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Capítulo 37: O Rei Fantasma e a Missão Secreta

O fantasma do Rei de Wuji aparece em sonho a Tang Sanzang. Sun Wukong desce ao palácio do Rei Dragão para buscar um elixir que ressuscitará o monarca assassinado.

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Era a terceira hora da noite quando o vento começou.

Tang Sanzang estava sentado no salão de meditação do Templo da Floresta de Bambu, em Wuji, com as escrituras abertas sobre o suporte de leitura e a lamparina derramando sua luz tênue sobre as páginas de seda. Havia lido o Sutra do Pavão Real duas vezes e as Lamentações do Liang uma vez, e agora a fadiga da viagem pesava sobre seus ombros como um manto úmido. Fechou o sutra com o cuidado de quem trata objetos sagrados, arrumou o volume na bolsa de seda e estava se erguendo para ir dormir quando o vento chegou.

Não era um vento comum. Era aquele tipo de vento que não perturba as flamas mas apaga as luzes — que não move as folhas mas agita algo mais fundo, no interior dos seres. Tang Sanzang ficou parado, com a lanterna de papel balançando sem motivo visível, e sentiu os pêlos de seus braços se eriçarem debaixo das vestes de monge.

A porta do salão abriu-se devagar.

Na soleira havia um homem.

Era alto, vestido com as roupas de estado de um soberano: coroa de ouro, cinto de jade verde, túnica cor de açafrão com dragões bordados em fio dourado, sandálias de nuvens com bordas de seda vermelha. Mas havia algo nos contornos daquele homem que não era exatamente sólido — como uma figura vista através de água levemente agitada, presente e imprecisa ao mesmo tempo. E seus olhos, quando encontraram os de Tang Sanzang, tinham a qualidade específica dos olhos dos mortos: a clareza de quem já não tem nada a perder.

"Mestre," disse a figura, com uma voz que parecia vir de dentro da pedra e da madeira ao mesmo tempo, "não tenhas medo de mim."

Tang Sanzang engoliu em seco. Suas mãos encontraram o rosário de sândalo quase sem que ele percebesse. "Quem és? Não és deste mundo."

"Não sou," concordou o espectro, com a tristeza serena dos que já aceitaram o que são. "Sou o Rei de Wuji — ou fui, até três anos atrás." Pausou. "Hoje, meu corpo está no fundo de um poço no jardim imperial, coberto por uma pedra e sombreado por uma bananeira. E no trono que deveria ser meu, senta-se um demônio com meu rosto."

O relato que se seguiu durou até a madrugada.

O Rei de Wuji contou como, cinco anos antes, uma seca devastadora havia assolado o reino. Três anos de preces e sacrifícios não haviam trazido chuva. E então chegara um monge taoísta da Montanha Zhongnan — um ser de aparência nobre e poderes extraordinários que havia feito chover com uma única cerimônia, salvando o reino da fome. Em gratidão, o rei o tratara como irmão, dividindo com ele refeições e aposentos por dois anos.

"Foi numa tarde de primavera," disse o espectro, e sua voz teve a textura de quem revive algo que não consegue esquecer. "Estávamos no jardim imperial, caminhando entre as ameixeiras em flor. Chegamos ao poço do jardim. Ele disse que havia algo brilhante no fundo — pediu que eu me inclinasse para ver. E então empurrou-me."

A pedra tampou o poço. A bananeira foi plantada. E o demônio — que era um leão-neblina enviado pelo Bodhisattva Mañjushri, embora isso nenhum dos dois soubesse ainda — assumiu a forma do rei e governou Wuji pelos três anos seguintes, sem que nenhum ministro, nenhuma concubina, nenhum filho pudesse perceber a diferença.

"Porque o demônio tem meu rosto com perfeição que eu mesmo não teria," disse o espectro com aquela amargura específica de quem foi substituído de forma tão eficiente que sua ausência passou despercebida. "Minha voz, meu andar, meus hábitos, minha caligrafia. Meus filhos chamam-no de pai. Minha esposa compartilha sua cama."

Tang Sanzang ficou em silêncio por um tempo. Havia naquela história uma crueldade de uma qualidade particular — não a crueldade da violência direta, mas a crueldade da usurpação total, que não deixa rastro, que não deixa testemunha, que transforma a própria identidade da vítima em instrumento de sua invisibilidade.

"O que posso fazer?" perguntou o monge finalmente. "Sou um simples peregrino, sem poder sobre os vivos nem sobre os mortos."

O espectro sorriu — e era um sorriso que Tang Sanzang guardaria por anos, porque havia nele uma confiança que parecia baseada em conhecimento real e não em esperança. "Seu discípulo Sun Wukong pode fazer o que os mortais não podem. Se ele for ao Palácio do Rei Dragão do Mar Oriental e pedir o elixir da ressurreição — aquele que foi destilado das águas primordiais e guarda em si a força da vida original —, poderá restaurar meu corpo. O frio do poço preservou minha carne por três anos. O elixir fará o resto."

Havia outra coisa. O espectro retirou de suas vestes um objeto e o colocou sobre a mesa de leitura: um pente dourado, do tipo que as concubinas usavam para segurar o cabelo. "Meu filho mais jovem — o Príncipe Yang — é a única pessoa no palácio capaz de reconhecer a diferença entre mim e o impostor. Ele ainda é criança, e os olhos das crianças veem o que os adultos treinaram a não ver. Darei a Sun Wukong este pente. Quando meu filho o reconhecer, saberá que a mensagem é verdadeira."

A lamparina piscou. O vento parou. Quando Tang Sanzang ergueu os olhos, estava sozinho no salão, com o pente dourado sobre a mesa e os dedos ainda envoltos no rosário.


Sun Wukong ouviu o relato do mestre com a atenção focada que reservava para problemas que tinham solução — porque havia problemas para os quais não havia solução, e esses ele tratava de outra maneira. Este, porém, tinha. Era um problema com componentes identificáveis: um corpo no fundo de um poço, um elixir necessário para restaurá-lo, um demônio com rosto alheio ocupando um trono.

"Simples," disse ele, e o fez parecer assim — não por minimizar a dificuldade, mas porque havia genuína confiança em sua capacidade de resolver o que era solúvel.

Transformou-se num corvo negro de asas largas e voou até o Mar Oriental em tempo de uma respiração. O Palácio de Cristal de Ao Guang estava tal como o recordava — as torres de coral, as lanternas de água-viva, os serventes peixe e lagosta enfileirados nos corredores subaquáticos. O Rei Dragão o recebeu com a familiaridade um tanto cautelosa que havia desenvolvido desde a última vez que Sun Wukong havia aparecido pedindo armas.

"O elixir da ressurreição," disse Sun Wukong, com a diretividade de quem não veio para conversa longa.

O Rei Dragão nem tentou fingir que não sabia do que se tratava. Mandou buscar o frasco — um recipiente de jade verde não maior que uma palma de mão, selado com cera vermelha e contendo um líquido que parecia água mas que refletia a luz de um jeito que água comum não faz. "Deve ser administrado à carne intacta," disse o Rei Dragão. "Se o corpo se decompôs, não haverá utilidade. Mas se foi preservado pelo frio..."

"Estou a par dos detalhes," disse Sun Wukong, embolsando o frasco com a eficiência de quem foi buscar uma coisa e a tem. "Obrigado."

Voltou a Wuji em segundos.


A questão seguinte era o Príncipe Yang.

Sun Wukong transformou-se num bonequinho de jade — daqueles que os mercadores vendiam nos festivais — e esperou que a ocasião certa aparecesse. Apareceu na tarde seguinte, quando o jovem príncipe brincava nos jardins do palácio acompanhado de seu preceptor. O preceptor adormentou-se momentaneamente sob a sombra de um salgueiro, como preceptores fazem quando a tarde é quente, e Sun Wukong deslizou pela janela, pousou na mesa do príncipe e ficou parado, brilhando.

O príncipe Yang tinha seis anos e os olhos que as crianças têm quando ainda não aprenderam a não ver. Apanhou o bonequinho e, ao tocá-lo, sentiu algo — uma vibração que não era a vibração da pedra mas a vibração de algo vivo tentando comunicar-se através da forma de algo inanimado.

"Quem és?" perguntou o príncipe, no tom direto que as crianças usam quando perguntam coisas que os adultos não perguntariam.

Sun Wukong revelou-se. Não a forma de macaco — isso poderia assustar a criança — mas uma forma humana pequena, com o brilho nos olhos que não pertencia inteiramente a este mundo.

"Conheço teu pai real," disse. "Não aquele que está no trono."

O príncipe ficou muito quieto. Havia naquele silêncio uma qualidade que confirmou o que o espectro havia dito: a criança sabia. Não com palavras, mas com aquele conhecimento que antecede as palavras, que vive no corpo antes de encontrar expressão na mente.

"O homem no trono tem os olhos errados," disse o príncipe finalmente, com uma precisão que era estranha numa criança tão jovem mas fazia todo sentido. "Não olha para mim quando fala. Olha para além de mim. Meu pai sempre olhava para mim."

Sun Wukong colocou o pente dourado na pequena mão do príncipe. "Teu pai pediu-me para te dar isto. E pediu-me para te dizer: quando chegar a hora, não duvides do que os teus olhos te disseram sempre."

O príncipe fechou os dedos em volta do pente.


A recuperação do corpo foi um trabalho de madrugada.

Sun Wukong localizou o poço — estava exatamente onde o espectro havia descrito, com a bananeira crescida em cima da pedra tampão. Removeu a pedra sem esforço, desceu pelo poço escuro com a lamparina de pelo de sua própria cauda iluminando a descida, e encontrou o corpo do rei no fundo, submerso em água fria e preservado com a perfeição que apenas o frio absoluto produz: face intacta, membros firmes, a pele com aquela palidez particular dos mortos que ainda não começaram a ser consumidos.

Administrou o elixir.

Não foi um processo dramático. Não houve luz dourada nem trovão celestial. O líquido de jade entrou pela boca entreaberta do cadáver, e por alguns instantes nada aconteceu. Depois, uma respiração. Depois outra. Depois os olhos do Rei de Wuji abriram-se no fundo de um poço escuro, à meia-noite, com Sun Wukong acocorado ao lado segurando um frasco vazio.

"Estou," disse o rei, com a voz rouca dos que voltaram de muito longe, "vivo?"

"Por ora," disse Sun Wukong, com o pragmatismo que era sua forma de gentileza. "O demônio ainda está no trono. Há mais trabalho."

O rei sentou-se na água fria com a dignidade de alguém que decide, no momento em que acorda, que não vai se incomodar com as circunstâncias imediatas porque há coisas mais urgentes. "Então vamos trabalhar," disse.


O que se seguiu nas horas seguintes foi a parte mais complexa: não derrotar o demônio pela força — isso Sun Wukong poderia fazer sozinho em minutos —, mas derrotá-lo de forma que o reino inteiro compreendesse o que havia acontecido. Porque um demônio morto que parecia o rei, com toda a corte assistindo, criava um problema de versão da história que poderia durar gerações.

Era preciso fazer a verdade visível.

Sun Wukong voltou ao palácio, confrontou o demônio disfarçado, e quando o leão-neblina revelou sua forma real — enorme, azul-acinzentado, com olhos que brilhavam como brasas e uma juba que eriçava como névoa se solidificando — toda a corte viu. Os ministros viram. As concubinas viram. O Príncipe Yang, que havia pedido para estar presente com a determinação inabalável dos que sabem que têm razão, viu.

E então viu seu pai — o real, ressuscitado, com a roupa encharcada do poço mas com os olhos que sempre olhavam para ele — entrar pelo portão do palácio com Tang Sanzang ao lado.

O pente dourado que o príncipe havia guardado preso contra o peito a noite inteira foi o objeto mais desnecessário do reencontro. O reconhecimento aconteceu antes que qualquer objeto fosse necessário — no olhar, na postura, naquele jeito específico que um pai tem de ver um filho que nenhum demônio, por mais hábil que seja, consegue aprender completamente.

Havia uma justiça naquilo que Sun Wukong encontrou satisfatória de uma forma que nem sempre conseguia articular: não a justiça abstrata dos princípios, mas a justiça concreta de um filho reconhecendo seu pai e um rei recuperando seu trono enquanto o demônio que havia pensado ser intocável descobria que o mundo tem uma tendência persistente de restaurar o que foi deslocado.

O leão-neblina foi devolvido ao Bodhisattva Mañjushri — porque era, como se veio a saber, um ser celestial que havia descido por razões que os celestiais às vezes têm e que os mortais raramente conseguem compreender completamente. O palácio de Wuji foi devolvido ao seu legítimo rei. E Tang Sanzang, que havia dormido mal durante toda a noite por causa de um fantasma e um pente dourado, comeu uma refeição decente pela primeira vez em dias.

"Há algo que a senhora gostaria de saber," disse Sun Wukong ao Rei de Wuji, enquanto a corte se reorganizava em torno da realidade restaurada, "sobre as circunstâncias da sua preservação."

O rei olhou para ele.

"O frio do poço não foi acidente," disse Sun Wukong. "Alguém se certificou de que a temperatura permanecesse exata. Alguém que conhece a diferença entre morte e espera."

O rei ficou quieto por um tempo. Depois disse: "O universo tem seus guardiões."

"Tem," concordou Sun Wukong, e havia na sua voz algo que não era exatamente humildade — era mais o reconhecimento de alguém que às vezes é o guardião e às vezes é o guardado, e que aprendeu que a distinção não é sempre tão fixa quanto parece.

A caravana partiu de Wuji na manhã seguinte, com os víveres que o rei generoso proveu e com o caminho a oeste se abrindo à frente como sempre havia se aberto — longo, imprevisível, e cheio de demônios esperando para conhecer o fim da própria história.