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Capítulo 29: Libertado do Perigo, o Monge Chega ao Reino; Bajie Recebe Ordens e Retorna à Floresta

A Princesa Cem Flores envergonhada ajuda Tang Sanzang a escapar da caverna do Demônio do Manto Amarelo. O monge entrega sua carta ao Rei de Baoxiang, mas o demônio infiltra o palácio disfarçado de genro e transforma Tang Sanzang em tigre.

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No escuro da Caverna da Lua Ondulante, Tang Sanzang estava amarrado à Estaca das Almas com cordas de seda grossa e tentava, com a pequena luz que entrava pela fresta da pedra, manter a compostura de um monge. Não estava indo muito bem nesse aspecto.

Já havia recitado os sutras que sabia de cor. Havia tentado meditar, mas o cheiro do lugar — osso velho, couro de animal e algo indistinto que preferia não identificar — tornava a contemplação difícil. Havia também o barulho da batalha lá fora: o estampido metálico do rastelo de Zhu Bajie contra a faca do demônio, o grito grave de Sha Wujing, o rugido do demônio respondendo.

Seus discípulos estavam lutando por ele. E ele estava amarrado a uma estaca, inútil como um pacote de roupas.

Foi então que os passos suaves se aproximaram.

Uma mulher de uns trinta anos apareceu da sombra interior da caverna. Seus trajes eram ricos — seda bordada com fios de ouro — mas havia algo na sua postura que não era o da esposa satisfeita de um senhor poderoso. Era a postura de alguém que carrega um peso há muito tempo e não sabe se vai conseguir carregá-lo por mais uma hora.

— Monge — disse ela baixinho —, de onde você vem?

Tang Sanzang ergueu os olhos. A mulher tinha olhos inteligentes e uma expressão que misturava cuidado com urgência.

— Venho da Terra do Leste — respondeu ele com a voz que ainda conseguia manter tranquila. — Vou ao oeste buscar as escrituras sagradas. Entrei neste lugar por engano. Se pretende me comer junto com o seu senhor, por favor seja direta — não gosto de suspense.

A mulher sacudiu levemente a cabeça.

— Não sou comedora de pessoas. Sou a Princesa Cem Flores, terceira filha do Rei de Baoxiang. Há treze anos fui raptada por esse demônio numa noite de lua de outono. Desde então vivo aqui — esposa involuntária, mãe de crianças que são metade monstro. — Ela pausou. — Você vai a Baoxiang no seu caminho ao oeste?

— É a rota natural.

— Então leve uma carta para meu pai.


A carta foi escrita às pressas num pedaço de seda com tinta de cálamo. A Princesa Cem Flores escreveu devagar, como alguém que compõe cada frase sabendo que pode ser a última mensagem que envia para casa. Quando terminou, dobrou a seda com cuidado e entregou a Tang Sanzang.

— Se você entregar isso ao meu pai, ele saberá que estou viva e onde estou. — Ela começou a desamarrar as cordas da Estaca das Almas. — Em troca, vou pedir ao demônio que solte você e seus discípulos.

— Como vai convencê-lo?

— Contarei que sonhei com um deus dourado que cobrava um voto antigo de oferecer comida a monges. O demônio é ignorante em muitas coisas, mas tem medo de votos divinos. — Um sorriso triste. — Treze anos me ensinaram onde estão os seus medos.

Tang Sanzang recebeu a carta, dobrou-a cuidadosamente e guardou dentro da batina. Inclinou-se numa reverência profunda.

— Sua coragem envergonha muitos que chamam a si mesmos de bravos.

— Vai pela porta dos fundos — disse ela. — A batalha ainda está acontecendo na frente. Esconda-se nos arbustos até que seus discípulos se afastem do demônio. Eu mesma vou chamá-lo para dentro.

E foi exatamente isso que aconteceu. Quando a voz da princesa ecoou pelo pátio chamando o demônio do manto amarelo pelo nome afetuoso que lhe dava, o monstro largoua batalha com Zhu Bajie e Sha Wujing com a prontidão de alguém que sabe que assuntos domésticos têm prioridade sobre assuntos marciais.

— Vou poupar seu mestre — disse ele aos dois guerreiros, voltando para dentro. — Encontrem-no na porta dos fundos. E não voltem aqui.

Zhu Bajie e Sha Wujing trocaram um olhar. Depois correram para a porta dos fundos, onde Tang Sanzang os esperava num matagal de espinheiros, com folhas no cabelo e a compostura levemente abalada mas ainda presente.


O Reino de Baoxiang era exatamente o tipo de lugar que Tang Sanzang esperava encontrar no caminho ao oeste: uma cidade próspera, ruas limpas, um palácio com nove torres e um rei que, apesar de toda a sua riqueza, carregava nos olhos a tristeza específica de alguém que perdeu algo que dinheiro não compra de volta.

Tang Sanzang foi recebido com a cortesia devida a um monge estrangeiro que carregava credenciais imperiais de Chang'an. O documento de viagem foi carimbado com o selo real. Vinho imperial foi servido. E então Tang Sanzang retirou da batina o pedaço de seda dobrado.

— Tenho também uma carta — disse ele. — Da sua terceira filha.

O salão do trono ficou muito quieto.

O rei ficou olhando para a carta por um tempo antes de conseguir abri-la. Quando o escriba leu em voz alta, havia lágrimas no rosto de tantas pessoas no salão — damas de honra, guardas, ministros — que parecia que havia chovido dentro do palácio.

Treze anos. A princesa viva. Com filhos. Num covil de demônio a trezentos li de distância.

O rei ergueu os olhos e olhou para Tang Sanzang com a expressão de alguém que acaba de receber uma responsabilidade que não pediu.

— Você trouxe esta notícia. Você tem discípulos que combatem demônios. Salve minha filha e o reino inteiro é seu.

Tang Sanzang respirou fundo.

— Majestade, sou um monge. Sei recitar sutras. Meus discípulos é que sabem lutar.

Zhu Bajie, que havia entrado no palácio e imediatamente se sentado perto das mesas de comida, ergueu a cabeça com o ar de quem acabou de ser mencionado numa conversa importante.

— Podemos tentar — disse ele, de boca cheia. — Mas seria mais fácil com o irmão mais velho.

— Não há irmão mais velho — disse Tang Sanzang firmemente.

Zhu Bajie engoliu.

— Então vamos com o que temos.

O vinho imperial foi servido em cerimônia. O rei entregou pessoalmente a taça a Zhu Bajie, que a ergueu numa saudação e a esvaziou num único gole. Depois Sha Wujing tomou a sua. E os dois partiram de volta para a Caverna da Lua Ondulante.


O que aconteceu a seguir foi mais complexo do que qualquer um esperava.

O demônio do manto amarelo, ao perceber que a princesa havia enviado uma carta ao pai, não matou — fez algo pior. Transformou-se.

Assumiu a aparência de um jovem nobre de rosto bonito e maneiras refinadas, caminhou até o palácio de Baoxiang e apresentou-se como o terceiro genro do rei — o homem que havia resgatado a princesa de uma tigre feroze treze anos antes, casado com ela por amor genuíno e que agora vinha finalmente conhecer o sogro.

Era uma história absurda se alguém pensasse bem. Mas o demônio a contou com tal confiança, tal riqueza de detalhe, tal quantidade de emoção nos momentos certos, que o rei — um homem de carne e osso com olhos comuns que não viam através de ilusões — acreditou.

E então o demônio foi mais longe: apontou para Tang Sanzang, sentado no trono como hóspede de honra, e disse que o monge era na verdade o tigre que havia raptado a princesa há treze anos, apenas disfarçado de peregrino.

O rei ordenou que provasse.

O demônio cuspiu água encantada em Tang Sanzang.

E Tang Sanzang, diante de toda a corte reunida, transformou-se num tigre listrado.

O pânico foi total. Os guardas investiram com lanças e espadas. Tang Sanzang — cujo espírito estava intacto dentro da forma animal, completamente consciente e completamente impotente — foi capturado, acorrentado e trancado numa gaiola de ferro na câmara do tesouro.

O demônio foi instalado nos aposentos reais como genro legítimo. O vinho fluiu. A música tocou. E numa câmara distante, o tigre que havia sido um monge bateu a cabeça contra as grades de ferro e esperou.


O cavalo branco foi o único que percebeu o que havia acontecido.

Ele não era apenas um cavalo. Era o Príncipe-Dragão do Mar Ocidental, que havia cometido um crime contra o Céu e fora condenado a servir como montaria de um monge peregrino. Mas sua natureza espiritual permanecia, e quando os rumores chegaram aos estábulos reais — o monge era um tigre, o novo genro era um herói — ele reconheceu a mentira com a clareza de quem conhece a diferença entre forma e essência.

Esperou até a segunda hora da noite, quando os estábulos estavam silenciosos. Então quebrou as correntes, caminhou até o pátio vazio e transformou-se na sua verdadeira forma: um dragão de escamas prateadas, com garras de jade e olhos como lâmpadas vermelhas.

Subiu para o céu e voou até o palácio.

O demônio estava no salão real, bebendo sozinho, com três cortesãs tocando música ao fundo. O dragão-cavalo transformou-se em dama de honra — uma figura leve e elegante com um jarro de vinho — e entrou.

Serviu o demônio com mão firme, encantando o vinho para que subisse acima da borda do cálice sem transbordar. O demônio, fascinado pela estranheza do truque, pediu mais.

Na terceira taça, o dragão-cavalo desembainhou a espada que havia trazido escondida sob o manto e golpeou.

O demônio era rápido. Desviou, agarrou um candelabro de ferro e usou-o como clava. Eles lutaram do salão até o pátio, do pátio para o ar, do ar de volta ao chão — e no final, quando o dragão-cavalo tentou um golpe decisivo, o candelabro de ferro acertou sua perna traseira com força suficiente para enviar faíscas pelo céu noturno.

O dragão-cavalo caiu no fosso do palácio, mergulhou na água e ficou lá, imóvel, esperando que a dor passasse.

Depois saiu, voltou aos estábulos, reassumiu a forma de cavalo e ficou deitado na palha com a perna pulsando de dor. E pensou, com a clareza dolorosa de quem acabou de descobrir o limite do próprio poder:

Precisamos do macaco.

Quando Zhu Bajie voltou derrotado pela segunda vez e encontrou o cavalo branco molhado e machucado, o cavalo falou — o que fez o porco-monge gritar e cair para trás antes de se recompor o suficiente para ouvir o que havia acontecido.

— Vá buscar Sun Wukong — disse o cavalo.

— Ele não vai querer vir — disse Zhu Bajie.

— Então o engane. Diga que o mestre sente saudades. Diga qualquer coisa. Mas traga-o.

Zhu Bajie ficou em silêncio por um longo momento, olhando para o cavalo molhado na palha. Depois disse:

— Você sabe que ele vai ficar furioso quando descobrir que menti.

— Sim — disse o cavalo. — Mas o mestre está numa gaiola de ferro dentro de um corpo de tigre. Alguma coisa tem que ceder.

Zhu Bajie pegou seu rastelo, endireitou as orelhas enormes e saltou para as nuvens em direção ao leste.