Capítulo 31: Zhu Bajie Provoca o Rei dos Macacos; Sun Wukong Usa Astúcia para Derrotar o Demônio
Zhu Bajie vai ao Monte das Flores e Frutos buscar Sun Wukong, que foi expulso. Após provocar o Rei dos Macacos com insultos do demônio do manto amarelo, Sun Wukong retorna e usa estratégia para resgatar Tang Sanzang — disfarçando-se da princesa cativa para atrair e derrotar o monstro.
O Monte das Flores e Frutos estava mais verde do que Zhu Bajie esperava.
Havia ouvido histórias sobre a destruição que os exércitos celestiais haviam causado ali — o incêndio, as pedras carbonizadas, os macacos dispersados. Mas quando desceu das nuvens na encosta sul, o que encontrou era uma montanha viva: pinheiros jovens em fileiras ordenadas, bambus acabados de plantar, uma cascata que cantava entre pedras lavadas. Sun Wukong havia reconstruído sua terra com a mesma energia que usava para tudo.
No centro de um prado aberto, o Rei dos Macacos estava sentado numa pedra alta como um trono improvisado, com o Bastão de Ouro atravessado nos joelhos e mais de mil macacos espalhados ao redor em formação reverente, gritando "Dez mil anos, Grão Sábio Avô!" com uma dedicação que faria inveja a qualquer corte celestial.
Zhu Bajie parou na borda da clareira e observou por um momento. Havia algo na cena que o tocou mais do que esperava — a facilidade com que Sun Wukong governava ali, a alegria espontânea dos macacos, a maneira como o monte respondia à presença do seu rei. É isso que ele abriu mão, pensou o porco-monge. Por nós. Pelo mestre que o expulsou.
Não que fosse admitir isso em voz alta.
Começou a se esgueirar entre os macacos tentando parecer descontraído, misturando-se à multidão na esperança de alcançar Sun Wukong sem drama. Não funcionou.
Sun Wukong olhou direto para ele de cima da pedra.
— Existe um intruso nessa fileira — disse com voz tranquila. — Traga-o.
Um turbilhão de macacos pequenos desceu sobre Zhu Bajie como uma maré. Ele foi arrastado para frente, empurrado, segurado por dezenas de mãos minúsculas e depositado diante da pedra-trono com a batina rasgada em dois lugares.
— Hei — disse Zhu Bajie com o que tentava ser dignidade. — Sou eu.
Sun Wukong inclinou a cabeça com uma expressão de interesse moderado.
— Eu vejo que é você. Por que está se misturando aos meus súditos como se fosse um macaco? E por que estava me xingando enquanto descia a encosta?
— Não estava xingando —
— Meu ouvido esquerdo, quando puxado para cima, ouve tudo que se diz nas Trinta e Três Esferas Celestiais. Meu ouvido direito, quando puxado para baixo, ouve os contadores do Rei dos Infernos calculando suas contas. Um porco-monge xingando a trezentos passos de distância é praticamente uma conversa de quarto para mim.
Zhu Bajie fechou os olhos por um momento. Depois os abriu.
— Muito bem. Mestre me mandou buscá-lo. Ele sente saudades.
Sun Wukong ficou em silêncio por um tempo considerável.
— O mestre me mandou embora com um documento escrito. Jurou por três tribos de ancestrais que nunca mais queria me ver. Agora sente saudades?
— As pessoas mudam de ideia.
— As pessoas sim. Tang Sanzang tem a consistência de uma rocha de granito quando se trata de suas decisões. — Sun Wukong desceu da pedra e caminhou devagar em direção a Zhu Bajie. — O que realmente aconteceu?
E então Zhu Bajie, porque não havia mais como evitar, contou tudo. O demônio do manto amarelo. A Princesa Cem Flores. A carta. O rei de Baoxiang. A batalha perdida. Sha Wujing capturado. O mestre transformado em tigre numa gaiola de ferro. O cavalo-dragão com a perna machucada.
Quando terminou, Sun Wukong ficou olhando para ele em silêncio.
— Por que não me disse isso imediatamente?
— Porque achei que você não viria se dissesse logo.
— Certamente não viria se você chegasse rindo e dizendo "adivinhe quem precisa de ajuda". Mas há outras abordagens entre a mentira e a fanfarronice.
— Também há mais uma coisa — disse Zhu Bajie, olhando para os próprios pés. — O demônio disse algumas coisas sobre você. Quando eu mencionei seu nome lá na caverna, ele disse que se você viesse, ia esfolar sua pele, arrancar seus tendões, roer seus ossos e fervê-lo no óleo.
O efeito foi imediato. Sun Wukong agarrou o Bastão de Ouro com uma mão e Zhu Bajie com a outra.
— Que demônio disse isso de mim?
— O demônio do manto amarelo da Caverna da Lua Ondulante, no Monte da Tigela.
— Vamos lá agora.
Antes de partirem, Sun Wukong parou às margens do oceano e mergulhou nas águas azuis por alguns minutos. Zhu Bajie, impaciente, gritou lá de cima:
— Por que está tomando banho agora? Há um demônio esperando!
— Estive aqui no monte por alguns dias. Peguei o cheiro da montanha, de demônio, de velho ressentimento — disse Sun Wukong, emergindo e sacudindo a água dos pelos. — O mestre é muito sensível a cheiros. Não quero que fique constrangido quando me ver.
Zhu Bajie ficou em silêncio. Era a coisa mais simples e mais tocante que Sun Wukong havia dito em muito tempo, e precisamente por isso Zhu Bajie não comentou.
Voaram para o oeste em silêncio.
Na Caverna da Lua Ondulante, a Princesa Cem Flores estava sentada no interior quando Sun Wukong chegou disfarçado de macaco-explorador e a encontrou. Ela estava pálida, com os olhos inchados de tanto chorar.
— Você é o Grande Sábio? — perguntou ela olhando para a figura pequena e ágil.
— Em pessoa. Seu irmão Bajie me contou sobre a carta. Você salvou meu mestre, então agora vou salvá-la. — Sun Wukong sentou-se numa pedra próxima. — Mas preciso da sua ajuda por mais um pouco. Você pode se esconder enquanto eu assumo sua aparência?
A princesa olhou para ele por um longo momento.
— Treze anos com aquele monstro — disse ela baixinho. — Sempre soube que um dia precisaria de coragem para escolher meu caminho. Hoje é esse dia.
Escondeu-se num recanto escuro da caverna. Sun Wukong fechou os olhos por um instante — uma concentração que não durava mais do que o tempo de um piscar — e quando os abriu, era a Princesa Cem Flores: o mesmo rosto, os mesmos trajes de seda, a mesma postura levemente curvada de quem carrega um peso que ninguém mais vê.
Sentou-se junto à janela e esperou.
O demônio do manto amarelo retornou à caverna com a raiva de quem recebeu notícias ruins e está procurando alguém com quem descontá-la. Zhu Bajie e Sha Wujing haviam jogado seus filhos das nuvens ao chão do palácio de Baoxiang — e os filhos não haviam sobrevivido.
Entrou na câmara principal chamando pela princesa, e a encontrou sentada junto à janela com os olhos baixos.
— Meus filhos — começou.
— Eu soube — disse Sun Wukong com a voz da princesa, cuidadosamente modulada para soar exatamente certa mistura de tristeza e resignação que uma mulher de treze anos de cativeiro produziria naturalmente. — Aquele discípulo de cabeça raspada os levou para o palácio. Eu tentei impedi-lo, mas você não estava aqui —
— Esse macaco maldito vai pagar —
— Você pode me abraçar primeiro? — disse Sun Wukong-como-princesa. — Estou com muito medo.
O demônio avançou.
Sun Wukong esperou até ter os braços do monstro ao redor do que ele pensava ser a princesa — e então voltou à sua própria forma em meio ao abraço, o que produziu um momento de confusão tão completa que o demônio ficou parado por dois segundos tentando processar o que tinha entre os braços.
Dois segundos eram mais do que suficientes para Sun Wukong.
O Bastão de Ouro saiu de trás da orelha e expandiu para o tamanho de uma trave de madeira em menos de um segundo. A batalha que se seguiu varreu a caverna, depois o pátio, depois o ar acima da montanha, onde Zhu Bajie e Sha Wujing estavam esperando.
Três contra um. O demônio era forte e rápido, mas Sun Wukong tinha aquela qualidade peculiar em combate — não simplesmente a força ou a velocidade, mas a capacidade de estar exatamente onde o oponente não esperava, sempre, como se o espaço ao redor dele obedecesse a regras diferentes das que governam os outros corpos.
Em quarenta rodadas, o demônio do manto amarelo caiu.
Sun Wukong olhou para o corpo por um momento. Depois transformou-se em besouro e voou para dentro do palácio de Baoxiang, onde encontrou o mestre na gaiola de ferro ainda em forma de tigre.
O feitiço era simples de desfazer quando se sabia como: uma gota de água sagrada no topo da cabeça, as palavras certas pronunciadas em sequência. Tang Sanzang voltou à sua forma humana, ajoelhou-se no fundo da gaiola e ficou olhando para as mãos por um longo momento, como se precisasse ter certeza de que eram realmente suas.
Quando levantou os olhos e viu Sun Wukong, ficou em silêncio.
Sun Wukong também ficou em silêncio.
Não havia desculpa pedida e nenhuma aceita. Não havia nenhum discurso sobre quem estava certo ou errado. Havia simplesmente o mestre e o discípulo, e o espaço entre eles que era menor do que havia sido na última vez que se viram.
— Você voltou — disse Tang Sanzang por fim.
— Alguém precisava — respondeu Sun Wukong.
O rei de Baoxiang, que havia assistido a tudo com a boca aberta, ordenou um banquete de três dias. A Princesa Cem Flores foi resgatada da caverna pelos macacos de Sun Wukong e devolvida ao pai com uma cerimônia que fez chorar metade da corte. O cavalinho branco foi examinado por um médico do palácio e sua perna tratada com unguentos de jade.
Na terceira noite, quando a caravana da peregrinação finalmente partiu para o oeste sob a lua cheia, Tang Sanzang estava no cavalo e Sun Wukong caminhava à sua frente com o bastão no ombro — exatamente onde havia estado antes, como se nada tivesse mudado. Mas havia algo diferente na maneira como o mestre olhava para as costas do discípulo: com menos certeza de si mesmo, e talvez com mais respeito.
Zhu Bajie marchava na retaguarda com o rastelo no ombro, murmurando para Sha Wujing:
— Eu sabia que ele viria.
— Você o enganou para vir — disse Sha Wujing.
— Isso é irrelevante para o resultado.