Capítulo 27: O Demônio dos Ossos Brancos Engana Tang Sanzang; O Santo Monge Expulsa o Rei dos Macacos
A Dama dos Ossos Brancos assume três formas para enganar Tang Sanzang, e apesar de Sun Wukong matar as três aparências, as intrigas de Zhu Bajie convencem o mestre a expulsar seu discípulo com um documento escrito de demissão.
A montanha não tinha nome nos mapas dos homens, mas os demônios a conheciam bem. Chamavam-na de Monte do Tigre Branco — um lugar onde as nuvens raramente se dissipavam e os animais da floresta andavam em silêncio, como se soubessem que havia algo naquelas pedras que era mais antigo do que eles e muito menos pacífico.
Foi por esse monte que Tang Sanzang e seus três discípulos cavalgaram na manhã seguinte à partida de Wuzhuang Guan. O mestre, revigorado pelos frutos de ginseng e pelo sono profundo, seguia no cavalo branco com a postura serena de quem carrega um propósito sagrado. Atrás dele, Zhu Bajie levava a bagagem com os ombros largos e os passos pesados, e Sha Wujing caminhava em silêncio, o cajado sobre os ombros. Diante de todos, Sun Wukong abria o caminho na névoa matinal, o Bastão de Ouro em guarda horizontal, os olhos dourados varrendo as sombras entre as árvores.
— Há muito perigo neste lugar — disse Tang Sanzang, olhando para os picos que desapareciam na neblina. — Todos muito atentos.
— Pode deixar, mestre — respondeu Sun Wukong sem virar a cabeça. — Aqui nada passa pelos meus olhos.
E era verdade. Mas havia algo naquela montanha que observava de volta.
No coração do monte, num antro escavado na rocha viva, vivia uma criatura que os livros dos imortais chamavam de Bai Gu Jing — a Dama dos Ossos Brancos. Era um espírito antigo, feito não de carne corrompida mas de osso acumulado ao longo de séculos: cada osso de cada viajante que havia desaparecido naquela montanha ao longo de eras incontáveis. Ela havia aprendido, com toda essa paciência óssea, a esperar. A observar. A transformar-se no que a vítima mais desejava ver.
Quando sentiu a vibração sagrada da passagem de Tang Sanzang — aquele brilho particular de dez vidas de mérito espiritual concentradas num único homem — a Dama dos Ossos Brancos abriu os olhos de alabastro e sorriu.
Finalmente.
Sabia dos guardiões. O porco-homem e o guerreiro-areia eram obstáculos, mas gerenciáveis. O macaco era outra questão — aqueles olhos de ouro que atravessavam qualquer ilusão eram um problema sério. Mas ela havia sobrevivido mil anos com astúcia. Paciência era a sua arte.
Que o macaco vá buscar comida. Então terei meu momento.
Sun Wukong sentia o monte. Havia algo errado na qualidade do silêncio — era denso demais, como água onde algo se esconde. Mas o mestre estava com fome, e a fome de Tang Sanzang era uma força que reorientava o universo.
— Estou exausto e faminto — disse o mestre, parando o cavalo. — Wukong, vá buscar algo para comer.
Sun Wukong varreu a paisagem com os olhos de ouro cerrados. Ao sul, num penhasco voltado para o sol, havia manchas vermelhas — frutos maduros de montanha. Tomou a tigela e saltou para as nuvens.
Ainda estava subindo quando a Dama dos Ossos Brancos se moveu.
A transformação foi perfeita. Uma jovem mulher — dezoito anos, rosto como flor de pêssego, cabelos presos com pentes de jade, uma cestinha de arroz na mão esquerda e uma garrafa de caldo na direita — apareceu num torneio do caminho e caminhou em direção ao grupo com passos deliberadamente vacilantes, como se estivesse cansada de uma longa caminhada.
Zhu Bajie, que havia ficado na retaguarda ajustando as correias da bagagem, ergueu os olhos e parou completamente. Depois avançou a passos rápidos com uma dignidade que ele próprio considerava impressionante.
— Menina, para onde vai? — chamou ele com sua voz mais suave, que soava como pedras rolando numa cachoeira. — O que traz nas mãos?
— Viajantes! — disse a jovem com alívio bem calculado. — Que sorte encontrá-los. Meus pais fizeram votos de alimentar monges em honra ao Buda. Trouxe arroz e caldo para oferecer.
Tang Sanzang desceu do cavalo. Havia algo na jovem que lhe parecia genuíno — a modéstia nos olhos, o rubor cansado nas bochechas. Mas a experiência o tornara cuidadoso.
— Esta é uma montanha solitária. Sua família mora perto?
— Ali embaixo, na encosta — respondeu ela, indicando vagamente para o sul. — Meu marido trabalha nos campos. Vim sozinha porque não havia mais ninguém.
Sha Wujing ficou em silêncio, sentindo algo que não conseguia nomear. Havia uma qualidade no ar ao redor da jovem — uma frieza que não correspondia ao calor da tarde.
Foi então que Sun Wukong desceu das nuvens com a tigela de frutos silvestres, e seus olhos de ouro bateram imediatamente na jovem.
Viu o que estava por baixo da ilusão. Ossos brancos animados por um espírito antigo, envolvidos numa película de carne fabricada com o resíduo de cada ser humano que a criatura havia devorado. A jovem era uma mentira com profundidade técnica impressionante — mas era uma mentira.
Sun Wukong colocou a tigela no chão, empunhou o Bastão de Ouro e avançou.
— Mestre, saia de perto!
Tang Sanzang recuou por instinto. Sun Wukong desceu o bastão com força total na cabeça da jovem.
A Dama dos Ossos Brancos era antiga o suficiente para prever o golpe. Um instante antes do impacto, ela lançou sua essência espiritual para fora do corpo, deixando para trás uma casca inanimada que caiu no chão com um ruído seco.
Tang Sanzang olhou para o corpo caído, para a cestinha tombada, para o arroz espalhado pelo caminho de pedra. A expressão no seu rosto era de horror genuíno.
— Wukong! Você matou uma mulher inocente!
— Ela era um demônio, mestre. Olhe dentro da cestinha.
Sha Wujing se aproximou cautelosamente e olhou. Onde havia arroz, agora havia larvas brancas e gordas. Onde havia caldo, havia sapos e lagartos que pulavam desesperadamente para fora da garrafa.
Tang Sanzang ficou em silêncio por um momento. Mas Zhu Bajie, que havia abraçado a ilusão da jovem com toda a força do seu coração simples e carnívoro, estava com os olhos vermelhos.
— Irmão mais velho — disse o porco-homem com uma voz que tentava soar razoável —, uma jovem estava caminhando neste caminho. Você chegou com seu bastão e a matou. Esses sapos e larvas são um truque — você usa a magia para encobrir seu erro.
Tang Sanzang recitou o encantamento antes que pudesse se deter.
A faixa dourada apertou como um torno. Sun Wukong caiu de joelhos, os dedos nas têmporas, os olhos fechados contra a dor que sentia como fogo nos ossos do crânio.
— Chega, mestre, chega! Tenho coisas a dizer!
— Que coisas? Você matou uma mulher inocente que vinha oferecer comida!
— Não era inocente e não era mulher. Era um demônio de osso. Posso provar —
— Você pode fabricar qualquer prova com seus truques.
O encantamento foi recitado mais vezes. Depois, Tang Sanzang ordenou:
— Você está perdoado desta vez. Mas se voltar a usar violência sem autorização —
— Entendido — disse Sun Wukong, levantando-se com cuidado. — Entendido, mestre.
A Dama dos Ossos Brancos pairava invisível no topo de um pinheiro, observando. O macaco havia sobrevivido ao encantamento — como sempre sobrevivia. Mas vira algo mais valioso do que uma derrota: vira a fenda entre o mestre e o discípulo.
O porco-homem era um instrumento útil. Gordo, ciumento, incapaz de resistir à oportunidade de rebaixar o irmão mais velho.
Ela desceu da árvore.
A segunda transformação levou mais tempo. Era preciso acertar cada detalhe: uma mulher idosa, oitenta anos pelo menos, a coluna curvada em arco de sofrimento, o cabelo branco como neve de inverno, uma bengala de bambu torcido, os olhos úmidos de quem perdeu algo querido.
Ela surgiu no caminho pela frente, soluçando em voz baixa.
Tang Sanzang avistou-a do alto do cavalo e seu coração de monge se contraiu imediatamente:
— Uma senhora de idade, sozinha nesta montanha. Deve estar em apuros.
Zhu Bajie apontou com um cotovelo gordo para Sun Wukong:
— Irmão mais velho matou a filha dela mais cedo. Agora a mãe vem procurar.
Sun Wukong estudou a velha com os olhos de ouro. Viu os ossos brancos dentro da carne fabricada, a mesma frieza de osso antigo, o mesmo espírito que já havia atacado uma vez.
— É o mesmo demônio, mestre. Uma nova forma.
— Você não pode saber isso —
— Posso e sei.
Sem mais cerimônia, levantou o bastão.
A velha caiu no caminho. A Dama dos Ossos Brancos saiu de novo, invisível, furiosa mas impressionada. Duas vezes. Esse macaco era extraordinário na pior acepção possível.
Tang Sanzang desceu do cavalo e ficou de pé ao lado do corpo inanimado com as mãos tremendo. Recitou o encantamento vinte vezes seguidas sem pausar.
Sun Wukong ficou enrolado no chão como um caracol, os dentes cerrados, a dor percorrendo-o em ondas.
Quando o encantamento parou, ele ficou de joelhos por um longo momento, olhando para o chão de pedra. Depois ergueu os olhos para o mestre.
— Você errou, mestre. Eu sei que errou. E na próxima vez que um demônio o capturar e não houver ninguém para resgatá-lo, você vai saber também.
Tang Sanzang virou o rosto.
— Continue andando.
A terceira forma da Dama dos Ossos Brancos era um homem velho — noventa anos, a barba como neve de montanha, um rosário na mão, lábios movendo orações em silêncio. Ela calculou que um velho devoto seria o mais difícil de atacar, mesmo para Sun Wukong.
Errou.
Sun Wukong não hesitou. Chamou os deuses guardiões do lugar para testemunhar — o Deus da Terra e os Espíritos da Montanha desceram das nuvens — e então desceu o bastão pela terceira vez.
O velho colapsou. E desta vez, quando a Dama dos Ossos Brancos tentou escapar, os deuses guardiões formaram uma barreira invisível ao redor do corpo. Ela foi forçada a permanecer. A ilusão se desfez completamente.
No lugar do velho havia uma pilha de ossos brancos. Na espinha dorsal, escrito em tinta vermelha-escura, estava seu nome: Bai Gu Furen — a Dama dos Ossos Brancos.
Tang Sanzang ficou olhando para os ossos por um tempo muito longo.
Depois voltou a cabeça e viu Sun Wukong parado com o bastão apoiado no ombro, os olhos dourados calmos, sem nenhum triunfo visível na expressão — apenas a paciência exausta de quem fez a coisa certa três vezes e foi punido por isso nas três.
Tang Sanzang tinha a prova na frente dos olhos. Mas Zhu Bajie estava ao seu lado, e a voz do porco-homem foi ao ouvido do mestre como água numa rachadura de pedra:
— Mestre, o irmão mais velho usa magia para fabricar ossos. Qualquer demônio pode fazer isso. A verdade é que ele matou três pessoas inocentes neste caminho.
Foi isso que fez Tang Sanzang pegar papel e tinta da mochila.
Escreveu devagar, com a caligrafia precisa de um monge instruído. Sun Wukong ficou parado, observando cada pincelada. Sha Wujing ficou de lado, quieto, com uma expressão que não era bem desgosto e não era bem tristeza — era algo entre os dois, a expressão de quem assiste a um erro ser cometido e não tem palavras suficientes para impedi-lo.
Tang Sanzang estendeu o documento.
— Pegue isso como prova. A partir deste momento, você não é mais meu discípulo. Nunca mais quero ver seu rosto. Se voltarmos a nos encontrar, serei condenado ao inferno mais profundo.
Sun Wukong pegou o papel com as duas mãos e leu-o devagar. Dobrou-o com cuidado e guardou na manga.
Depois, inesperadamente, ajoelhou-se.
— Mestre. Fui libertado da Montanha dos Cinco Elementos pela sua mão. Percorri cavernas e florestas em seu nome. Peguei Bajie, trouxe Sha Wujing, carreguei suas bagagens e abri seu caminho. Hoje fiz o que precisava ser feito, e sei que estava certo. Mas você é meu mestre, e se é sua vontade que eu vá, então eu vou.
Havia algo na voz de Sun Wukong que Tang Sanzang não havia ouvido antes. Não era raiva, não era argumentação — era algo mais simples e mais difícil de suportar.
Tang Sanzang virou o rosto.
Sun Wukong tentou uma última coisa: arrancou três fios de pelo da nuca, soprou neles e eles se transformaram em três cópias de si mesmo, que circularam Tang Sanzang pelos quatro lados e fizeram uma reverência sincronizada. O mestre não teve para onde se virar — e acabou aceitando, relutante, a reverência.
Depois Sun Wukong voltou a ser um só. Virou-se para Sha Wujing e pousou uma mão no seu ombro:
— Cuide do mestre. Quando os demônios vierem — e virão —, diga-lhes que sou o discípulo mais velho de Tang Sanzang, e que os monstros do oeste conhecem meu nome.
— Irmão mais velho — começou Sha Wujing com a voz embargada.
— Não precisa dizer nada.
Para Zhu Bajie, Sun Wukong não disse nada. Os olhos dourados pousaram no rosto gordo do porco-homem por um instante — sem raiva, o que de certa forma foi pior — e depois se afastaram.
Sun Wukong saltou para as nuvens.
Ele voou para o leste. Abaixo, o oceano rolava em enormes ondas cinzentas de outono, e o barulho das águas chegava até ele como um murmúrio constante. O Grande Sábio que havia derrubado o Palácio do Céu, que havia empurrado montanhas com uma mão, que havia bebido o vinho dos imortais e roubado os pêssegos da eternidade — esse mesmo Grande Sábio parou no meio do céu vazio e ficou olhando para o oceano.
A carta de demissão estava na manga. O caminho para o Monte das Flores e Frutos estava à frente. A vida que havia tido antes de conhecer Tang Sanzang — a vida de rei sem obrigações, de guerreiro sem dono, de macaco imortal e livre — estava lá, esperando.
Uma lágrima desceu pelo rosto do Rei dos Macacos.
Ele não enxugou. Deixou-a cair no oceano, muito abaixo, onde as ondas a absorveram sem cerimônia.
Depois voou para o Monte das Flores e Frutos, onde seus súditos macacos o receberiam com gritos de alegria, onde a cachoeira ainda cantava a mesma canção de sempre, onde nada havia mudado.
Mas no caminho, parou mais uma vez sobre o oceano — e ficou olhando para o oeste, na direção de onde havia vindo.
Ficou assim por um tempo que não soube medir.
Depois continuou voando para leste.
Sha Wujing o viu partir do chão lá embaixo. Viu a figura pequena e rápida sumir entre as nuvens em direção ao horizonte do leste. Ficou olhando até que desapareceu completamente, depois virou-se para Tang Sanzang.
O mestre estava sentado no cavalo com a expressão de quem acabou de fazer algo que não pode ser desfeito e ainda não sabe exatamente o que perdeu.
— Vamos seguir — disse Tang Sanzang.
E foram — dois e meio, onde antes eram quatro.