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Capítulo 16: O Templo de Guanyin e a Capa Roubada

Tang Sanzang para num mosteiro budista onde o abade idoso cobiça a capa sagrada do peregrino. Um demônio urso rouba a capa durante um incêndio provocado pelo abade ciumento.

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O Mosteiro de Guanyin ficava no sopé de uma serra coberta de pinheiros centenários, e à primeira vista parecia o tipo de lugar que inspira paz genuína: paredes encaladas do branco levemente creme da cal velha, telhados curvados com sinos de bronze que tilintavam no vento de forma que parecia mais composição do que acaso, jardins perfumados com incenso e com flores de estação que alguém havia plantado com intenção de beleza e não apenas de ornamento. Tang Sanzang sentiu o coração se aquecer ao vê-lo da curva da estrada, aquele calor específico que templos bem cuidados sempre lhe provocavam — um reconhecimento de que havia ali pessoas que se esforçavam pela mesma coisa que ele, que dedicavam sua vida à mesma direção, e que esse esforço deixava marcas visíveis nas pedras e nas plantas e no cheiro do ar.

Sun Wukong não compartilhava necessariamente dessa reação, mas reconhecia a necessidade de abrigo para a noite e ficou em silêncio enquanto desciam a estrada em direção ao portão principal do mosteiro, que tinha dois leões de pedra na entrada com a expressão de quem guarda algo que vale a pena guardar.

Os monges que saíram para recebê-los eram hospitaleiros com o entusiasmo um pouco excessivo de quem raramente recebe visitas de fora e se compensa quando elas chegam. Apressaram-se com o barulho usual de cadeiras sendo arrastadas e chá sendo preparado e ordens sendo dadas a novatos que corriam sem direção certa. O abade do mosteiro — um ancião que Tang Sanzang estimou em seus duzentos e tantos anos de cultivo, de rosto que havia o engano de ser gentil quando era apenas velho, de mãos que carregavam os calos de décadas de prática religiosa mas também os anéis que um homem de gosto acumulou ao longo de vida longa — veio pessoalmente para cumprimentar os viajantes com a hospitalidade elaborada dos que sabem que hospitalidade elaborada cria obrigação recíproca.

Ficou claramente impressionado com Tang Sanzang. Impressionado genuinamente, primeiro — havia no jovem monge peregrino uma qualidade de prática que o ancião reconhecia porque havia buscado a mesma coisa durante séculos com sucesso parcial. Conversaram por horas sobre sutras e sobre os commentários dos patriarcas e sobre a diferença entre a prática em ambiente favorável e a prática em situação adversa, com o prazer de dois especialistas que raramente encontram interlocutores de nível equivalente.

O abade era culto. Era, Tang Sanzang concluiu, genuinamente dedicado. E havia no seu olhar, ao longo de toda a conversa, uma cobiça que não era do corpo mas que era cobiça igualmente — a cobiça do espírito que quer possuir, acumular, ter, que havia sobrevivido a séculos de prática religiosa como sobrevive sempre, protegida pelo manto de virtude, invisível para si mesma.

Então, inevitavelmente, chegou o momento em que o abade perguntou se o peregrino não traria algum objeto sagrado na sua bagagem de tão longa jornada — a pergunta formulada com a leveza de quem pergunta apenas por cortesia, quando na verdade havia planejado aquela pergunta desde o momento em que viu Tang Sanzang entrar pelo portão.

Tang Sanzang hesitou. Era uma hesitação genuína — havia nele uma generosidade que tornava difícil recusar qualquer pedido que viesse com a aparência de devoção genuína. Sun Wukong, que havia estado sentado num canto com o bastão nas mãos e a expressão de quem acompanha uma peça de teatro cuja conclusão já imagina, advertiu mentalmente o mestre para não mostrar nada. A advertência mental não funcionou, como advertências mentais raramente funcionam.

Tang Sanzang abriu o baú.

A capa do peregrino — a cassock que o imperador Taizong havia mandado confeccionar com os melhores materiais do império, bordada com fios de ouro e fios de jade e pedras preciosas nos pontos onde a luz se concentrava, abençoada por monges de toda a Terra Tang numa cerimônia que havia durado três dias — saiu do baú numa aura de luz suave que iluminou todo o quarto como se uma segunda vela houvesse sido acesa de dentro do tecido. Não era luz milagrosa exatamente, mas era a luz acumulada de muita intenção concentrada num único objeto, e essa luz era visível para qualquer olho que houvesse aprendido a ver coisas de esse tipo.

O abade ficou estático.

Estático não é a palavra certa. O corpo do ancião ficou imóvel, sim — mas por dentro havia um movimento muito diferente de imobilidade. Os olhos se fixaram na capa com uma intensidade que Sun Wukong reconheceu imediatamente e catalogou, com a precisão dos Olhos de Ouro que viam através de qualquer disfarce, como desejo que havia ultrapassado a admiração e entrado no território da compulsão. Tang Sanzang, com sua tendência heroica e às vezes perigosa de interpretar tudo pelo melhor prisma possível, precisaria de mais tempo para perceber.

O abade pediu para examinar a capa de perto — as mãos levemente trêmulas ao tomar o tecido, os olhos percorrendo cada detalhe com a fome metódica de um especialista inventariando uma obra-prima. Pediu para tentar vesti-la, que fez com a lentidão deliberada de quem está saboreando. Perguntou se poderia mantê-la por uma noite, apenas uma noite, apenas para admirá-la à luz das velas antes de dormir, como poderia alguém negar tão pequeno pedido a um ancião devoto?

Tang Sanzang, cuja generosidade era completamente real e completamente perigosa, estava a ponto de concordar com aquele sorriso de quem acha razoável o que lhe pedem quando Sun Wukong o tomou pelo braço com uma firmeza que não era violenta mas que não admitia discussão e o levou para o corredor.

"Mestre", disse Sun Wukong com a paciência específica de quem está tendo que explicar algo que considera óbvio para alguém cuja obviedade funciona diferente, "esse ancião está pensando em como nos matar enquanto dormimos para ficar com a capa."

Tang Sanzang abriu a boca para protestar. A expressão era a expressão de quem quer dizer que a interpretação é cínica, que a boa-fé deve ser presumida, que centuries de prática religiosa merecem o benefício da dúvida.

"Estou vendo", disse Sun Wukong, e havia no tom a frieza de uma afirmação factual em vez de uma opinião, "a qualidade exata do pensamento que ele está tendo agora. É minha habilidade — consigo ver isso. Não vai nos matar pessoalmente — tem duzentos e tantos anos e não está em forma para isso. Mas tem discípulos suficientes e determinados o suficiente, e essa capa está perturbando seu equilíbrio espiritual de forma que séculos de prática não conseguiram prevenir."

A capa já havia sido entregue ao ancião para a noite. Recusá-la agora seria criar uma ofensa que poderia criar problemas iguais.

Naquela madrugada, após se certificar de que Tang Sanzang dormia com o sono pesado de quem viajou muito e comeu pouco durante dias, Sun Wukong saiu discretamente, transformou-se numa abelha de asas silenciosas, e foi confirmar o que já sabia: o abade estava no seu gabinete com os principais discípulos, a capa estendida sobre a mesa entre eles, discutindo com a franqueza que a madrugada empresta aos planejamentos tortos a melhor forma de eliminar os peregrinos enquanto dormiam. A solução proposta foi colocar fogo no quarto onde os viajantes dormiam — o fogo consumiria tudo, os peregrinos, as evidências, e a capa ficaria como herança justa de um acidente trágico.

A ironia que Sun Wukong instalou na situação era da variedade que apreciava: transformou-se de volta em si mesmo, soprou com os pulmões de ferro que havia cultivado numa prática de respiração que poucos seres do cosmos igualariam, e criou uma redoma de ar em torno do quarto de Tang Sanzang enquanto o fogo que os discípulos atearam se espalhava pelos outros cômodos do mosteiro com a liberdade que o vento lhe dava.

O mosteiro ardia.

Mas no caos do incêndio, no tumulto de monges correndo, de sinos soando ao contrário, de fumaça colorida de laranja e cinza subindo para o céu noturno — no meio de tudo isso, algo deu errado fora dos planos de Sun Wukong.

Um demônio que habitava a Montanha do Vento Negro, vizinha ao mosteiro, acordou com o clarão do fogo no céu e veio investigar com a curiosidade específica das criaturas que encontram nas desgraças alheias oportunidade de vantagem própria. Era um urso — ou havia sido urso em algum momento anterior da sua história, antes que séculos de cultivo o tornassem algo que o urso era apenas o substrato. Enorme, de pelagem preta que absorvia a luz do incêndio em vez de refleti-la, com olhos que tinham a frieza calculada da inteligência sem escrúpulo.

No tumulto, enquanto Sun Wukong soprava contra as chamas que ameaçavam o quarto do Mestre, o urso entrou pelo lado oposto do mosteiro que ainda não ardia, encontrou o gabinete do abade onde a capa havia ficado sobre a mesa, e desapareceu nas trevas antes que qualquer olho — humano, divino ou simiano — pudesse segui-lo.

Quando o sol nasceu sobre o mosteiro parcialmente destruído, Tang Sanzang estava vivo. O abade ganancioso estava de joelhos no pátio principal, envolvido em fumaça e humilhação, os discípulos ao redor com aquela expressão particular de quem participou de algo que não deveria e agora carrega o peso do remorso misturado ao alívio de ter sobrevivido. A capa sagrada havia desaparecido.

"Bem", disse Sun Wukong, sem entusiasmo mas também sem exasperação — havia nele, naquele momento, uma determinação que era mais quieta do que a determinação barulhenta que era sua forma habitual, "então vou buscá-la."

Tang Sanzang olhou para os escombros fumegantes do que havia sido um mosteiro respeitável e sentiu o peso familiar da complicação — a forma como as coisas boas criam alvos, como a beleza atrai as forças que querem consumi-la. "E o mosteiro?", perguntou, porque não conseguia olhar para os monges mais jovens no pátio sem ver que eles também eram vítimas de algo que havia começado no coração do seu mestre e se espalhado.

"O abade vai reconstruir", disse Sun Wukong. "Vai ser bom para seu caráter."

Não era exatamente compaixão, mas tinha uma lógica que Tang Sanzang não conseguiu rebater completamente. O fracasso honesto às vezes ensina o que o sucesso nunca conseguiria. E havia algo naquele homem de duzentos e setenta anos ajoelhado na cinza do que havia feito que era o começo de um entendimento que poderia ser mais duradouro do que qualquer sutra copiado por sua mão.


Havia também a questão dos serventes do mosteiro — monges mais jovens que haviam seguido as ordens do abade com o automatismo dos que foram treinados a obedecer antes de serem treinados a discernir. Estavam agora numa posição difícil: tinham participado de algo errado por obediência a um mestre que havia errado.

Tang Sanzang convocou todos ao pátio principal antes de partir, entre as paredes negras de fumaça e os telhados parcialmente destruídos que o fogo havia deixado. Falou com eles durante algum tempo com aquela qualidade de presença que tornava as palavras dele diferentes das palavras de outros — não mais eloquentes necessariamente, não mais elaboradas, mas ditas com uma atenção às pessoas na sua frente que as pessoas na sua frente sentiam como atenção real, que chegava antes de qualquer julgamento.

"Obedecestes às ordens do vosso abade", disse ele. "E obediência ao mestre é virtude quando o mestre está no caminho certo. Mas há uma obediência que está acima de todos os mestres humanos — ao próprio sentido de certo que cada ser carrega dentro de si, aquilo que os textos chamam de buddha-natureza mas que os corpos conhecem como o desconforto que sente antes de fazer o que não devia ser feito. Quando esses dois entram em conflito, é necessário discernimento. E discernimento é o que todos os anos de prática deveriam cultivar."

Os monges ouviram com a atenção concentrada de quem está aprendendo alguma coisa que precisava ter aprendido antes de que precisasse usá-la, e a ausência da aprendizagem custara caro.

"O vosso abade encontrou o caminho de volta nesta noite", continuou Tang Sanzang. "Encontrou-o da forma mais dolorosa, o que significa que provavelmente ficará com ele mais tempo. Este também é um ensinamento — que errar não é o fim do caminho, mas uma parte do caminho. O que fazemos depois do erro é o que determina quem somos."

Wukong, parado ao lado da porta com o bastão equilibrado no ombro, ouviu isso com aquela atenção específica que eram os momentos em que o Mestre dizia algo que se aplicava a contextos muito além do imediato.

O que fazemos depois do erro é o que determina quem somos.

Havia em sua própria história erros de escala que tornavam o erro do abade ganancioso uma questão de proporção: o saque do jardim dos pêssegos, com os valores de anos de cultivo destruídos numa tarde de apetite. O banquete celestial arrasado. O elixir de Laozi consumido numa refeição que levaria séculos de humanos a recriar. O caos no Palácio Celestial que havia forçado a intervenção do próprio Buda e resultado em quinhentos anos de imobilidade sob a pedra.

E agora estava numa jornada. Que era, em certo sentido, exatamente o que fazia depois dos erros.

Não havia pensado nessa estrutura antes com tanta clareza. Mas encaixava-se numa posição que fazia todo o restante — a dificuldade dos primeiros dias com o Mestre, o diadema que doía como punição e funcionava como guia, os conflitos que surgiam quando seu impulso e o julgamento do Mestre divergiam — encaixar de um jeito diferente.

Estava aqui não apesar de tudo o que havia feito, mas em parte por causa disso. O caminho para este ponto passava por todos aqueles pontos, e sem aqueles pontos este ponto não existiria.

Era uma compreensão pequena e imensa ao mesmo tempo. A capa precisava ser recuperada. O demônio urso precisava ser enfrentado. A jornada continuava.

Mas o homem que seguia essa jornada era ligeiramente diferente do homem que havia começado a jornada. E a estrada do Oeste ainda se estendia à frente com toda a sua extensão promissora, com todos os seus perigos e todas as suas transformações aguardando a ser atravessados.