Capítulo 24: Os Pêssegos Ginseng e a Fúria de Wukong
No jardim do Mestre Zhen Yuan, Bajie e Wukong roubam pêssegos ginseng em forma humana. A fúria do dono leva a um conflito que requer a intervenção de Guanyin para resolver.
O Mosteiro das Cinco Vilas ficava num vale quieto onde a brisa tinha o cheiro de alguma coisa que não era exatamente flores e não era exatamente incenso — era algo próprio, como se o ar ali houvesse sido refinado ao longo de milênios para uma qualidade que não existia em nenhum outro lugar. Até as pedras da estrada que levava ao portão tinham uma polição diferente — não pela mão humana, mas pelo tempo e pela presença de algo que mantinha aquele lugar em estado de excepcional integridade.
O Mestre Zhen Yuan era um dos seres mais antigos do universo — mais velho do que os próprios deuses, mais velho do que a maioria dos ensinamentos que Tang Sanzang havia estudado por toda a sua vida. Havia criado aquele mosteiro num tempo antes do qual a memória dos imortais do Palácio Celestial não alcançava, com dois jovens discípulos que o acompanhavam desde então e que eram, para todos os efeitos práticos, extensões da sua presença.
E no jardim atrás do mosteiro havia vinte e três pêssegos ginseng — os frutos mais raros do cosmos. Tinham a forma de bebês humanos completamente formados, com rostos de jade pálido, membros delicados, um perfume que era a quintessência da longevidade destilada em forma material. Amadureciam uma vez a cada dez mil anos. Comer um conferia dez mil anos adicionais de vida.
Quando Tang Sanzang e seu grupo chegaram ao mosteiro, o Mestre Zhen Yuan estava ausente — havia sido chamado a uma conferência celestial de imortais taoístas que acontecia num pico distante. Os dois jovens discípulos ficaram como guardiões com instruções específicas: se o monge Tang aparecesse, tratá-lo bem — havia entre o Mestre e Tang Sanzang um elo kármico de vidas anteriores que Zhen Yuan havia mencionado com brevidade que indicava importância.
Os jovens discípulos, entusiasmados com a oportunidade de honrar as instruções do mestre, decidiram oferecer ao monge um pêssego ginseng como forma de boas-vindas.
Tang Sanzang olhou para o fruto que lhe foi trazido num prato de jade. Via um rosto. Via mãos. Via a forma de um ser humano em miniatura, perfeita em cada detalhe.
"Não posso comer isso," disse ele com a firmeza tranquila que era sua em questões de princípio. "Seria comer um ser humano."
"Não é humano, Mestre Peregrino," explicou o jovem discípulo com a paciência de quem passou essa conversa antes. "É um fruto. A forma é natural da árvore."
"A forma é de criança humana."
"A essência é de vegetal."
"Não consigo separar a forma da essência de maneira que me permita comer isso," disse Tang Sanzang definitivamente.
O jovem discípulo levou o fruto de volta com a expressão de alguém que havia tentado cumprir seu dever e encontrado um obstáculo filosófico que estava além de suas instruções.
O problema era que Bajie havia ouvido a conversa.
E Bajie, que tinha uma relação com frutos raros que era mais próxima do que era estritamente saudável, havia ficado com a informação de que havia no jardim frutos que conferiam dez mil anos de vida, que o Mestre havia recusado um, e que portanto havia frutos disponíveis que não iam ser usados de outra forma.
Convenceu Sha Wujing a acompanhá-lo ao jardim com a lógica elaborada de quem havia praticado justificativas antes de verbalizá-las: "O Mestre recusou, não os discípulos. Ninguém nos disse que não podíamos. Portanto podemos. É simples."
Sha Wujing tinha dúvidas mas tinha também a experiência de que discussões filosóficas com Bajie tendiam a durar até que a situação sobre a qual se discutia havia se resolvido por outras razões.
Foram ao jardim. Os jovens discípulos estavam ocupados em outra parte do mosteiro.
Bajie comeu o seu fruto com uma reverência involuntária que durou exatamente o tempo necessário para o sabor atingir a língua, após o qual voltou a ser o Bajie normal mas com uma qualidade mais viva no olhar.
"Dez mil anos," disse ele para si mesmo.
"Pelo menos não os desperdiçarás com dieta," disse Sha Wujing.
Voltaram. E Wukong, que havia estado explorando os arredores do mosteiro, chegou quando os dois estavam retornando do jardim e deduziu, pela expressão específica de Bajie — satisfação culinária misturada com o início da consciência de que talvez não fosse uma boa ideia — o que havia acontecido.
"Comestes os frutos," disse Wukong.
"Apenas dois," disse Bajie.
"Os frutos que o dono do mosteiro ainda não havia oferecido a ninguém."
"O Mestre recusou o dele, então havia espaço —"
"Bajie." O tom de Wukong não era raiva — era aquele tipo de firmeza que acontece quando a situação é séria o suficiente para dispensar a raiva. "Não."
A descoberta foi inevitável. Os jovens discípulos voltaram ao jardim para inspeção de rotina e encontraram dois frutos faltando onde havia vinte e três da manhã. A contagem foi feita com a minúcia de quem sabe exatamente o que tem e não vai ser convencido de que perdeu a conta.
A confrontação foi conduzida pelos jovens discípulos com a certeza de quem não precisa provar o óbvio mas precisa de um reconhecimento formal. Bajie, quando pressionado, disse a verdade com a desvantagem que a verdade tem nesses contextos — ela apenas confirma o que todo mundo já sabe.
Tang Sanzang ouviu tudo com aquela calma que Wukong havia aprendido a reconhecer como a calma de alguém que está contendo mais do que a superfície sugere. Quando os jovens discípulos terminaram, o monge ficou em silêncio por um tempo e depois disse para Bajie: "Comeste sem permissão algo que não era teu."
"Era apenas fruta —"
"Em casa de outro." Uma pausa. "Não é sobre a fruta. É sobre o respeito."
Bajie ficou quieto com a seriedade específica de alguém que foi tocado num ponto que não estava esperando ser tocado.
Wukong olhava a cena e depois olhou para os jovens discípulos que aguardavam alguma forma de reparação ou explicação. E na mente de Sun Wukong a situação foi processada com a rapidez característica e chegou a uma conclusão que era logicamente questionável mas emocionalmente coerente com sua natureza: se havia complicação por causa de frutos que estavam no jardim, a solução era remover os frutos do jardim de maneira definitiva.
Antes que alguém pudesse fazer objeção ou sugestão alternativa, foi ao jardim, encontrou a árvore de pêssegos ginseng, e com um golpe do Bastão de Ouro, derrubou-a pela raiz.
Era, objetivamente, a pior solução possível para o problema apresentado. Mas havia no gesto algo que era genuinamente Wukong — a recusa em deixar que uma situação iniciada por membros do seu grupo terminasse com outros pagando o preço, mesmo que a maneira de resolver isso fosse transformar um problema de dois frutos num problema de uma árvore inteira destruída.
Quando Zhen Yuan Dashi retornou do congresso celestial naquela tarde, o que encontrou foi: a árvore mais rara e valiosa do cosmos derrubada no jardim, dois jovens discípulos num estado de desolação que era em parte por responsabilidade percebida e em parte por terror do que o mestre diria, e o grupo de peregrinos numa combinação de culpa (Bajie), preocupação (Sha Wujing), defesa preparada (Wukong) e aquela serenidade do monge Tang que era agora indistinguível de resignação contemplativa.
O que se seguiu foi um conflito que foi resolvido finalmente pela intervenção de Guanyin — o Bodhisattva que havia preparado a jornada e que continuava, em momentos como este, a aparecer quando os instrumentos dela haviam criado problemas que excediam a capacidade de resolução do próprio grupo.
Guanyin restaurou a árvore — usando um feitiço que era a expressão concentrada de décadas de ensinamento sobre renovação e restauração — e intercedeu com Zhen Yuan Dashi com a autoridade que vinha de ser quem era: um Bodhisattva cuja dedicação ao bem dos seres atravessava eons e cuja palavra tinha o peso que esse histórico conferia.
Zhen Yuan Dashi ouviu Guanyin. Olhou para a árvore restaurada. Olhou para o grupo de peregrinos — cada um com sua expressão particular, cada um carregando sua parte na situação. E então olhou para Sun Wukong com uma expressão que nenhuma palavra simples podia capturar — não raiva, não aprovação, mas o tipo de avaliação que os seres muito antigos fazem quando encontram algo que é simultaneamente problema e promessa.
"Este ser," disse Zhen Yuan Dashi para Guanyin, "causa problemas numa escala impressionante."
"Sim," disse Guanyin.
"E ainda assim estás confiante de que a jornada vai bem?"
"A jornada vai como deve ir," disse Guanyin com aquela formulação que sempre continha mais do que dizia.
O jantar que se seguiu foi uma refeição de uma qualidade que o grupo raramente havia encontrado — Zhen Yuan Dashi era anfitrião de habilidade cultivada ao longo de mais tempo do que qualquer cozinheiro humano poderia imaginar, e havia na comida uma complexidade que era ela mesma uma forma de ensinamento sobre o que o tempo longo e o cuidado verdadeiro podem produzir.
Bajie comia com a concentração total reservada para situações de excepcional mérito culinário. Sha Wujing comia com moderação que era ao mesmo tempo disciplina e respeito. Tang Sanzang comia pouco e perguntava muito — havia em Zhen Yuan uma profundidade de perspectiva que o monge reconhecia como rara mesmo numa jornada que havia já apresentado múltiplos encontros com sabedoria de forma incomum.
Wukong comia e observava. E havia uma conversa que havia tido com o Mestre Zhen Yuan antes do jantar que ficou com ele.
"Há uma coisa que me pergunto," havia dito Wukong, "o que é mais difícil — viver muito tempo ou viver plenamente?"
E Zhen Yuan havia respondido com a precisão de alguém que havia vivido tempo suficiente para testar a questão na prática: "Viver muito tempo sem plenitude é uma forma de sufocamento gradual. Viver plenamente sem duração é uma tocha que queima bela e brevemente. Idealmente os dois caminham juntos. Mas quando têm que se separar, a plenitude é sempre a escolha mais real."
Wukong ficou com isso.
Tang Sanzang, ao seu lado, havia inclinado ligeiramente a cabeça — o movimento pequeno que era seu sinal de ter ouvido algo que confirmava o que já sabia mas que precisava ser dito em voz alta para ser completamente recebido.
O grupo partiu no dia seguinte com o tipo de provisão que não se carrega em bolsa mas que alimenta por muito tempo — a experiência de ter navegado uma crise, de ter recebido misericórdia que não era totalmente merecida, e de ter aprendido que os erros cometidos com intenção equivocada mas boa podem ser reparados.
Não sempre. Não todos. Mas frequentemente o suficiente para que valha a pena tentar.