Capítulo 17: A Montanha do Vento Negro e o Urso Demônio
Sun Wukong invade a Montanha do Vento Negro para recuperar a capa roubada, enfrenta o Rei Urso Demônio, e Guanyin usa astúcia para capturar o demônio e transformá-lo em guardião.
A Montanha do Vento Negro tinha o nome adequado. O vento que soprava entre seus picos não era o vento comum das serras — era um vento com caráter próprio, que parecia escolher as direções que soprava baseado em alguma lógica só sua, fazendo redemoinhos inesperados nos vales e rajadas súbitas nos lugares mais inconvenientes.
Sun Wukong subiu a montanha na velocidade que só ele podia, usando a Nuvem da Cambalhota quando o terreno ficava mais difícil, parando ocasionalmente para examinar rastros ou cheiros que indicassem onde o demônio ladrão havia instalado sua morada. Não demorou muito — havia uma qualidade na energia da montanha que apontava para uma concentração específica de poder demônio na direção norte.
A gruta do Rei Urso era vasta e escura, com decorações que misturavam o gosto demônio por metais brilhantes com uma coleção inesperada de livros — o Rei Urso, descobriu Sun Wukong, era um demônio com pretensões intelectuais que havia organizado um festival de literatura para comemorar sua aquisição da capa e para exibi-la diante de um grupo seleto de monstros e espíritos das montanhas vizinhas.
Sun Wukong invadiu esse festival com a sutileza que era sua marca registrada — ou seja, com pouca.
O Rei Urso era grande, mais do que a maioria dos demônios que Sun Wukong havia encontrado, e sua arma — uma lança de ferro reforçada com magia — era de qualidade que exigia respeito. Lutaram no exterior da gruta enquanto os convidados do festival corriam em todas as direções.
O Rei Urso estava em vantagem no seu próprio território, com conhecimento do terreno e reservas de energia que eram consideráveis. Depois de várias rodadas sem conclusão decisiva, ele recuou para dentro da gruta e fechou a porta de pedra, negando-se a continuar o combate.
Sun Wukong bateu na porta, xingou em várias línguas, e eventualmente chegou à conclusão que precisava de ajuda diferente.
Dessa vez, ao invocar Guanyin, fez com mais respeito — relativo.
Guanyin chegou acompanhada do seu discípulo e ouviu o relato de Sun Wukong com aquela atenção que sempre o fazia sentir levemente desconfortável, como se ela estivesse vendo mais do que apenas o que havia sido dito.
"O Rei Urso", disse Guanyin, "tem potencial de redenção. Mas primeiro precisamos recuperar a capa."
"Concordo", disse Sun Wukong. "Como?"
"Astúcia", disse Guanyin, e havia algo no modo como disse essa palavra que Sun Wukong achou estranhamente satisfatório.
O plano era simples e elegante: Sun Wukong se transformaria numa pílula de elixir e Guanyin a entregaria ao Rei Urso disfarçada de um taosita que oferecia longevidade. O Rei Urso, com seu histórico de interesse intelectual, certamente ficaria curioso o suficiente para engolir a pílula.
Sun Wukong transformado em pílula de elixir foi engolido pelo Rei Urso.
Do interior do demônio, Sun Wukong começou a agir da forma mais direta que sua natureza sugeria — expandindo-se, girando, usando seus poderes de multiplicação para criar o máximo de desconforto possível num espaço extremamente limitado.
O Rei Urso rugiu e se contorceu enquanto Guanyin, lá fora, chamava-o a se render e a devolver o que havia roubado.
A rendição foi rápida.
A capa foi devolvida. E o Rei Urso — exausto, humilhado, e confrontado pela presença de uma Bodhisattva que havia claramente arquitetado todo o episódio com um propósito que ia além da simples recuperação de um objeto — ficou de joelhos com a cabeça baixa.
"Você tem dois caminhos", disse Guanyin com a gentileza que não excluía a clareza absoluta. "Pode continuar como está, ou pode aceitar uma função que lhe dá propósito e redime o karma acumulado. Escolha."
O Rei Urso escolheu. Tornou-se o Guardião do Sul na Ilha de Potalaka, o guarda montanhas que protegeria as terras de Guanyin com a força que havia usado antes para aterrorizar viajantes.
Sun Wukong retornou ao mosteiro com a capa, que entregou a Tang Sanzang com a eficiência de quem completou uma missão.
Tang Sanzang acolheu a capa contra o peito por um momento, olhando para o macaco que havia partido sozinho para recuperá-la e retornado — como sempre — sem um arranhão visível.
"Obrigado, Wukong", disse Tang Sanzang.
Sun Wukong encolheu os ombros. "Estava esperando que o demônio fosse mais difícil", disse ele.
Era a coisa mais próxima de um cumprimento que Sun Wukong sabia dar a si mesmo.
A visita à Montanha Potalaka havia sido também uma experiência que Wukong processou de maneiras que iam além do objetivo imediato de recuperar o manto.
Havia estado naquele lugar de Guanyin — o lugar de bambus que cresciam em padrões que não existiam em outras florestas, de flores que não tinham estação porque ali todas as estações coexistiam, de uma luz que vinha de dentro de tudo ao invés de de cima como luz comum.
E havia ficado diante do Bodhisattva e narrado o problema com a honestidade direta que era sua forma natural de comunicação — o bastão havia ajudado, a batalha havia chegado a impasse, não sabia como resolver sem risco ao objeto que precisava recuperar.
Guanyin havia ouvido sem julgamento e proposto uma solução que dependia de criatividade e coordenação em vez de força. Havia ensinado sem ensinar explicitamente — pelo próprio exemplo de como abordava um problema que força não resolveria.
E havia também, naquele encontro, algo que Wukong notara mas demorou a formular: Guanyin o tratava como alguém capaz. Não como alguém que precisava ser controlado ou direcionado por meio de punição — mas como alguém que, dado o contexto e as ferramentas certas, seria capaz de fazer o que precisava ser feito.
Era um tipo de confiança que criava resposta diferente do que a desconfiança criava.
Havia algo que Tang Sanzang também fazia — numa escala menor, com os instrumentos do dia a dia — e que produzia o mesmo efeito. Mesmo o feitiço do diadema, que poderia ter sido apenas instrumento de controle, era usado com uma contenção que comunicava: isso não é o que quero que seja necessário.
As criaturas que cuidavam dele — Guanyin que havia preparado a jornada, Tang Sanzang que o conduzia através dela — faziam-no com uma forma de respeito que havia poucos precedentes na vida anterior de Wukong.
Era desconcertante. Era também, gradualmente, algo parecido com gratidão.
Uma emoção que Sun Wukong estava aprendendo, palavra por palavra e gesto por gesto, a reconhecer e depois, mais devagar ainda, a expressar.
O Espírito do Urso Negro havia sido libertado de si mesmo — essa era a forma como Wukong veio a enquadrar o que havia acontecido naquele encontro, nas semanas que se seguiram enquanto a memória assentava e revelava camadas que a ação imediata não havia permitido ver.
O demônio havia roubado o manto por cobiça, por desejo de possuir algo belo. Era um motivo compreensível de uma forma que outros motivos de demônios não eram — não malícia cosmológica, não desejo de destruição, mas simplesmente querer ter algo que havia visto e achado bonito.
Havia nisso algo quase trágico: a natureza que o aprisionava era menor do que o que ela ansiava. Queria o manto, mas não compreendia que o que o manto simbolizava — o caminho do Buda, a renúncia das posses em favor da libertação — era precisamente incompatível com ser possuído.
Guanyin, ao dar ao urso uma nova função em vez de simplesmente destruí-lo, havia operado uma transformação que força não poderia ter operado. Havia encontrado a lacuna entre o que o urso era e o que o urso poderia ser, e havia inserido uma possibilidade nessa lacuna.
Wukong pensou nisso enquanto o grupo retomava o caminho na manhã seguinte, o manto sagrado cuidadosamente guardado entre os pertences de Tang Sanzang.
"Mestre," disse depois de algum tempo de estrada silenciosa, "o Bodhisattva poderia ter simplesmente destruído o demônio. Por que não o fez?"
Tang Sanzang respondeu sem hesitar, como se também tivesse estado pensando na mesma coisa. "Porque destruir um ser que se pode transformar é desperdiçar uma possibilidade. Guanyin vê não o que os seres são mas o que podem vir a ser."
"É uma visão perigosa," observou Wukong. "Às vezes os seres não se transformam. Às vezes a segunda chance é apenas mais uma oportunidade de causar dano."
"É verdade. Há uma sabedoria que consiste em discernir quais possibilidades de transformação são reais e quais são apenas esperanças vãs." Uma pausa. "Guanyin tem esse discernimento de formas que nós dois não temos ainda."
Wukong considerou o nós dois. Era uma admissão do mestre de uma limitação compartilhada que era também, implicitamente, um convite a que continuassem a desenvolver esse discernimento juntos.
"Como se aprende isso?" perguntou Wukong.
"Prestando atenção ao que acontece depois. Ao longo do tempo." Tang Sanzang olhou para a estrada à frente. "É uma aprendizagem que requer tempo suficiente para ver os resultados."
"Tempo que eu tenho," disse Wukong depois de um momento — e havia nessa afirmação uma dimensão particular, dado o que seiscentos anos de vida incluíam.
Tang Sanzang sorriu — não o sorriso de complacência de professor com aluno que acertou, mas o sorriso de dois seres reconhecendo em conjunto algo que era maior do que qualquer um dos dois.
Zhu Bajie, que estava suficientemente à frente para presumivelmente não ouvir mas que tinha as orelhas demasiado grandes para que isso fosse literalmente verdade, comentou para o ar à sua frente: "Enquanto conversam sobre sabedoria eu carrego as bagagens. O equilíbrio desta expedição é notável."
Sha Wujing, ao lado de Bajie, reprimiu algo que poderia ter sido um sorriso.
E a jornada continuou com a qualidade específica de momentos que parecem ordinários mas são, de alguma forma que só se percebe mais tarde, formativos — os tipos de conversas e companherismos que constroem não apenas confiança mas o tecido de uma experiência compartilhada que nenhum dos participantes poderia ter alcançado sozinho.