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Capítulo 21: O Imoral Lingjie e a Derrota do Demônio Vento

Sun Wukong busca ajuda do Bodhisattva Lingjie para derrotar o Rei do Vento Amarelo, que é revelado ser um rato sagrado exilado. Tang Sanzang é resgatado.

Sun Wukong Lingjie Rei do Vento Amarelo rato sagrado resgate Tang Sanzang Monte Sumeru

Sun Wukong passou a noite no sopé da Montanha do Vento Amarelo com os olhos cobertos pelas mãos e a raiva silenciosa de um ser que havia encontrado pela primeira vez algo que causava dano real aos seus poderes extraordinários.

O vento das três calamidades — aquele sopro de cor amarela que o Rei Vento havia lançado — havia deixado seus olhos inflamados e turvos. Não estava cego de forma permanente, e as visões que tinha eram confusas e dolorosas. Para um ser cujos Olhos de Ouro podiam ver através de qualquer ilusão, essa vulnerabilidade específica era ao mesmo tempo humilhante e informativamente curiosa.

Na manhã seguinte, Zhu Bajie retornou com informações. Havia encontrado, pelas florestas ao redor da montanha, a história do Rei Vento entre os espíritos locais que o temiam: era um ser de poder considerável que havia tomado a montanha como domínio há gerações, e nenhuma expedição de imortais menores havia conseguido removê-lo.

"Há um Bodhisattva", disse Zhu Bajie, "que habita o Monte Sumeru e que tem poder sobre os demônios que abusam de ventos. Chama-se Lingjie. É ele que pode curar seus olhos e também dar-nos o meio de derrotar este demônio."

Sun Wukong considerou isso por um momento. A perspectiva de pedir ajuda era sempre ligeiramente contra a sua natureza, mas havia aprendido, ao longo da jornada, que havia momentos em que a eficiência superava o orgulho.

"Vá buscar Lingjie", disse ele. "Eu aguardo aqui."

Zhu Bajie partiu numa velocidade que surpreendeu Sun Wukong — o porco gordinho que reclamava de carregar bagagem havia se revelado, quando havia uma missão clara com prazo definido, capaz de mover-se com uma eficiência considerável.

O Bodhisattva Lingjie recebeu Zhu Bajie com a calma de quem havia esperado esse visitante. Ouviu o relato, assentiu, e partiu imediatamente para a Montanha do Vento Amarelo com o passo de quem não precisa correr porque o universo colabora com os movimentos corretos.

Sua chegada curou os olhos de Sun Wukong primeiro — uma bênção específica, uma transferência de energia limpa que desfez o dano do vento em questão de momentos. Sun Wukong piscou várias vezes, viu o mundo novamente em toda a sua clareza extraordinária, e sentiu-se restituído de uma forma que era mais do que apenas física.

"Obrigado", disse ele a Lingjie, com mais singeleza do que era habitual nele.

"O demônio que causou esse dano", disse Lingjie, "é um ser que eu conheço. Há séculos, antes de eu tomar minha posição no Monte Sumeru, havia um rato sagrado que vivia no meu templo. Era um rato que havia acumulado poder de cultivo ao longo de eras por simplesmente viver em contato com o sagrado — não por esforço próprio, mas por absorção. Escapou e tornou-se o que é agora. É minha responsabilidade resolver isso."

Entraram na gruta do Rei Vento juntos, e desta vez a batalha foi diferente. Lingjie possuía um instrumento específico — uma bandeira de captura de vento que, quando desfraldada, neutralizava todos os ventos sobrenaturais do demônio.

O Rei Vento, descoberto de sua arma principal, era um adversário ordinário. Sun Wukong não demorou.

Tang Sanzang foi encontrado no fundo da gruta — maltratado mas vivo, tendo passado a noite rezando com a perseverança que havia se revelado um dos seus recursos mais sólidos. Quando viu Sun Wukong, seus olhos se encheram de alívio que era mais do que pessoal — era o alívio de alguém que havia acreditado que a ajuda viria e havia visto essa crença confirmada.

"Você ficou", disse Tang Sanzang.

"Disse que protegeria o mestre até o fim do caminho", disse Sun Wukong, com o tom prático de quem apenas reporta um fato.

Lingjie despediu-se com a brevidade de um ser que tinha outras responsabilidades cósmicas, e os três peregrinos saíram da Montanha do Vento Amarelo na luz da tarde com a sensação coletiva de sobreviventes que haviam aprendido algo.

Zhu Bajie, que havia carregado a expedição de socorro com eficiência inesperada, caminhou com um passo ligeiramente mais alto do que o habitual.

Sun Wukong notou isso e não disse nada. Era o tipo de reconhecimento silencioso que, na linguagem específica daquela companhia improvável, valia mais do que qualquer elogio verbal.


Havia também, naquelas semanas de jornada, descobertas físicas da terra que percorriam que eram elas mesmas ensinamentos de uma espécie diferente.

Montanhas que não estavam nos mapas imperiais. Rios sem nome que corriam por vales onde nenhum ser humano havia estado em gerações. Florestas onde as árvores cresciam em formas que sugeriam séculos de crescimento sem interferência — e onde, consequentemente, havia uma densidade de vida que as florestas próximas de aldeias raramente preservavam.

Numa dessas florestas, numa tarde de luz filtrada verde pelos galhos altos, Tang Sanzang desceu do cavalo e ficou parado por um momento simplesmente ouvindo.

Os pássaros. O vento nos galhos. O murmúrio distante de um riacho. O som específico que uma floresta faz quando está intacta e sabe disso.

Wukong ficou parado ao lado do Mestre, o que era em si mesmo incomum — raramente parava exceto para batalha ou para receber instrução.

"O que é isso?" perguntou ele em voz baixa, para não perturbar o que estivesse a acontecer.

"Presença," disse Tang Sanzang. "O mundo antes de ser nomeado."

Wukong ficou quieto com isso. E depois, de forma que era nova para ele, simplesmente ficou parado e ouviu também — não procurando ameaças, não calculando nada, apenas presente naquele som que era a floresta sendo a floresta.

Foi breve. Bajie chegou do lado onde estava verificando se havia algo comestível nas imediações e o momento se dissipou com a naturalidade com que esses momentos se dissipam.

Mas havia naquele breve estar-apenas-presente algo que Wukong guardou — não como memória explícita mas como experiência física que havia feito algo ao estado do seu corpo que ele notaria ausente nas próximas horas como se nota a ausência de algo que não tinha antes percebido como presente.

A jornada ensinava de formas que os ensinamentos formais raramente alcançavam. E Wukong estava aprendendo a deixar que isso acontecesse.


Naquela noite, acampados à beira de um riacho cujo nome nenhum mapa registrava, Sha Wujing preparou o fogo com a metodologia silenciosa que era sua marca — não lento, não rápido, mas exatamente eficiente — e Tang Sanzang sentou-se a observar as chamas com o tipo de contemplação que a estrada havia cultivado nele ao longo das semanas.

Zhu Bajie dormia já, com o abandono total ao descanso que era outra de suas características inegavelmente animais e inegavelmente invejáveis. Wukong estava em cima de uma pedra um pouco afastada, seus olhos dourados varrendo as sombras com o hábito vigilante que nunca o abandonava completamente, mesmo em momentos de aparente tranquilidade.

"Wukong," chamou Tang Sanzang em voz baixa.

O macaco desceu da pedra com a agilidade sem esforço que nunca deixava de impressionar e aproximou-se do fogo.

"Senhor?"

"O ancião da montanha disse que os demônios eram espelhos." Tang Sanzang olhou para as chamas. "Mas o que viste em Lindao que era teu?"

Era uma pergunta diferente das que o mestre costumava fazer — não sobre doutrina ou sobre o caminho, mas sobre Wukong especificamente. O macaco ficou em silêncio por um momento que era genuíno, não performático.

"A raiva," disse finalmente. "Quando ele me capturou. Não foi medo — foi raiva imediata, violenta. A sensação de que algo me era tirado e que eu não podia tolerar isso."

"A possessividade sobre a liberdade?"

"Algo assim. Ou sobre a capacidade de agir." Wukong olhou para suas próprias mãos, o bastão recolhido à orelha mas sempre presente como possibilidade. "Eu nunca aprendi a esperar graciosamente. Aprendi a escapar, a lutar, a transformar. Mas a esperar em cativeiro sem fazer nada —" parou.

"Os Cinco Elementos," disse Tang Sanzang com suavidade.

Wukong não respondeu a isso diretamente. Mas havia no silêncio que se seguiu o reconhecimento de que o mestre havia apontado para algo real — que os quinhentos anos sob a montanha eram ainda, de alguma forma, algo que se repetia na memória muscular do corpo sempre que a liberdade de movimento era ameaçada.

"E em mim," disse Tang Sanzang mais para si mesmo do que para o discípulo, "o demônio do Vento Amarelo mostrou-me o medo de ser esquecido. De atravessar todo este caminho e chegar ao Oeste e descobrir que as escrituras eram insuficientes para o sofrimento que prometia aliviar. Que eu teria vindo em vão."

Wukong olhou para o mestre com atenção nova. Era raro que Tang Sanzang nomeasse seus próprios medos tão claramente.

"Isso não acontecerá," disse ele.

"Não sabes isso."

"Não," admitiu Wukong. "Mas sei que o Buda Tathagata não enviaria Guanyin a procurar um peregrino para uma missão que fosse em vão. E conheço Guanyin suficientemente bem para saber que ela não escolheria um peregrino inadequado."

Era, pela lógica de Wukong, um argumento razoável. Tang Sanzang considerou-o com a seriedade que merecia.

"Talvez," disse finalmente. "Mas os espelhos mostram-nos não o que será, mas o que tememos. E o que temo, claramente, é a inutilidade."

Sha Wujing, que havia estado em silêncio do outro lado do fogo com a qualidade de presença que o tornava facilmente esquecível quando queria ser, disse então em voz calma: "Mestre, há um ensinamento que ouvi quando era guardião do Rio das Areias Movediças — antes de cair em desgrace. Dizia que a utilidade de uma jornada não se mede pela chegada mas pelo que o viajante se torna no percurso."

Tang Sanzang olhou para o terceiro discípulo com atenção renovada. Sha Wujing falava raramente, o que tornava cada palavra que pronunciava carregada de um peso diferente.

"Onde ouviste isso?"

"Num dos pescadores que paravam à beira do rio antes de perceberem que havia algo no fundo que os observava." Um movimento leve dos lábios que era o equivalente de Sha Wujing a um sorriso. "Eu era ainda o que era antes de conhecer o Mestre. Mas guardei as palavras."

O fogo crepitou. Zhu Bajie roncou softly.

"Boa noite, Mestre," disse Wukong eventualmente, e voltou para a sua pedra de guarda.

Tang Sanzang ficou ainda um momento olhando as chamas, com a expressão de quem havia recebido mais do que esperava de uma conversa que não havia sido planeada — e que reconhecia no grupo improvável que o cercava uma espécie de sabedoria que nenhum deles teria chegado a sozinho.