Capítulo 38: O Príncipe Confronta o Falso Rei
O Príncipe Yang reconhece o demônio impostor com a ajuda de Sun Wukong. A batalha para desmascarar o leão-demônio e restaurar o rei legítimo ao trono de Wuji.
A manhã no palácio de Wuji começou como todas as manhãs haviam começado nos últimos três anos: com a entrada solene do rei no salão de audiências, com os ministros enfileirados em suas posições hierárquicas, com o ritual imutável de um governo que funcionava com a precisão que os bons governos têm — ou que os impostores suficientemente competentes sabem reproduzir.
O demônio-leão havia aprendido tudo. Havia estudado cada gesto, cada expressão, cada hábito de um rei que havia observado de perto por dois anos antes do assassinato. Conhecia os nomes dos ministros, os problemas das províncias, as intrigas da corte, os gostos do palácio. Se havia algo que distinguia sua performance da realidade, era uma coisa quase indiscernível: uma leveza específica que faltava nos momentos de maior intimidade, como se o demônio fosse capaz de imitar a forma sem conseguir capturar completamente a substância.
Só o Príncipe Yang havia notado. E havia aprendido, nos últimos três anos, a não dizer nada.
Essa manhã, porém, seria diferente.
Sun Wukong havia passado a noite anterior com o rei ressuscitado no jardim do poço — sim, o mesmo jardim, sim, a mesma bananeira —, traçando um plano que equilibrava a eficácia imediata com a necessidade de que a verdade fosse pública o suficiente para ser irrefutável. Derrotar o demônio em combate era simples. Derrotá-lo de forma que nenhum ministro duvidoso pudesse depois reescrever o evento como um golpe ou uma usurpação era mais complexo.
"O filho," disse o rei, com a voz ainda levemente rouca do ressuscitado, "pode ser a chave. Se meu filho aparecer na audiência com o pente e disser o que sabe..."
"As crianças são testemunhas impopulares," disse Sun Wukong, não por pessimismo mas por precisão. "A menos que haja algo além da palavra de uma criança."
"Então precisamos de um confronto direto," disse o rei, "em que o demônio revele sua natureza diante de todos."
Sun Wukong sorriu. Confrontos diretos eram sua especialidade.
O plano tinha três partes.
A primeira: Tang Sanzang, em sua qualidade de monge imperial enviado pelo Imperador de Tang, solicitaria audiência com o rei de Wuji ao amanhecer. Isso era ordinário — peregrinos imperiais recebiam audiência em todos os reinos. O demônio não teria razão para suspeitar.
A segunda: durante a audiência, o Príncipe Yang apareceria — ostensivamente por acidente, na verdade por instrução de Sun Wukong, que havia passado um bilhete pelo mesmo preceptor que adormecia sob os salgueiros — e apresentaria o pente ao suposto rei, pedindo que o identificasse.
A terceira: Sun Wukong estaria presente de forma invisível, pronto para agir no momento em que o demônio revelasse sua natureza real — que revelaria, porque demônios com o orgulho suficiente para usurpar um trono raramente conseguem resistir ao momento em que são desafiados diretamente.
A execução foi imprecisa nos detalhes, como os planos sempre são na prática, mas funcionou em estrutura.
Tang Sanzang foi recebido no salão de audiências com a pompa que o protocolo exigia. O demônio-leão, no trono do rei, olhou para o peregrino com os olhos calculistas de quem avalia cada visitante como ameaça potencial ou recurso útil, e decidiu — erroneamente — que um monge de aparência gentil com uma sacola de escrituras era mais recurso que ameaça.
"Monge da Tang," disse, com a voz do rei que havia aprendido, "que traz você a Wuji?"
Tang Sanzang fez a reverência adequada e disse as palavras adequadas: missão imperial, busca das escrituras sagradas do Ocidente, pedido de passaporte para seguir viagem. Era um script que havia repetido em dezenas de reinos e que podia executar com parte de sua mente enquanto a outra parte observava os ministros, a composição da corte, os guardas perto das colunas.
Foi então que o Príncipe Yang entrou.
Seis anos, olhos que não haviam aprendido a mentir, um pente dourado nas mãos. A criança atravessou o salão com a precisão de quem tem um propósito que é maior que seu medo — e havia medo, visível na rigidez dos seus ombros e na forma como seus dedos apertavam o pente —, parou na frente do trono, e ergueu o objeto.
"Pai," disse o príncipe, "reconheces isto?"
O silêncio que se seguiu tinha uma textura específica — a textura do instante em que um engano se aproxima do momento de ser desfeito.
O demônio-leão olhou para o pente. Tinha a memória perfeita de um ser que havia estudado o rei com atenção extraordinária. Sabia que o rei tinha filhos. Sabia que esse era o mais jovem. Mas não sabia — porque isso não estava em nenhum gesto ou hábito que pudesse ser observado e copiado — o significado específico daquele pente.
"Claro, filho," disse o demônio, com a confiança de quem improvisa. "É um pente do tesouro imperial."
O príncipe não se moveu. "Para quem foi dado?"
Uma pausa de uma fração de segundo — invisível para um adulto que não estivesse prestando atenção, visível para uma criança que havia passado três anos prestando atenção em tudo. "Para..."
"Não sabes," disse o príncipe, com a clareza serena das crianças que chegaram a uma conclusão que não pode ser revertida. "Porque não és meu pai."
O que aconteceu nas horas seguintes foi, em retrospecto, quase inevitável.
O demônio-leão perdeu a compostura com uma velocidade que indicava que o controle havia sempre sido superficial — que governar um reino humano por três anos havia exigido uma contenção constante que o esgotara de formas que nem ele mesmo havia percebido. A raiva veio primeiro, depois a forma real — aquela figura enorme, azul-acinzentada, com a juba que se eriçava como névoa solidificando-se em fios de prata —, e no momento em que a forma real apareceu, Sun Wukong desceu do teto onde havia estado preso como uma mosca, com o Bastão de Ouro crescendo para o tamanho de batalha na mesma fração de segundo.
Os ministros recuaram para as paredes. Os guardas tentaram fugir e descobriram que as portas haviam sido seladas — Sun Wukong tinha o hábito de preparar os cenários antes de entrar. O Príncipe Yang ficou no lugar, porque tinha seis anos e confiança do tipo que ainda não aprendeu que o medo é razoável.
A batalha foi breve.
O leão-demônio era poderoso, mas estava num espaço que não favorecia sua forma — um salão de palácio, com colunas e tetos baixos e corpos humanos por todos os lados que o impediam de usar completamente sua envergadura. Sun Wukong não tinha essas restrições. Quando o bastão atingiu a cabeça do demônio pela terceira vez e o ser desabou sobre os azulejos de jade do salão, havia na queda algo de inevitável — a inevitabilidade específica de coisas que nunca poderiam ter terminado de outra forma.
Mas Sun Wukong não matou o demônio.
Havia reconhecido, no brilho específico dos olhos daquele ser — não o brilho da magia comum mas o brilho de algo que vem de um nível de existência diferente —, que estava diante de um ser celestial disfarçado. Animais comuns que cultivavam poderes mágicos tinham um brilho. Seres que serviam a Bodhisattvas tinham outro.
"De onde vens?" perguntou Sun Wukong, segurando o bastão sobre a figura prostrada.
O leão-demônio ficou em silêncio por um momento. Depois, com algo que era próximo a alívio — o alívio de quem finalmente pode parar de fingir —, disse: "Sou o Leão Azul, montaria do Bodhisattva Mañjushri no Monte Wutai. Desci ao mundo por determinação do Bodhisattva, para testar o reino de Wuji, cujo rei havia maltratado um monge budista três anos antes do incidente do poço — isso foi a causa karma. A punição foi proporcional."
Sun Wukong recolheu o bastão. Havia uma lógica naquilo que, quanto mais pensava, menos conseguia discutir — não porque concordasse com todos os métodos, mas porque o universo tinha seus mecanismos de equilíbrio, e esses mecanismos raramente pediam aprovação prévia.
"Volta ao teu Bodhisattva," disse Sun Wukong. "Já serviste o tempo que devia servir."
O Leão Azul fez uma reverência — surpreendentemente formal, para um ser que havia estado num trono por três anos — e desapareceu numa nuvem de névoa azul que subiu pelo teto do salão e se dissipou na direção do Monte Wutai.
O rei de Wuji entrou pelo portão principal do palácio na hora em que a névoa azul desaparecia do salão de audiências.
O Príncipe Yang correu para ele antes que qualquer ministro pudesse formular qualquer protocolo. Não porque fosse uma criança sem cerimônia — era, de fato, muito mais formal do que a maioria das crianças —, mas porque havia três anos de conhecimento de que aquilo que estava no trono não era seu pai, e esse conhecimento havia acumulado um peso que nenhuma criança de seis anos deveria ter carregado sozinha.
O rei ajoelhou-se no chão de jade do salão — húmido ainda com as roupas do poço, embora os serventes já tivessem trazido vestes secas que ele havia recusado com a prioridade de quem tem coisas mais urgentes — e segurou seu filho com a força específica dos pais que percebem que quase perderam algo que não têm substituto.
Tang Sanzang ficou de lado, com as mãos unidas e a expressão de quem está em paz com sua posição na história que está vendo.
Sun Wukong apoiou-se no bastão reduzido ao tamanho de cajado e olhou para a cena com aquela mistura característica de satisfação profissional e algo mais próximo a ternura — que ele não teria chamado de ternura, se alguém lhe perguntasse, mas que era reconhecível a qualquer observador externo como exatamente isso.
Havia um rei no trono que era o trono certo. Havia um filho nos braços do pai certo. E havia uma criança de seis anos segurando um pente dourado com uma das mãos e seu pai com a outra, com os olhos finalmente fechados na paz de quem pode descansar de um peso que não deveria ter sido seu.
Isso era suficiente.
A caravana de Tang Sanzang ficou em Wuji por três dias, recebendo os cuidados que um rei grato podia oferecer, e partiu na manhã do quarto dia com os passaportes selados, as sacolas providas e o caminho a oeste ainda longo à frente.
O Príncipe Yang ficou no portão do palácio até que a figura do peregrino e seus discípulos desaparecessem no horizonte. Então voltou para dentro e colocou o pente dourado no lugar mais seguro que conhecia — a caixa de laca vermelha que ficava ao lado de sua cama, que ele mesmo trancava todas as noites.
Não porque precisasse do pente. Mas porque havia certas coisas que mereciam ser guardadas.