Capítulo 30: O Mal Invade a Lei Justa; O Cavalo da Mente Recorda o Macaco do Coração
O demônio do manto amarelo mantém Tang Sanzang preso em forma de tigre no palácio de Baoxiang. O cavalo branco, revelando sua natureza de dragão, tenta resgatar o mestre mas é derrotado, e Zhu Bajie parte para buscar Sun Wukong no Monte das Flores e Frutos.
A gaiola de ferro ficava numa câmara lateral do tesouro real, entre prateleiras de seda enrolada e caixas de laca vermelha. Era uma câmara para guardar coisas preciosas — e agora guardava um tigre listrado que olhava pelas grades com olhos que não eram olhos de tigre.
Tang Sanzang estava acordado. Seu espírito estava intacto dentro da forma animal que o demônio lhe havia imposto — ele sentia tudo, pensava em tudo, entendia tudo — mas seus lábios eram lábios de tigre e não conseguiam formar as palavras humanas que seu coração gritava. As garras arranhavam o assoalho de pedra com um som como de escrita num idioma que ninguém ali poderia ler. A cauda batia involuntariamente, golpeando os barrotes da gaiola com uma regularidade que o monge não podia controlar e que o envergonhava de uma forma que o sofrimento físico não envergonharia. Era a mais estranha das prisões: estar completamente presente dentro de um corpo que não era o seu, ouvir os próprios rugidos como estranhos, sentir as mandíbulas que nunca rezariam e as patas que nunca mais dobrariam em reverência.
Lá fora, no salão real, o demônio do manto amarelo ocupava os aposentos de honra com a tranquilidade de um usurpador que sabe que a farsa está funcionando. O rei o tratava como genro. As damas de honra o serviam. A música tocava — o suave dedilhado de uma lira que ecoava pelos corredores até a câmara do tesouro como uma provocação.
Sha Wujing estava preso na caverna, acorrentado. Zhu Bajie havia fugido para os arbustos depois de perder a segunda batalha — uma retirada que o próprio Bajie categorizaria mais tarde como "estratégica" e que qualquer observador externo descreveria de maneira diferente.
A situação era, objetivamente, ruim.
O cavalo branco estava nos estábulos reais quando os rumores chegaram pelos corredores do palácio — sussurros de serviçais, cochichos de guardas, o murmúrio unânime de uma corte que havia acabado de acreditar numa história impossível. O monge era o tigre. O novo genro é um herói. O rei tem um genro afinal.
O cavalo ouviu tudo com a paciência de quem sabe que os humanos acreditam no que querem acreditar e rara vez no que é verdadeiro. Ouviu a história da maneira que havia aprendido a ouvir histórias ao longo de meses de peregrinação: com atenção total a cada detalhe, descartando o que era exagero, retendo o que era fato. E os fatos eram estes: Tang Sanzang havia sido transformado. Sha Wujing havia sido capturado. Zhu Bajie estava desaparecido. E um demônio dormia no salão real enquanto comia da comida do rei.
Ele não era apenas um cavalo. Era o Príncipe Ao Lie, filho do Rei Dragão do Mar Ocidental, condenado pelo Céu por ter destruído uma pérola sagrada num momento de raiva juvenil — um momento de três segundos que havia resultado em uma punição de duração indefinida. Sua sentença havia sido pronunciada num tribunal celestial enquanto ele ainda escorria água do oceano, e havia soado assim: servo. Montaria. Bestia de carga. A humilhação mais completa que os deuses podiam conceber para um ser cuja identidade inteira havia sido construída sobre o orgulho dracônico.
Mas ao longo das semanas de peregrinação, havia acontecido algo que não fazia parte de nenhuma punição nem de nenhum cálculo celestial: ele havia começado a respeitar Tang Sanzang. Não da maneira que um servo respeita um senhor por medo. Não da maneira que um soldado respeita um general por admiração à competência. Da maneira mais difícil e mais rara: a maneira que se respeita alguém que, diante de perigo real e recorrente, escolhe consistentemente a bondade. Que recita sutras quando outros blasfemariam. Que perdoa quando outros guardariam rancor até a sepultura. Que chora pelos sofrimentos de estranhos com lágrimas que não são de performance.
E agora esse homem estava numa gaiola de ferro, preso num corpo que não era o seu, rugindo na escuridão da câmara do tesouro, enquanto um monstro bebia vinho no seu lugar.
O cavalo esperou até a meia-noite, quando os estábulos estavam silenciosos exceto pelo ruído dos outros cavalos dormindo.
Então quebrou as correntes com uma sacudida dos ombros — o ferro não havia sido forjado para prender um dragão, e o som do metal cedendo foi um gemido breve que nenhum guarda acordado estaria perto o suficiente para ouvir. Caminhou até o pátio vazio sob o céu de outubro. A transformação aconteceu em silêncio: as escamas prateadas emergiram sob o pelo branco como luar através de névoa, as garras de jade perfuraram o chão de pedra deixando marcas que os jardineiros encontrariam pela manhã sem conseguir explicar, os olhos vermelhos abriram-se no escuro como duas brasas que alguém tivesse esquecido de apagar.
Subiu para o céu noturno e olhou para o palácio iluminado abaixo. As janelas do salão real estavam acesas. A música havia parado.
O demônio estava no salão real, bebendo sozinho.
Havia enviado embora os músicos às onze da noite, quando o vinho havia começado a fazer o que o vinho faz até em demônios: suavizar as arestas da vigilância, colorir o presente com uma satisfação que tornava desnecessária qualquer companhia além da sua própria. Havia mandado as damas de honra para os seus aposentos com um aceno de mão que era quase gentil. Estava sozinho com três taças de vinho de ameixa e a satisfação tranquila de alguém que executou um plano sem uma única falha visível. A faca de guerra estava apoiada na parede, o aço brilhando à luz das velas. O candelabro de ferro — oito ou nove dezenas de jin de ferro temperado, sua arma favorita para batalhas em espaços fechados — estava ao alcance da mão direita, inclinado contra o braço da cadeira como um terceiro hóspede que não bebe mas está sempre presente.
A porta abriu-se e entrou uma dama de honra que o demônio não reconhecia.
Era jovem, com o cabelo preso em trançados elaborados e fixado com pinos de jade, um jarro de vinho vermelho nas mãos e a postura de alguém que havia carregado jarros de vinho tantas vezes que o movimento havia se tornado parte da sua anatomia. Os movimentos eram fluidos com a fluidez específica de quem aprendeu a não chamar atenção.
— Quem é você? — perguntou o demônio, sem levantar os olhos da taça.
— Uma das serviçais noturnas, meu senhor. — A voz era suave como água sobre pedra. — Vim servir sua excelência.
O demônio examinou-a por um momento com os olhos que, mesmo embebidos em vinho, mantinham a qualidade de examinar que havia sido sua maior ferramenta de sobrevivência ao longo de décadas. Havia algo no porte da serviçal que era ligeiramente errado — não de uma forma que pudesse nomear, mas da forma que os instintos registram antes que o pensamento consciente chegue. Depois estendeu o cálice. A suspeita era um luxo que ele podia permitir-se depois de mais vinho.
A dama serviu com uma habilidade peculiar: o vinho subiu acima da borda do cálice como uma torre de jade líquida, mais alto do que qualquer tensão superficial poderia explicar, e não transbordou uma gota. O nível do líquido parou exatamente onde deveria ter transbordado e ficou ali, desafiando a gravidade com a calma de algo que havia decidido não obedecer às leis físicas naquela noite. O demônio ficou olhando para o fenômeno com fascínio misturado a suspeita crescente.
— Como você faz isso?
— Habilidade adquirida, meu senhor. — Uma pausa calculada. — Sirvo mais?
O demônio bebeu. Pediu mais. O dragão-cavalo serviu novamente, a mesma torre de vinho se erguendo com a elegância impossível de algo que havia crescido nos oceanos e conhecia os segredos da água melhor do que qualquer lei da física terrestre.
Na terceira taça, a dama de honra tirou uma espada de debaixo do manto — o movimento foi rápido, limpo, sem hesitação — e golpeou a cabeça do demônio com a intenção de quem não estava praticando.
O demônio, que havia bebido três taças mas não estava nem um pouco embriagado — os demônios metabolizavam álcool com a eficiência de fogareiros que queimam tudo sem acumular calor — desviou com uma rapidez que fez a espada raiar o ar a dois dedos do seu ouvido. Agarrou o candelabro de ferro com uma das mãos enormes e o ergueu acima da cabeça com a facilidade de quem levanta um palito.
— Interessante serviçal — disse ele.
O dragão-cavalo largou a forma humana. O salão real ficou subitamente pequeno demais para dois combatentes do seu porte — o dragão de escamas prateadas, comprido como um barco de pesca, e o demônio de pelagem azul-escura que enchia uma cadeira real — bateram nas colunas lacadas de vermelho, derrubaram as mesas de banquete com o estrondo de louça cara encontrando pedra, estilhaçaram as janelas de papel com a passagem dos seus corpos. Saíram para o pátio, onde havia mais espaço e menos testemunhas, e depois para o ar.
Lutaram por oito ou nove rodadas no céu de outubro. O dragão era ágil e criativo, usando as camadas de vento como correntes e mudando de altitude com a facilidade de quem havia nascido no oceano e sabia que o fluido ao redor não importa — apenas o movimento importa. O demônio era pesado e impenetrável como uma rocha que tivesse aprendido a andar, cada golpe do candelabro chegando de um ângulo diferente com o peso de algo forjado para não ser desviado.
A cada volta que o dragão dava, o candelabro de ferro regressava numa trajetória diferente. Era como lutar com um penhasco que antecipava cada movimento.
Na décima rodada, o dragão tentou um mergulho em espiral — uma técnica que havia usado nos oceanos do oeste por décadas, onde a velocidade na água densa era seu maior trunfo. No ar, era apenas previsível. O candelabro de ferro acertou a perna traseira direita com um impacto que enviou o dragão girando descontroladamente para baixo, as escamas tilintando como sinos despedaçados, o equilibrio perdido num único golpe bem calculado.
Bateu no fosso do palácio com um respingo que acordou dois guardas dormentes na torre leste, que olharam para o fosso sem ver nada além de água perturbada e decidiram que havia sido um peixe grande. Mergulhou fundo, a dor pulsando na perna com o ritmo do próprio coração. Ficou no fundo por um tempo que não soube medir — o frio da água amenizava a dor, mas não a eliminava, e havia também a escuridão do fundo do fosso, a lama, o cheiro de água que carregava os dejetos de uma cidade inteira.
Depois subiu lentamente, saiu pela margem do fosso onde não havia guardas, voltou aos estábulos com a pata machucada deixando uma trilha úmida no chão de pedra, e reassumiu a forma de cavalo antes que alguém o visse.
Deitou na palha com a perna machucada e ficou olhando para o teto de madeira do estábulo. Acima, o céu de outubro estava cheio de estrelas que não sabiam nem ligavam para o que havia acontecido naquela noite. O cavalo ficou olhando para as vigas e considerando uma verdade que doía de uma forma diferente da perna: ele havia tentado tudo que sabia. E não havia sido suficiente. Havia armas que dragões não podiam forjar sozinhos.
Quando Zhu Bajie voltou de madrugada — tendo passado a maior parte da batalha escondido num arbusto de bambu suficientemente denso para ocultar alguém da sua envergadura, uma estratégia que considerava subestimada nos manuais militares — encontrou o cavalo molhado deitado na palha com um hematoma do tamanho de uma tigela na perna traseira.
— O que aconteceu com você? — perguntou, em voz baixa para não acordar os outros animais dos estábulos.
O cavalo abriu a boca e falou.
Zhu Bajie deu um passo para trás, escorregou no próprio rastelo que havia deixado deitado no chão, e caiu com um som que provavelmente acordou os dois guardas da torre leste novamente. Levantou-se. Olhou para o cavalo. O cavalo continuou falando, com a voz calma de quem sabe que a situação é urgente demais para perder tempo com surpresas de quem não esperava que animais falassem.
Quando terminou de explicar — o demônio no salão real, o mestre na gaiola de ferro da câmara do tesouro, Sha Wujing acorrentado na caverna, a batalha no ar, a perna machucada, a água fria do fosso — Zhu Bajie ficou em silêncio por um longo momento. Era o silêncio específico de alguém que está reorganizando sua compreensão de quantos problemas existem e em que ordem precisam ser enfrentados.
— Preciso ir buscar Sun Wukong — disse afinal.
— Sim.
— Ele está bravo comigo.
— Eu sei.
— Ele pode me bater.
— Isso é provável — disse o cavalo com uma honestidade que Bajie teria preferido não ter pedido.
Zhu Bajie olhou para o leste, onde o céu ainda estava escuro mas havia um fio branco no horizonte que anunciava a aurora não com certeza mas com promessa. As estrelas sobre aquele fio estavam apagando, uma a uma, como velas que alguém soprasse em sequência.
— E se eu for ao palácio explicar para o rei que o tigre é na verdade um monge e o genro é na verdade um demônio —
— O rei não acredita. O demônio usou magia para convencê-lo.
— E se eu for a Baoxiang e pedir mais soldados —
— Os soldados não podem fazer nada contra esse demônio — disse o cavalo. — Você sabe disso melhor do que eu. Você o enfrentou.
Zhu Bajie sabia disso. Sabia da maneira que se sabe quando o próprio corpo carrega a memória de um impacto que não deveria ter sobrevivido.
— E se eu der uma volta pelo sul e ver se há outro imortal —
— Não há tempo. Cada dia que passa, o mestre corre mais risco.
Zhu Bajie pegou o rastelo. Endireitou os ombros largos com o gesto de quem decide carregar algo que preferiria não carregar. Suas orelhas enormes se moveram ligeiramente no vento do pré-amanhecer, como antenas captando sinais de uma distância que os olhos não chegavam.
— Muito bem — disse ele. — Vou buscá-lo. Mas vou precisar de uma boa história, porque a verdade toda de uma vez não vai funcionar com ele. Ele vai ficar orgulhoso e difícil.
— Use o que precisar usar — disse o cavalo. — Traga-o de volta. O resto resolve-se depois.
Zhu Bajie saltou para as nuvens com uma agilidade que surpreendia quem só o conhecia em terra — no ar, a envergadura do seu corpo tornava-se vantagem, as orelhas compridas funcionando como velas num barco que apanhava cada corrente. O vento do leste estava a seu favor naquela hora, o fio branco no horizonte crescendo atrás dele enquanto avançava para o mar. O oceano azul passou abaixo como um tapete de seda que alguém tivesse estendido do continente ao continente, e as ondas deixavam rastros brancos que pareciam caminhos para quem olhava de cima.
Antes que o sol chegasse ao meio do céu, o contorno familiar do Monte das Flores e Frutos apareceu no horizonte oriental — a forma que Bajie havia aprendido a reconhecer da mesma maneira que se reconhece a casa de alguém de quem não se gosta mas a quem se recorre nas emergências.
Lá embaixo, nas clareiras restauradas pelo trabalho de semanas de macacos incansáveis, centenas de macacos gritavam e pulavam ao redor do seu rei com a energia de criaturas que nunca precisavam decidir se estavam felizes — eles simplesmente eram felizes, com a intensidade absoluta do presente permanente. E o rei dos macacos estava sentado numa pedra alta, com o Bastão de Ouro atravessado nos joelhos e a expressão de alguém que havia encontrado exatamente o que procurava no lugar onde havia sempre estado.
Tão vivo. Tão ele mesmo. Tão absurdamente intacto, como se a separação dos últimos meses não houvesse custado nada, como se as estradas do oeste fossem apenas histórias que outros contavam enquanto ele ficava aqui recebendo homenagens.
Zhu Bajie, apesar de tudo, sentiu um alívio que o surpreendeu pela sua intensidade. Ainda bem que você existe, pensou o porco-monge com uma sinceridade que nunca admitiria em voz alta. Ainda bem que você é impossível de matar e impossível de convencer e impossível de viver sem.
Desceu das nuvens devagar, tentando parecer casual, e começou a organizar na mente as palavras que ia usar. Não a verdade — não toda de uma vez. Uma verdade menor, mais palatável: o mestre sente falta de você. Era mentira apenas na proporção e na omissão. O mestre certamente sentiria falta, se soubesse que Bajie havia ido buscá-lo. O que era, estruturalmente, próximo o suficiente da verdade para funcionar.
Desceu das nuvens e começou a planejar.
O que aconteceu entre a descida de Bajie e o momento em que ele estava de joelhos sendo segurado por duzentos macacos é uma história que Bajie conta de maneira diferente dependendo de quem está ouvindo — e que Sun Wukong, que havia visto tudo do alto da sua pedra com os olhos dourados que não perdiam detalhes a nenhuma distância, contava de uma maneira consistentemente precisa que envergonhava Bajie sempre que alguém pedia que os dois narrassem juntos.
O que todos concordam é o seguinte: Bajie entrou na clareira tentando passar despercebido, falhou completamente nessa tentativa dado que o Monte das Flores e Frutos não era o tipo de lugar onde alguém com as suas características físicas passasse despercebido, foi identificado imediatamente por Sun Wukong, foi capturado pelos macacos antes de conseguir articular sua história inventada, e ficou ali de joelhos com o focinho na terra enquanto o rei dos macacos o examinava de cima com a expressão de um professor que reconhece o aluno que falhou na prova mas está interessado em ouvir a desculpa.
— Discípulo dois — disse Sun Wukong finalmente, usando o número com uma precisão que dispensava o nome. — O que você está fazendo aqui?
E Bajie, que havia preparado cinco histórias diferentes durante o voo e descartado quatro por falta de credibilidade, usou a quinta: a verdade simples, sem adornos, sem o orgulho que poderia tê-lo feito embelezá-la.
— O mestre precisa de você — disse ele. — Eu precisei vir.
Sun Wukong ficou em silêncio.
O vento passou pela clareira. Os macacos, que haviam estado gritando há dez minutos, ficaram quietos com a qualidade de algo que aguarda.
— Levanta — disse Sun Wukong eventualmente. — Me conta tudo.
E Bajie contou.