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Capítulo 36: O Macaco do Coração Aquieta Todas as Afeições; Fender o Falso Caminho Revela a Lua Verdadeira

Os peregrinos chegam ao Templo Baolinsi, onde os monges se recusam a hospedá-los. Sun Wukong intimida o superior com ameaças e a comunidade os recebe com reverência. Tang Sanzang contempla a lua de outono e recita um poema saudoso; Sun Wukong explica o significado alquímico da lua; Sha Wujing acrescenta o ensinamento do fogo e da água; e Zhu Bajie encerra a discussão com uma piada sobre sua própria barriga.

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A montanha que apareceu à frente dos peregrinos naquela tarde era do tipo que Tang Sanzang havia aprendido a reconhecer com um aperto silencioso no peito — alta, íngreme, com sombras que se acumulavam entre as pedras como água em poças e a qualidade de silêncio que não era calma mas espera.

— Mais uma montanha — disse o mestre, detendo o cavalo por um momento.

— Sempre mais uma montanha — disse Sun Wukong. — É o oeste.

— Já faz quatro ou cinco anos desde que saímos de Chang'an — disse Tang Sanzang. — E você ainda diz que estamos apenas na sala de entrada.

— Estamos na sala de entrada.

— Como pode existir uma sala de entrada tão grande?

Sun Wukong apontou para o céu azul que se estendia de horizonte a horizonte.

— Se usarmos o céu como telhado, o sol e a lua como janelas, e as quatro montanhas cardeais como colunas, o mundo inteiro é apenas um pátio. Nós estamos cruzando o pátio.

Zhu Bajie, que havia escutado essa troca com a expressão de alguém tentando calcular o volume de algo que não tem forma, disse:

— Isso é muito grande para um pátio. Deveríamos voltar para casa.

— Continue andando — disse Sun Wukong.

Continuaram.


A luz do dia havia quase terminado quando viram as torres.

Surgiam das sombras da encosta leste como um argumento contra o abandono — telhados sobrepostos em três ou quatro camadas, uma pagode de sete andares, janelas iluminadas com o brilho suave de lampião. Era claramente um templo, construído com o cuidado e a permanência de algo que existia havia muitas gerações.

Tang Sanzang ficou aliviado de um modo que não tentou disfarçar.

— Podemos pedir abrigo ali para esta noite.

Sun Wukong subiu ao ar por um momento e voltou com a informação:

— É o Templo Baolinsi, construído por decreto imperial. Grande, bem mantido, com uns quinhentos monges. — Uma pausa. — O mestre deve ir primeiro. Nossa aparência assusta as pessoas.

Tang Sanzang desmontou, guardou o cajado, ajustou o manto de vinte e cinco painéis e entrou pelo portal com a compostura de alguém que havia percorrido metade do mundo e aprendeu a não desperdiçar energia em cerimônias desnecessárias.

O interior do templo era esplêndido — estátuas do tamanho de casas, incenso em tiras de névoa azulada, o reflexo dourado dos altares no piso de pedra polida. Tang Sanzang passou pelo Salão da Grande Virtude, inclinou-se diante dos Quatro Reis Celestes, e chegou ao jardim traseiro onde encontrou um servo do templo varrendo o pátio.

O servo o olhou com a surpresa de alguém que não esperava visita e chamou o superior.

O superior do Templo Baolinsi era um homem de meia-idade com a postura erguida de quem havia passado décadas convencido de sua própria importância. Saiu usando as melhores vestes, viu Tang Sanzang — um monge estrangeiro de aparência simples, sandálias desgastadas pela estrada — e a expressão de boas-vindas morreu no rosto antes de terminar de se formar.

— Monge — disse ele com a frieza educada de um porteiro de clube privado —, de onde vem?

— Da Grande Tang no leste — disse Tang Sanzang. — Vou ao oeste buscar as escrituras sagradas. A noite está chegando e peço humildemente abrigo para esta noite.

O superior olhou para ele por um longo momento.

— Infelizmente não é possível — disse ele. — Temos regras sobre receber viajantes desconhecidos. Há uma estalagem a quatro ou cinco li daqui, na estrada principal. Recomendo que procure lá.

Tang Sanzang ficou em silêncio por um momento.

— Os antigos dizem que todo templo e monastério são hospedarias para os que percorrem o caminho espiritual — disse ele com calma. — Que ao chegar ao portal de um templo, o viajante tem direito a três medidas de arroz.

— Os antigos dizem muitas coisas — disse o superior. — Recentemente tivemos problemas com monges itinerantes que chegaram "por uma noite" e ficaram oito anos, fazendo estragos em tudo. Prefiro não repetir a experiência.

Tang Sanzang saiu do templo com os olhos úmidos mas sem chorar — havia aprendido, ao longo de anos de estrada, que a dignidade era uma das poucas coisas que ninguém podia tomar sem sua permissão. Encontrou os três discípulos no portão.

Sun Wukong olhou para o rosto do mestre e leu tudo que havia acontecido.

— Não precisa explicar — disse ele. — Espere aqui.


O que aconteceu a seguir foi testemunhado por um servo do templo que depois, segundo disseram, nunca mais conseguiu dormir com a mesma tranquilidade.

Sun Wukong entrou pelo portão, atravessou o pátio, subiu os degraus do Salão da Grande Virtude e parou diante das três estátuas douradas de Buda com as mãos nos quadris.

— Vocês são budas de barro dourado — disse ele às estátuas com razoável civilidade. — Por dentro, talvez haja iluminação genuína; por fora, são argila e tinta. Estou protegendo o monge Tang Sanzang, enviado pelo Imperador Tang para buscar as escrituras verdadeiras. Pedimos abrigo por uma noite e o superior nos recusou. Ou o templo nos recebe com hospitalidade adequada, ou eu derreto este ouro e verifico o que há por baixo.

O servo do templo que havia entrado para acender incenso ouviu isso, viu a aparência de Sun Wukong — olhos dourados, rosto coberto de pelos, dentes como facas —, caiu uma vez, levantou-se, caiu de novo, e saiu rasteando em direção aos aposentos do superior.

O superior saiu para investigar e encontrou Sun Wukong no pátio com o bastão transformado num poste do tamanho de um tronco de árvore, espetado verticalmente no centro do jardim.

— Tem quinhentos monges neste templo — disse Sun Wukong. — Se não querem que eu arrepie nenhum, mandem todos os quinhentos receber meu mestre no portão. Com as vestes cerimoniais.

O superior calculou mentalmente a alternativa e mandou o servo chamar os sinos.

Quinze minutos depois, quinhentos monges do Templo Baolinsi estavam enfileirados no portão com vestes de cerimônia — alguns com mantos de seda, alguns com vestes simples, os mais pobres com tiras de tecido atadas criativamente sobre roupas comuns — fazendo uma reverência coletiva na direção de Tang Sanzang.

Tang Sanzang olhou para a cena com a expressão de alguém que não sabe se deve ficar envergonhado ou grato.

— Entrem, por favor — disse ele para os quinhentos monges. — Não era necessária toda essa cerimônia.

— Para o seu discípulo era — disse o superior, que havia recalibrado sua estimativa de quem estava diante dele.


Instalaram-se nos aposentos de hóspedes — quartos limpos, camas de cipó trançado, lampadas de papel com luz suficiente para ler. Os quinhentos monges serviram o jantar vegetariano com a atenção excessiva de anfitriões que tentam compensar um primeiro encontro ruim.

Depois da refeição, Tang Sanzang saiu para o pequeno pátio nos fundos dos aposentos.

A lua estava cheia.

Não havia metáfora adequada para a lua naquela noite — ou havia demasiadas. Era simplesmente redonda e branca no centro do céu, e a luz que caía sobre as pedras do pátio tinha aquela qualidade particular de claridade lunar que não revela cores mas torna cada contorno mais preciso.

Tang Sanzang ficou parado olhando por um tempo longo.

Os três discípulos saíram e ficaram ao seu lado.

O mestre começou a recitar, em voz baixa, como alguém que não tem certeza de estar falando para si mesmo ou para os outros:

— Espelho de jade suspenso no espaço vazio, montanhas e rios refletindo sua imagem completa. Torres de cristal banhadas em luz fria, um espelho de gelo girando no céu de safira. Toda noite desta estação traz a mesma claridade, mas esta noite do ano é a mais luminosa de todas. Como uma torta de geada saída do mar profundo, como uma roda de gelo pendurada no céu azul. O hóspede solitário na janela fria se sente melancólico; o velho da aldeia na estalagem de campo dorme. Esta luz chegou ao jardim do palácio imperial e iluminou a última preparação noturna. O poeta Yuliang escreveu sobre isso na história de Jin, o poeta Yuanhong não dormiu navegando no rio. A luz flutua sobre o cálice sem força para esquentar, refletindo com claridade no jardim onde os imortais descansam. Em cada janela entoam poemas brancos como neve, em cada pátio tocam instrumentos frios como cordas de gelo. Esta noite venho ao templo da montanha para contemplar a lua — quando voltarei ao lar familiar?

Silêncio.

Sun Wukong olhou para o mestre por um momento. Havia algo no poema — a última linha especialmente — que exigia resposta, não por educação mas porque o silêncio depois dele parecia incompleto.

Mestre — disse ele —, você sabe a aparência da lua. Mas sabe o seu significado?

Tang Sanzang olhou para ele.

— Ilumina o caminho espiritual?

— É a imagem da prática — disse Sun Wukong. — No trigésimo dia do mês, a lua some completamente — todo o ouro da alma yang dispersou-se, toda a água da alma yin preencheu o disco. Por isso o trigésimo dia é chamado de hui, o escurecimento. Nesse momento, a lua encontra o sol e concebe. No terceiro dia, o primeiro yang aparece — uma fina lasca de luz. No oitavo dia, dois yangs — a lua está metade cheia, metade escura, equilibrada como uma balança: o primeiro quarto. No décimo quinto dia — esta noite — os três yangs completam-se e a lua está plena: o plenilúnio. No décimo sexto dia, o primeiro yin nasce; no vigésimo segundo, dois yins — a lua está metade vazia outra vez: o último quarto. No trigésimo dia, os três yins completam-se e o ciclo recomeça.

Fez uma pausa.

— Esta é a imagem da prática alquímica. Se conseguirmos nutrir os dezesseis — dois vezes oito, o quadrado da prática — e o noveno ciclo completar-se nove vezes, encontrar o Buda será fácil, e retornar ao lar também será fácil.

Tang Sanzang ficou em silêncio absorvendo isso.

Sha Wujing, que havia escutado do canto do pátio, avançou um passo.

— O que o irmão mais velho disse é verdadeiro — disse ele com a voz tranquila de alguém que fala raramente mas quando fala, tem algo a dizer. — Mas falta uma parte: a lua está no céu e a água está no rio — e ambas são a mesma luz. O fogo e a água parecem opostos, mas têm uma relação necessária. Quando as três famílias se encontram sem conflito — o coração, a mente e o corpo; o fogo, a água e a terra — então a prática está completa. Como diz o ensinamento: A água está no rio comprido e a lua está no céu — a mesma claridade em dois lugares.

Tang Sanzang ergueu os olhos com a expressão de alguém que acabou de encontrar algo que havia estado procurando sem saber.

— Obrigado — disse ele.

Zhu Bajie, que havia esperado pacientemente por sua vez de falar, avançou e agarrou o braço do mestre com a firmeza de alguém que tem uma contribuição importante a fazer.

Mestre — disse ele —, não ouça mais nada desses dois. Veja o que digo sobre a lua: Falta um pouco e logo está cheia de novo — como eu, que nunca fui completo. Na hora do jantar reclamam que minha barriga é grande; quando pego a tigela, dizem que tenho babas. Todos esses outros acumularam boas práticas e por isso têm fortuna; eu, idiota, acumulei meu karma e é isso que tenho. Digo que você ainda vai completar três ciclos de penitências antes de retornar ao céu.

Silêncio.

Tang Sanzang olhou para Zhu Bajie por um momento.

— Isso foi... — começou.

— Profundo — disse Zhu Bajie esperançosamente.

— Não era bem a palavra que eu tinha em mente.

— Também sou gordo — disse Zhu Bajie com equanimidade. — Não posso ser profundo e gordo ao mesmo tempo. A natureza não permite as duas coisas.

Tang Sanzang deu meia-volta e entrou nos aposentos.

— Vão dormir, todos vocês. Vou recitar as escrituras mais um pouco antes de dormir.

Mestre — disse Sun Wukong —, você sabe essas escrituras de cor desde criança. Por que recitá-las novamente?

— Porque uma coisa que não é praticada esquece. — Tang Sanzang acendeu o lampião de papel e abriu o rolo. — E porque o som das palavras, nesta noite, neste lugar, é suficiente para me lembrar por que estou fazendo esta viagem.

Os três discípulos foram para suas camas de cipó. Zhu Bajie adormeceu em menos de dois minutos, com a respiração regular de alguém que não tem conflito entre o que pensa e o que sente. Sha Wujing ficou imóvel com os olhos abertos, olhando para o teto. Sun Wukong sentou-se com as pernas cruzadas e ficou escutando o som suave da voz do mestre recitando palavras antigas num templo que havia quase se recusado a abrir as portas para eles.

A lua continuou a sua trajetória pelo céu, indiferente e precisa, cumprindo o ciclo que havia cumprido antes de qualquer um deles nascer e continuaria cumprindo depois que todos terminassem suas jornadas.

Era suficiente, por enquanto.