Capítulo 4: O Grande Sábio Igual ao Céu
Sun Wukong é nomeado Guardador de Cavalos no Céu, sente-se humilhado ao descobrir a insignificância do cargo e retorna ao Monte das Flores e Frutos exigindo o título de Grande Sábio Igual ao Céu.
O decreto celestial chegou ao Monte das Flores e Frutos numa manhã de névoa dourada, carregado por dois imortais menores que desceram das nuvens com a solenidade desconfortável de quem foi designado para uma missão potencialmente perigosa. Sun Wukong os recebeu com curiosidade e certa vaidade — afinal, nunca havia recebido uma visita oficial do Palácio Celestial.
O decreto era um convite: o Imperador de Jade, em sua infinita generosidade, desejava oferecer a Sun Wukong um posto no Céu. Seria uma honra, disseram os mensageiros, que poucos mortais — ou imortais — jamais recebiam.
Sun Wukong aceitou com a euforia expansiva que o caracterizava. Seus súditos o despediram com festa e gritos de admiração. Ele subiu às nuvens com o Bastão de Ouro atrás da orelha e o coração transbordando de expectativas grandiosas.
O Palácio Celestial era de uma magnificência que mesmo Sun Wukong, acostumado às belezas do Monte das Flores e Frutos e às maravilhas do fundo do mar, precisou de um momento para absorver. Portões de ouro maciço guarnecidos por guerreiros celestiais. Nuvens coloridas como tapetes sob os pés. Pavilhões que pareciam suspensos no vazio azul por força da pura beleza. A luz que banhava tudo aquilo não era a luz comum do sol, mas algo mais antigo e mais puro, que parecia emanar da própria substância do lugar.
O Imperador de Jade o recebeu em audiência com cordialidade calculada, apresentou-lhe o posto com pompa considerável, e Sun Wukong inclinou-se com a gratidão de quem ainda não sabe que está prestes a ser ofendido.
O posto era: Guardador dos Cavalos Celestiais.
Isto é, responsável pela estrebaria do Palácio Celestial.
Nos primeiros dias, Sun Wukong jogou-se na função com seu entusiasmo habitual, porque Sun Wukong jogava-se em tudo com entusiasmo habitual. Os cavalos celestiais eram magníficos — animais de uma beleza que não existia em lugar algum da terra, com crinas que cintilavam como auroras e olhos profundos como lagos de montanha. Ele os alimentou, os escovou, os passeou pelas planícies das nuvens, e os cavalos, que eram criaturas sensíveis ao caráter dos que os cuidavam, prosperaram sob seus cuidados de forma notável.
Mas então, uma semana depois de sua chegada, Sun Wukong parou um colega imortal menor no corredor e perguntou, com o tom casual de quem apenas confirma um detalhe:
"Qual é exatamente o nível hierárquico do Guardador dos Cavalos?"
O imortal menor — um funcionário de meia patente com um rosto redondo e uma expressão de quem preferia não estar nessa conversa — hesitou. Depois explicou. O Guardador dos Cavalos era o posto mais baixo da hierarquia celestial. Não tinha título. Não tinha honraria. Não era sequer mencionado nas listas oficiais de funcionários do Palácio. Era, essencialmente, um moço de estrebaria com status divino.
O silêncio que se seguiu foi do tipo que precede as grandes tempestades.
"Eu", disse Sun Wukong, com uma voz que havia descido vários registros e adquirido uma qualidade que fazia as nuvens próximas se dispersarem nervosamente, "que li o nome da morte nos registros do submundo, que tenho o Bastão de Ouro que governou os oceanos, que aprendi com o maior dos mestres a arte da imortalidade perfeita... sou o moço de estrebaria do Palácio Celestial."
Não foi uma pergunta.
Naquela mesma tarde, Sun Wukong abandonou a estrebaria com os cavalos ainda comendo tranquilamente, e desceu de volta ao Monte das Flores e Frutos num único salto da Nuvem da Cambalhota, a raiva fazendo trilhas de faísca dourada no ar atrás dele.
Seus súditos o receberam com alegria, depois com preocupação ao perceber a expressão em seu rosto.
"O Céu", anunciou Sun Wukong, sentando-se no seu trono de pedra e batendo o bastão no chão com uma força que fez tremer as estalactites da caverna, "não me deu o respeito que mereço. E se o Céu não me dará esse respeito voluntariamente, então eu o tomarei."
Seus generais — seis demônios reis de regiões vizinhas que haviam se unido a ele — trocaram olhares de preocupação e de excitação em igual medida.
"O que o Grande Rei propõe?", perguntou o mais corajoso deles.
"Um título", disse Sun Wukong. "Quero um título que reflita o que sou. Grande Sábio Igual ao Céu." Ele deixou as palavras pousarem no ar como pedras na superfície de um lago. "Isso é o que sou. E é o que o Céu vai me chamar."
A delegação celestial que veio para persuadi-lo a retornar foi recebida com cortesia e com um ultimato claro: ou o título era concedido, ou Sun Wukong demonstraria pessoalmente e em detalhe o que um Grande Sábio era capaz de fazer com um bastão e setenta e duas transformações.
O general celestial Tai Bai Jinxing — o Velho Vênus, um ancião diplomático de longa experiência com situações delicadas — ouviu as exigências de Sun Wukong com a paciência de alguém que havia negociado tratados entre dragões e fênix por milênios. Retornou ao Palácio Celestial e relatou ao Imperador de Jade com a franqueza de um conselheiro leal:
"Majestade, este macaco possui poder suficiente para causar consideráveis perturbações se não for satisfeito. O título não custa nada ao Céu, mas custará muito não concedê-lo."
O Imperador de Jade considerou isso por um longo momento, olhando para os horizontes infinitos que se estendiam além das janelas do seu palácio.
"Que seja assim", disse finalmente. "Que lhe seja dado o título de Grande Sábio Igual ao Céu. Com um pavilhão próprio, dois servos imortais e uma residência adequada a tal título."
Quando a notícia chegou ao Monte das Flores e Frutos, a alegria de Sun Wukong foi sincera e explosiva. Saltou pelas pedras da sua montanha, girou o bastão sobre a cabeça, gritou seu novo título para o horizonte com uma satisfação que parecia capaz de mover montanhas.
Grande Sábio Igual ao Céu.
Era o que ele sempre soubera que era. Finalmente, o resto do universo havia concordado.
Voltou ao Palácio Celestial com pompa renovada, instalou-se em seu novo pavilhão — uma estrutura bela e bem-localizada, vizinha aos jardins da Rainha Mãe do Ocidente onde os pêssegos da imortalidade cresciam em fileiras ordenadas de perfeição — e começou uma nova fase de sua existência celeste.
Por um tempo, foi suficiente. Sun Wukong passeava pelos jardins do Céu, conversava com imortais e santos de todos os tipos, explorava os pavilhões e palácios com a curiosidade insaciável que o havia levado a cruzar oceanos em jangadas de bambu. O Céu era fascinante, e ele era fascinado.
Mas a paz, como sempre em sua vida, era apenas uma pausa entre as próximas complicações.
Havia também a questão das relações. No Palácio Celestial, a posição social determinava com quem se conversava e sobre o quê — um sistema de hierarquia elaborado ao longo de eons que tornava cada interação uma dança de protocolo onde os passos errados tinham consequências reais. Wukong descobriu que tinha pouca paciência para essa dança, mas descobriu também que havia maneiras de navegar fora dela — os lugares onde o protocolo afrouxava, onde seres de diferentes escalões se encontravam como iguais por necessidade prática.
Os jardins de manutenção, por exemplo. Os depósitos de alimentos celestiais. Os quartéis dos guardas nos turnos da madrugada, quando a formalidade da corte havia ido dormir e os seres que ficavam acordados pelo cargo conversavam com a honestidade específica de pessoas que não precisam impressionar ninguém naquelas horas.
Nesses espaços, Wukong aprendeu coisas sobre o Palácio Celestial que os banquetes e as audiências nunca revelariam — a estrutura real do poder, as histórias por baixo das histórias oficiais, as tensões que os protocolos não conseguiam completamente esconder.
E aprendeu algo sobre si mesmo também: que havia em sua natureza não apenas a necessidade de combate e de demonstração de poder, mas também uma curiosidade genuína sobre como as coisas funcionavam. Era uma descoberta pequena e significativa ao mesmo tempo, porque curiosidade é o começo de muitos caminhos, e alguns desses caminhos levam a lugares que força bruta sozinha nunca alcançaria.
Por ora, o Grande Sábio Igual ao Céu passeava pelos pátios do Palácio Celestial, guardando o que via e o que ouvia, esperando por aquilo que — embora não soubesse ainda nomear — seu instinto dizia que estava por vir.
O que tornava o Palácio Celestial verdadeiramente extraordinário não era sua escala — era sua antiguidade.
Cada pedra havia sido colocada num tempo antes do qual o próprio Wukong havia existido. Cada ritual que os imortais seguiam havia sido estabelecido em eras quando o cosmos ainda estava sendo ordenado. Cada hierarquia que regulava quem se sentava onde e quem falava primeiro havia sido negociada e codificada ao longo de processos que tornavam as diplomacias das dynastias humanas parecerem episódios de uma tarde.
Wukong havia sido criado numa montanha. Havia aprendido o Caminho numa caverna. Havia lutado contra demônios e exércitos. Mas a burocracia celestial era um tipo de sistema diferente de tudo o que havia encontrado — não hostil, não amigável, simplesmente imenso e antigo e indiferente à escala específica de qualquer ser individual.
E descobria agora, passeando pelos seus corredores como Grande Sábio Igual ao Céu sem função específica, que havia algo inegavelmente fascinante naquele sistema. Não o fascínio da admiração — era complicado demais e rígido demais para admira puro — mas o fascínio de quem estuda uma estrutura complexa tentando entender como funciona.
Que tipo de cosmos havia criado aquele Palácio? Que necessidades havia servido ao longo dos eons? E onde, naquela vastidão de protocolo e hierarquia, havia espaço para um ser como Sun Wukong — nascido de pedra, treinado fora de qualquer sistema, incapaz de operação dentro dos parâmetros que o sistema considerava normais?
Era uma questão que não tinha resposta no momento. Mas Sun Wukong havia aprendido desde pequeno que as perguntas sem resposta imediata eram as mais interessantes — porque indicavam lugares onde o mapa estava incompleto e o território ainda estava por ser explorado.
E explorar territórios não mapeados era, afinal, o que ele havia sempre feito melhor.
O que Wukong não havia antecipado era a solidão do Palácio Celestial.
Não era a solidão da montanha ou do oceano — aquelas tinham uma textura natural, o silêncio habitado pelos sons do mundo. Era a solidão específica de estar num lugar vastamente populado e ainda assim não encontrar os seus — as pessoas cujo modo de existir correspondia ao seu próprio de maneiras que tornavam a presença mútua fácil em vez de trabalhosa.
Os imortais do Palácio Celestial haviam crescido dentro daquele sistema. Conheciam seus papéis e suas regras com a familiaridade de quem foi criado nelas desde o começo de sua existência. Havia entre eles uma linguagem implícita — de gestos, de silêncios, de pequenas deferências e pequenos privilégios — que Wukong entendia tecnicamente mas que nunca seria sua de dentro.
Era como conhecer os passos de uma dança sem sentir a música.
Nos momentos mais honestos de suas noites no palácio, Wukong pensava no Monte das Flores e Frutos. Não com nostalgia sentimental — havia partido voluntariamente, havia escolhido vir, e as escolhas tinham que ser sustentadas. Mas com um reconhecimento de que havia ali algo que faltava aqui: o pertencimento que nasce de ter criado um lugar junto com outros, em vez de chegar a um lugar que outros criaram.
O Monte das Flores e Frutos era seu porque havia sido construído pela vida coletiva dos macacos que nele habitavam. O Palácio Celestial era do Imperador de Jade e dos imortais que haviam servido ao longo de eons. Wukong era hóspede com título, que era uma forma de não pertencer com mais conforto material.
Seria essa a razão pela qual o Palácio não podia contê-lo? Não o poder, não a hierarquia, mas a ausência fundamental de pertencimento real?
Era uma pergunta que Wukong não responderia ali. Mas que ficaria com ele — como ficavam as perguntas que tocam em algo verdadeiro — muito depois que o Palácio Celestial fosse história antiga e a próxima grande aventura houvesse começado.