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Capítulo 39: Uma Pílula de Cinábrio Obtida nos Céus; O Mestre de Três Anos Ressuscitado no Mundo

Sun Wukong sobe ao palácio de Lao Zi para obter a pílula de ressurreição e revive o rei verdadeiro do País de Uji, morto há três anos pelo demônio leão. Com o rei ressuscitado, os peregrinos entram no salão do trono para expor o impostor — mas o demônio assume a aparência de Tang Sanzang, tornando impossível distinguir o verdadeiro.

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Tang Sanzang ainda tinha a cabeça inclinada sobre as escrituras quando disse:

— Vai, então. Mas volta antes do amanhecer.

Era meia-noite no Templo Baolinsi. O fantasma do rei havia aparecido durante o sono do mestre, encharcado e real demais para ser apenas um sonho — os monges celestiais tinham essa qualidade de presença, mesmo depois de mortos, que atravessava o sono como água atravessa pano fino. O rei havia contado tudo: o falso taoísta que havia chegado três anos antes, que havia chamado chuva no meio da seca e ganhou a confiança do palácio, que havia jogado o rei verdadeiro no poço do jardim enquanto tomava sua forma. O impostor governava há três anos. A rainha não sabia. O príncipe duvidava.

E o corpo do rei verdadeiro estava no fundo de um poço de oito ângulos em jade no jardim do palácio, perfeitamente preservado pela água fria.

— Eu poderia ir à corte infernal buscar a alma — disse Sun Wukong, pesando as opções.

— Não — disse Tang Sanzang. — O mestre disse que devíamos trabalhar no mundo dos vivos, não no dos mortos.

— Então há um único caminho: a pílula de Lao Zi.

Zhu Bajie, que havia passado a última hora tentando parecer desperto, disse:

— Ele não vai dar.

— Não vai dar — concordou Sun Wukong. — Mas vou buscar.

— Se você voltar com a pílula, vou chorar duas horas seguidas em homenagem ao rei morto — disse Zhu Bajie.

— Você vai chorar de qualquer jeito. — Sun Wukong já estava subindo. — O mestre vai pedir.

Havia algo na sua voz — não ameaça, mas a certeza tranquila de alguém que conhece bem as coisas ao seu redor. Tang Sanzang levantou os olhos da página, calculou, e começou a recitar.

Zhu Bajie fechou os olhos com resignação e foi buscar um pedaço de papel para usar como estímulo nasal.


O Palácio do Trigésimo Terceiro Céu — o Céu da Amargura, onde Lao Zi guardava seus elixires — estava silencioso naquela hora, com apenas a luz das fornalhas iluminando o corredor principal.

Sun Wukong entrou sem anunciar.

Lao Zi estava sentado junto à fornalha de cinábrio com dois servos abanando o fogo, que brilhava vermelho e ouro como sempre havia brilhado. Quando viu Sun Wukong, disse para os servos:

— Prestem atenção. O ladrão de elixires voltou.

— Velho — disse Sun Wukong —, que maneira de receber visita. Não roubei nada desta vez.

— Ainda não chegou ao que queira — disse Lao Zi. — Diz o que queres e vai embora.

Sun Wukong explicou: o rei de Uji, morto no poço, três anos preservado pela água fria, o fantasma que havia encontrado o mestre. Precisava de uma pílula de ressurreição. Não importava o tamanho.

— Mil pílulas — disse ele para começar.

— Não há.

— Cem.

— Também não.

— Dez.

— Não existe "dez", pois a pílula é uma por lote, e este lote acabou — disse Lao Zi com a paciência de alguém que já teve esta conversa variações dela antes.

Sun Wukong virou para ir embora.

Lao Zi o observou por um momento e calculou o mesmo que Sun Wukong havia calculado: que se o macaco saísse pela porta sem a pílula, voltaria pela janela para roubá-la. Havia uma lógica de economia celestial nisso que tornava o presente inevitável.

— Espera — disse o velho. — Há uma pílula do lote anterior.

— Ótimo. Posso prová-la para ter certeza que é autêntica?

— Não. — Lao Zi colocou a pílula na palma de Sun Wukong com a precisão de alguém que conta moedas. — Toma e vai, e não voltes por mais um século.

Sun Wukong fechou o punho em torno da pílula. Era pequena — do tamanho de uma ervilha, de um vermelho tão profundo que parecia ter luz própria — e pesava menos do que deveria para uma coisa que poderia fazer o morto respirar. Guardou-a na bolsa embaixo da língua, que era o lugar mais seguro que conhecia para transportar coisas pequenas e preciosas.

— Sempre um prazer, velho — disse ele.

— Vai.


Estava de volta ao Templo Baolinsi antes que o céu começasse a clarear.

Zhu Bajie estava chorando como havia prometido — não com entusiasmo, mas com a persistência de alguém que se comprometeu com uma tarefa e a executa com diligência. Os olhos estavam vermelhos. A batina estava molhada de lágrimas e algo que preferia não identificar. Quando Sun Wukong chegou, Bajie ergueu os olhos com a expressão de alguém aliviado de ter uma razão para parar.

— Encontrou?

Sun Wukong tirou a pílula da boca.

— Buscai água limpa.

Sha Wujing foi ao poço do templo e voltou com meia tigela. Sun Wukong segurou o corpo do rei — que havia sido trazido do poço do palácio durante a noite pelo príncipe, envolto em lençóis limpos — e colocou a pílula nos lábios frios.

Tang Sanzang observou.

— A água — disse Sun Wukong para Sha Wujing.

Sha Wujing verteu um fio fino.

A pílula desceu. Sun Wukong aproximou-se e soprou — não ar comum, mas a respiração limpa de alguém que havia passado décadas comendo frutos de pinheiro e pêssegos celestiais, sem nenhuma das impurezas acumuladas pelos humanos que comem animais desde a infância. Era essa a diferença entre o sopro de Sun Wukong e o de Zhu Bajie, que Tang Sanzang havia especificado: um ar claro contra um ar turvo.

Por um momento, nada aconteceu.

Depois o peito do rei subiu.

E desceu.

E subiu de novo.

Os olhos abriram — desorientados, assustados, procurando orientação no espaço ao redor. Eram os olhos de um homem que havia estado morto por três anos e precisava de um momento para reconciliar esse fato com o de estar vivo.

— Sua Majestade — disse Sun Wukong — está no Templo Baolinsi, a quarenta li do palácio. Seu filho está aqui. O falso rei ainda está no trono, mas isso vai mudar hoje.

O rei olhou para o macaco com a expressão específica de alguém que nunca imaginou que sua vida fosse ter esse capítulo.

— Quem és?

— Um viajante. Isso é o suficiente por agora. Vamos.


A entrada no salão do trono de Uji foi planejada com a precisão de uma peça de teatro que precisa de múltiplos efeitos simultâneos.

O rei verdadeiro viajou disfarçado de servo, carregando metade da bagagem de Zhu Bajie. Isso havia sido ideia de Bajie — não por crueldade, mas porque um rei com roupa de servo não seria reconhecido pelos guardas do falso rei, e o elemento surpresa valia mais do que a dignidade do momento.

Ao entrarem no salão do trono, Sun Wukong foi à frente e falou em voz alta, respondendo às perguntas do demônio-rei com o histórico completo da jornada — Chang'an, as credenciais imperiais, os nomes dos três discípulos — e então, sem aviso, recitou em voz alta a história do rei verdadeiro: o falso taoísta, a seca, a troca de identidades, o poço.

O demônio no trono ficou imóvel por um segundo que durou o suficiente para revelar tudo.

Depois agarrou uma espada de um guarda e subiu para as nuvens.

Sun Wukong foi atrás.

A batalha no ar durou mais do que esperado — o demônio era rápido e havia passado três anos no trono sem combater, o que significava que havia descansado bem. Mas quando ficou claro que não conseguiria escapar, fez algo que Sun Wukong havia previsto como possibilidade mas não como certeza: desceu de volta ao salão, misturou-se à multidão, e transformou-se numa cópia perfeita de Tang Sanzang.

Havia agora dois Tang Sanzangs no salão do trono de Uji.

Sun Wukong parou no ar com o bastão erguido e olhou para os dois monges idênticos.

Ambos diziam: — Discípulo, sou eu. Não me batas.

— Espera — disse Zhu Bajie em voz alta, com a satisfação de alguém que finalmente tem a resposta antes do irmão mais velho. — Mestre, recite o encantamento da faixa de ouro.

Um dos dois Tang Sanzangs começou a recitar as palavras certas — as que apertavam a faixa na cabeça de Sun Wukong, as que somente três pessoas no universo conheciam: Buda, Guanyin, e Tang Sanzang.

O outro abriu a boca e emitiu um som vago e sem forma.

— Esse — disse Zhu Bajie, apontando para o segundo.

Sha Wujing ergueu o cajado. O falso Tang Sanzang saltou para as nuvens novamente. Os três discípulos foram atrás.

A batalha foi curta depois disso — três contra um, sem a possibilidade de disfarce, o demônio encurralado entre o bastão, o rastelo e o cajado. Quando Sun Wukong estava prestes a dar o golpe final, uma voz veio do nordeste:

Sun Wukong. Para.

Era Manjushri — o Bodhisattva da Sabedoria, descendo das nuvens com a expressão serena de quem chega exatamente quando precisa chegar e não um momento antes. Tirou da manga um espelho que mostrava a forma verdadeira dos seres — e no espelho, o demônio revelou-se: um leão de pelo azul-escuro com olhos dourados, as patas enormes, a cauda varrendo as nuvens.

— Este é o leão que fica ao meu lado — disse Manjushri. — Por decreto do Buda, foi enviado aqui para testar vossa determinação, como pagamento por uma ofensa que o rei cometera anteriormente contra mim.

Sun Wukong ficou olhando para o bodhisattva por um momento.

— E se tivéssemos falhado o teste?

— Vocês não falharam.

— Mas se tivéssemos.

Manjushri considerou isso com a expressão de alguém que não havia pensado no cenário.

— A jornada continuaria de outras formas — disse por fim. — Os caminhos do Buda são vastos.

Sun Wukong baixou o bastão — não com satisfação, mas com o tipo de aceitação cansada de alguém que havia entendido que o universo opera com uma lógica que às vezes coincide com a justiça e às vezes apenas coincide consigo mesmo.

— Leva o teu leão, então.


O rei de Uji foi devolvido ao trono naquele mesmo dia.

A rainha reconheceu o marido antes que qualquer palavra fosse dita — havia algo na maneira como ele entrou, o gesto específico de como segurava o capuz quando havia sol nos olhos, que nenhum impostor poderia reproduzir com precisão depois de três anos.

O príncipe ficou de pé ao lado do pai com a expressão de alguém que havia crescido três anos mais depressa do que deveria.

Tang Sanzang aceitou o convite para jantar no palácio. Na manhã seguinte, quando o grupo partiu ao amanhecer com as credenciais carimbadas e provisões para o caminho, o rei ficou no portal com a família.

— Não há recompensa suficiente — disse ele.

— A jornada não aceita recompensa — disse Tang Sanzang.

— Então aceitai apenas isto: este reino saberá vosso nome.

Era suficiente. Tang Sanzang montou no cavalo branco e virou para o oeste, e os três discípulos seguiram — Sha Wujing na retaguarda, Bajie com a bagagem, e Sun Wukong à frente com o bastão no ombro, os olhos dourados já varrendo o horizonte em busca do que viria a seguir.

Havia sempre algo a seguir.