano para atrair presas. Um menino sozinho numa montanha assim não sobreviveria dois dias.
Tang Sanzang olhou para frente e depois para os lados. Sun Wukong conhecia esse olhar — era o olhar de alguém que está pesando compaixão contra prudência e cuja compaixão sempre ganhava.
— Se for uma criança de verdade em perigo — disse o mestre —, e passarmos sem ajudar —
— Então ela morre e o universo é injusto. Mas se for um demônio e paramos —
— Então você a derrota e continuamos.
Havia uma lógica nessa posição que Sun Wukong reconhecia como tecnicamente válida e praticamente perigosa. Ele sabia que o mestre iria parar. Sempre parava. Era a qualidade que tornava Tang Sanzang irritante e admirável no mesmo instante.
— Pelo menos deixe-me examinar primeiro.
Mas já era tarde. Tang Sanzang havia guiado o cavalo para a clareira onde a voz vinha, e lá estava: uma criança de uns sete anos, completamente despida, amarrada com corda grossa nos braços e nos tornozelos e suspensa pelo tronco de um pinheiro com os pés a um metro do chão.
Os olhos da criança eram vermelhos de choro. O rosto estava sujo de poeira e lágrimas. A história que contou — em voz entrecortada, com pausas para soluços convenientemente colocados — era de uma família de comerciantes destruída por ladrões, pai morto, mãe raptada, ele mesmo deixado para morrer de frio e fome preso na árvore.
Tang Sanzang desceu do cavalo.
Sun Wukong posicionou-se entre o mestre e a criança.
— Não.
— Discípulo —
— Há três problemas com essa criança — disse Sun Wukong em voz baixa. — Primeiro: ela pesa menos do que deveria para sua aparente idade. Segundo: os olhos não ficam tão vermelhos de choro normal — ficam de fogo interno. Terceiro: não há pegadas na poeira ao redor da árvore que indiquem como ela chegou até aqui.
— Você pode estar errado.
— Posso.
— E se eu errar no outro sentido?
Era o argumento que sempre funcionava. Sun Wukong engoliu e ficou de lado enquanto Zhu Bajie cortava as cordas com sua faca.
A criança caiu nos braços de Tang Sanzang com uma lamentação de gratidão que soava praticamente real. Tang Sanzang a aqueceu com o manto. Perguntou se conseguia andar. A criança disse que as pernas estavam dormentes.
— Eu a carrego — disse Tang Sanzang, e olhou para Sun Wukong.
Sun Wukong pegou a criança e a colocou nas próprias costas com uma expressão que não revelava nada sobre o que pensava.
A criança era leve demais. Sete anos, mas pesando menos de dois quilos — a leveza específica de algo que existe mais como intenção do que como matéria sólida.
— Que estranha criança leve — disse Sun Wukong casualmente.
A criança não respondeu.
— Tão leve que parece que vai voar.
Nada.
Depois de um momento, Sun Wukong disse:
— Se precisar fazer suas necessidades, avisa.
A criança deu uma risada pequena e involuntária que soou errada — não como criança, mas como alguém mais velho tentando soar como criança, um erro de calibração mínimo mas identificável.
Sun Wukong sabia que sabia. E sabia que a criança sabia que ele sabia.
Eram dois jogadores em um jogo cujas regras ainda não haviam sido reveladas completamente.
Havia percorrido uns trezentos metros quando sentiu o peso aumentar.
Não gradualmente — de repente, como se alguém houvesse despejado pedras no espaço que a criança ocupava. De menos de dois quilos para cinquenta, cem, duzentos. Sun Wukong firmou os pés e manteve o passo, porque dobrar os joelhos seria admitir que o truque estava funcionando.
— Meu filho — disse ele —, você está usando o truque do corpo pesado.
A criança riu de novo, desta vez sem tentar esconder que a risada era errada.
— Você é bom — disse uma voz que não era mais de criança.
E então a criança saiu das costas de Sun Wukong — não caindo, mas subindo, dissolvendo-se de uma forma sólida num espírito que ficou suspenso no ar a dois metros de altura antes de assumir sua forma verdadeira.
Era um adolescente de talvez dezesseis anos, com chamas literais nos olhos e cabelos que ondulavam como fogo em vento forte. Vestia armadura vermelha e carregava uma lança. Havia uma qualidade de poder concentrado nele que Sun Wukong reconhecia dos combates difíceis — não a força bruta dos demônios grandes e lentos, mas o poder refinado de quem havia praticado por muito tempo.
— Grande Sábio Igual ao Céu — disse a criança com uma voz que carregava prazer genuíno. — Ouvi falar de você.
— E eu de seu pai — disse Sun Wukong. — Seu pai e eu fomos irmãos juramentados. O que isso faz de você?
— Alguém que não precisa tratá-lo como inimigo.
— Então devolva meu mestre e continuemos cada um nosso caminho.
A criança — o Rei Menino Sagrado, filho do Rei Touro e da Princesa do Leque de Banana, que havia refinado o fogo das Três Chamas por trezentos anos no Monte da Chama — sorriu com aquela satisfação específica de alguém que preparou uma armadilha elaborada e está prestes a puxar o gatilho.
— O Grande Sábio ainda não viu o meu fogo.
O tornado começou do nada.
Não era vento comum — era fogo em forma de vento, o tipo de chama que não precisava de combustível porque era feita de algo mais antigo do que madeira ou óleo. O fogo das Três Chamas Samsara que o Rei Menino Sagrado havia refinado por séculos queimava sem fumaça e iluminava sem calor, e quando envolvia alguém, não havia encantamento de água que ajudasse.
Sun Wukong tentou três vezes criar um campo de proteção em torno do mestre. As três vezes, o fogo do Rei Menino entrou pelos ângulos onde qualquer barreira tinha espaços. Tentou transformar-se em pedra — o fogo passou através da pedra. Tentou invocar vento contrário — o fogo engoliu o vento.
Tang Sanzang desapareceu no tornado com uma expressão que Sun Wukong não conseguiu ler completamente antes que o fogo fechasse — algo entre resignação e curiosidade, como de um homem que havia cruzado montanhas e florestas e rios e chegado à conclusão de que o mundo era maior do que qualquer proteção.
O tornado sumiu.
O mestre não estava.
O silêncio que se seguiu tinha aquela qualidade específica de lugares onde algo importante acabou de acontecer e as consequências ainda não chegaram completamente.
Zhu Bajie ficou olhando para o espaço vazio com as orelhas baixas.
— Aconteceu de novo.
— Aconteceu — concordou Sha Wujing.
— Quando o irmão mais velho diz que é demônio e o mestre diz que é criança...
— O mestre deveria ouvir o irmão mais velho — disse Sha Wujing com calma. — Mas isso já estabelecemos.
Sun Wukong olhou para o céu onde o Rei Menino havia desaparecido e calculou as opções. O fogo das Três Chamas era imune a água comum e à maioria dos encantamentos de extinção. Seria necessário algo mais específico — algo que ele não possuía.
— Há sessenta e mais montanhas neste vale — disse ele. — Trinta montanhas, um deus local para cada uma, sessenta deuses no total. Alguém aqui sabe onde o Rei Menino mora.
Chamou os deuses locais com a voz que usava para chamar coisas que preferiam não aparecer, e esperou.
Os deuses apareceram em grupos de dois e três — mal vestidos, com expressões de pessoas que haviam passado anos sob um regime difícil. Contaram: a Ravina do Pinheiro Seco, a Caverna das Nuvens de Fogo, o Rei Menino Sagrado que cobrava tributo dos deuses da montanha em animais e incenso, os aldeões que às vezes desapareciam.
— Este demônio é o filho do Rei Touro — disse Sun Wukong para Zhu Bajie enquanto os deuses se dispersavam. — O Rei Touro e eu fomos irmãos juramentados nos tempos antes do Céu me prender sob a montanha.
— Então este menino é seu sobrinho.
— Em teoria.
— E isso ajuda como?
— Não ajuda — disse Sun Wukong. — O parentesco funciona quando a outra parte quer que funcione. Ele sabe quem sou e escolheu capturar o mestre de qualquer jeito. Para ele, sou um inimigo com uma história familiar conveniente.
Zhu Bajie pensou nisso.
— E o fogo?
— Há uma pessoa no universo capaz de conter o fogo das Três Chamas Samsara — disse Sun Wukong, olhando para o sul, onde o Oceano do Sul ficava além do horizonte. — Mas primeiro precisamos encontrar a caverna do Rei Menino e verificar se o mestre está vivo. Sha Wujing fica com o cavalo.
Sha Wujing assumiu a guarda sem reclamar — era o tipo de discípulo que entendia quando sua função era segurar a linha de retaguarda em vez de atacar.
Sun Wukong e Zhu Bajie seguiram pela ravina em direção às chamas que podiam ser vistas no horizonte — vermelhas e constantes, como um sol que havia descido à terra e decidido ficar. A Ravina do Pinheiro Seco cheirava a cinzas e algo sulfuroso, e os pinheiros que lhe davam nome estavam mortos há tempo suficiente para terem virado pedra negra.
No fundo da ravina, atrás de uma ponte de pedra que cruzava um riacho seco, ficava a Caverna das Nuvens de Fogo — com chamas vivas na entrada, um par de demônios menores de guarda, e lá dentro, presumivelmente, Tang Sanzang esperando que alguém viesse buscá-lo.
— Plano? — disse Zhu Bajie.
— Bater na porta.
— Esse é sempre o plano.
— O plano funciona.
— Às vezes.
— Às vezes é suficiente — disse Sun Wukong, e avançou.