Capítulo 15: O Dragão que se Tornou Cavalo
Um dragão príncipe devora o cavalo de Tang Sanzang no Rio das Águias de Serpentes. Guanyin intervém e transforma o dragão no fiel cavalo branco do peregrino.
O Rio das Águias de Serpentes tinha esse nome por uma razão que os viajantes locais sabiam e raramente explicavam para os estrangeiros que passavam: em certas épocas do ano, quando as chuvas da montanha carregavam a terra das encostas para as águas e a temperatura baixava de repente ao entardecer, o rio ficava tão cheio de répteis que suas margens pareciam vivas, ondulando com um movimento próprio que não era da correnteza mas dos corpos entrelaçados de criaturas que haviam feito daquele rio seu território desde antes de qualquer mapa — desde antes, talvez, de qualquer nome que os humanos pudessem dar às coisas.
Era um lugar que exigia atenção.
Tang Sanzang e Sun Wukong chegaram ao rio numa manhã cinzenta, com a névoa ainda baixa sobre a água e o silêncio da madrugada tardia ainda presente entre as pedras da margem. O monge desembarcou do cavalo com os membros rígidos da noite mal dormida — havia acampado na encosta acima, num lugar sem abrigo, envolto na sua manta de lã que não era suficiente para o frio daquelas alturas. Sentou na margem sobre uma pedra plana enquanto Sun Wukong, sempre em movimento, sempre em busca de utilidade, foi procurar lenha para um fogo que aquecesse a manhã e talvez algo de comida.
Tang Sanzang observava a água escura com a atenção que dedicava a todas as coisas naturais — não a atenção de quem quer usar mas a atenção de quem está presente. Havia algo naquele rio que era profundo de uma forma que não se media em braças. A cor da água era de chumbo levemente esverdeado, o tipo de cor que sugere profundidade e temperatura baixa e coisas que se movem no fundo. As pedras das margens tinham uma umidade que não era apenas da madrugada mas permanente, como se aquelas pedras nunca vissem luz direta de sol.
Não durou muito.
Saiu do rio com a velocidade de uma catapulta disparada de dentro da terra — não como um animal que emerge, mas como um projétil que o fundo do rio lançou com uma força calculada, uma explosão de água e escamas e dentes que abarcou o espaço entre o fundo e a superfície em um segundo, e o cavalo branco que estava amarrado à árvore na beira simplesmente não existia mais. Não houve grito do animal, não houve som de resistência. O silêncio depois foi mais pesado do que o silêncio antes.
Tang Sanzang ficou olhando para o lugar onde o cavalo havia estado — a corda ainda presa à árvore, apenas a corda, balançando levemente — com a expressão de alguém que está processando uma informação que não entra imediatamente no entendimento. A mente humana resiste ao impossível, e a desaparição súbita de um ser vivo é sempre, na primeira instância, incompreensível.
Sun Wukong voltou com a lenha a tempo de ver apenas as últimas ondulações na superfície do rio, círculos que se alargavam do ponto de entrada e chegavam às margens com a suavidade enganosa das coisas que foram violentas no centro. Quando Tang Sanzang lhe explicou o que havia acontecido — com a voz de alguém relatando um fato que preferia não ter de relatar, com a precisão de quem se esforça para manter os sentimentos fora das palavras para que as palavras cheguem claras — a expressão do macaco passou rapidamente por vários estados emocionais. Raiva, que era sempre o primeiro. Determinação, que vinha sempre logo depois. E uma certa satisfação antecipada, a satisfação específica de quem tem poder e encontrou algo em que gastá-lo.
"Vou buscá-lo", disse Sun Wukong.
"O cavalo já foi", disse Tang Sanzang com a tristeza quieta de um homem que está começando a contabilizar suas perdas — os dois discípulos devorados por tigres no começo da jornada, e agora o cavalo que havia sido seu único companheiro constante nas semanas de estrada solitária.
"O que ficou do cavalo ficou no estômago de alguma coisa", disse Sun Wukong, que tinha uma visão irreverentemente prática da morte e da digestão. "E essa coisa tem que pagar."
Mergulhou no rio antes que Tang Sanzang pudesse responder.
O monge ficou na margem olhando para a superfície onde os círculos haviam se dissolvido completamente, e havia no ar ao redor daquele rio algo que não era apenas o cheiro de água parada e lama fria. Era algo mais antigo, mais denso — o cheiro de séculos de criaturas vivendo e morrendo no mesmo lugar, de uma história que não estava nos sutras que ele carregava mas que era igualmente real, igualmente parte do tecido do mundo.
Rezou.
Não era oração de pedido — era oração de presença, de dizer aqui estou, aqui está o mundo, que as coisas sejam como devem ser. Era a única oração que entendia completamente, a única que havia descoberto ser honesta sem qualificação.
O que havia no fundo do Rio das Águias de Serpentes era um dragão jovem — o Terceiro Filho do Rei Dragão do Mar Ocidental, que havia cometido o crime de queimar acidentalmente uma pérola celestial no palácio do seu pai durante um banquete de primavera. A pérola havia sido um presente ancestral do tipo que não se fabrica mais, guardada por gerações de dragões do mar como o tipo de tesouro que tem mais valor por ser insubstituível do que por qualquer virtude intrínseca. Queimá-la por descuido havia sido o tipo de erro que os pais não perdoam não porque não amem o filho mas porque a humilhação da perda de prestígio supera o amor, que é a tragédia específica dos reis de todos os tipos.
Exilado naquele rio como punição, aguardando a penitência designada pelo Tribunal do Céu, o jovem dragão havia sobrevivido comendo o que passava pela superfície — animais que vinham beber, aves que pousavam nas pedras, raramente um humano imprudente, e aquele cavalo branco que havia sido a refeição mais substancial em meses, suficientemente saborosa para que o dragão nem se perguntasse sobre a procedência do animal antes de engoli-lo.
A batalha no fundo do rio foi curta e vigorosa e inconclusa da forma específica das batalhas em que um dos contendores tem a vantagem do terreno. Sun Wukong havia batalhado com dragões antes — havia batalhado com o Rei Dragão do Mar Oriental para obter o Bastão de Ouro, havia batalhado com deuses e generais e criaturas de poder consideravelmente superior ao de um príncipe exilado. Mas o jovem dragão conhecia cada pedra daquele fundo, cada corrente, cada gruta, e recuou para um recesso profundo do qual não havia como ser extraído sem demoli-lo completamente, o que teria inundado o vale inteiro.
Sun Wukong voltou à superfície com a expressão específica de quem precisa de ajuda profissional e tem a humildade de reconhecer isso.
Chamou Guanyin.
Mais precisamente: berrou o nome de Guanyin para os céus com um volume que fez Tang Sanzang olhar ao redor esperançoso e preocupado ao mesmo tempo, com a inventividade vocabular de um ser que passou séculos sem ter com quem falar e acumulou, nesse silêncio, considerável estoque de palavras que esperavam uso. Continuou berrando, com variações, com repetições, com paciência ruidosa, até que o céu mudou.
Não foi uma mudança dramática — não houve trovão nem luz sobrenatural. Foi uma mudança de qualidade do silêncio ao redor, como quando a temperatura de um quarto muda sem que nenhuma janela se abra. E Guanyin estava ali, na beira do rio, como quem sempre havia estado ali e simplesmente deixado de ser invisível.
"Sun Wukong", disse Guanyin, com a paciência considerável de alguém acostumado a ser convocada de formas subótimas e que havia aprendido a não deixar que a forma contaminasse o conteúdo da resposta, "existe uma maneira mais respeitosa de invocar um Bodhisattva."
"Existe um dragão no fundo desse rio", disse Sun Wukong, com a destreza de quem redireciona a conversa antes de ela tomar direções inconvenientes, "que comeu o cavalo do meu mestre."
"Eu sei", disse Guanyin. "E isso era parte do plano."
Sun Wukong parou. Piscou — não de confusão, porque Wukong era raramente confuso, mas com aquele piscar específico de quem estava pronto para uma resposta e recebeu outra completamente diferente. "Como assim, parte do plano?"
Guanyin desceu até a margem do rio, seus pés tocando as pedras molhadas sem criar som algum, e chamou as águas. O tom que usou era diferente do tom que usara com Sun Wukong — menos paciente, mais diretivo, com a autoridade específica de alguém que havia colocado aquele ser naquele lugar com um propósito determinado e que agora chegava ao momento para o qual todo o restante havia sido preparação.
O dragão emergiu das águas com a cautela de um ser que sabe que foi convocado por uma autoridade superior e que avalia, enquanto emerge, o grau de problema em que está. Tinha uma beleza feroz — escamas azul-escuras com reflexos que mudavam com o ângulo da luz, olhos dourados com pupilas verticais, chifres como raízes de uma árvore muito antiga. Sun Wukong o observou com o olhar apreciativo de um combatente que reconhece qualidade num adversário.
O dragão se transformou.
Não foi processo gradual. Foi transformação súbita e completa, como quando se vira uma imagem de cabeça para baixo e o padrão que era caótico torna-se de repente compreensível: as escamas tornaram-se pêlo branco, os chifres e as garras desapareceram, a forma alargada e sinuosa comprimiu-se na compactação elegante de um equino de raça. Em pé na margem do rio, onde havia estado um dragão, estava agora um cavalo branco de aparência impecável — branquíssimo, com a crina levemente agitada pelo vento do rio, com os olhos que ainda tinham, se se olhasse com atenção suficiente, um traço daquela profundidade que não era de cavalo.
"Este é Yulong, o Dragão Príncipe Branco", disse Guanyin para Tang Sanzang, que havia se aproximado em silêncio durante todo o processo e que agora estava de pé entre os dois outros observando o cavalo com aquela qualidade de atenção que não era apenas admiração mas reconhecimento. "Ele foi colocado neste rio exatamente para este momento — para se tornar seu cavalo e carregá-lo até o Grande Templo do Trovão. O cavalo que você trouxe de Chang'an era um cavalo excelente para os caminhos da Terra Tang. Mas o caminho que ainda vem pela frente é outro tipo de caminho, que exige outro tipo de companheiro. Este resistirá ao que está por vir."
Tang Sanzang olhou para o cavalo branco por um longo momento. Havia em seus olhos algo que iam além da avaliação prática de um animal de trabalho — havia a qualidade específica do seu olhar, que nunca conseguia reduzir nenhum ser à sua função, que sempre via além do papel para o ser que desempenhava o papel.
"Obrigado", disse ele ao cavalo, com a mesma seriedade com que teria agradecido a qualquer companheiro de jornada que houvesse feito um sacrifício por sua causa. O cavalo — o dragão — inclinou a cabeça levemente, e havia nesse gesto algo que era mais do que comportamento equino treinado. Era o reconhecimento de um ser que havia sido visto.
Sun Wukong observou todo esse processo com a expressão de alguém que está reavaliando, silenciosamente, suas opiniões sobre a competência administrativa de certos Bodhisattvas.
"Então o cavalo estava planejado desde o início", disse ele.
"Muitas coisas nesta jornada estavam planejadas desde antes do início", disse Guanyin com aquele sorriso que era menos expressão facial e mais qualidade de presença, a calma de quem vê o arco completo de algo quando os outros veem apenas o trecho onde estão pisando. "Mas planejado não significa fácil. A jornada ainda precisa ser feita, passo a passo, com todo o esforço que o esforço exige. O plano fornece o destino. O caminho até lá é de vocês."
Partiu assim que terminou de falar — sem cerimônia, sem indicação prévia, simplesmente não estava mais lá — e os três companheiros ficaram na margem do Rio das Águias de Serpentes na manhã que havia se tornando mais brilhante durante a conversa, a névoa levantada, as pedras da margem brilhando com umidade ao sol.
O monge no seu novo cavalo branco que era um dragão.
O macaco imortal com o Bastão de Ouro.
E o horizonte ocidental estendendo-se à frente deles como uma promessa que nenhum dos dois havia feito mas que ambos reconheciam como real.
Continuaram.
A região além do Abismo do Serpentário tinha uma qualidade diferente da paisagem que haviam atravessado antes — mais árida, com picos de rocha vermelha que se erguiam em formações irregulares como dedos de uma mão gigante emergindo da terra, como se a própria terra fizesse um gesto que ela mesma não podia completar. O céu acima era de um azul mais intenso do que o normal, como se a altitude tivesse algo a ver com a saturação das cores, ou como se naquele lugar específico o azul houvesse decidido ser mais completamente o que era.
Tang Sanzang recitava enquanto o cavalo branco o carregava com aquele passo constante e elegante que não era o passo trabalhoso de um animal carregando peso mas o passo fluído de um ser que não sente o peso de um humano como peso porque carrega coisas mais pesadas por natureza. O som dos sutras na voz do monge tinha uma qualidade que Wukong havia começado a perceber como ambiente — não distraindo, não obrigando à participação, mas presente como o murmúrio de um riacho que acompanha uma caminhada pela floresta, parte do lugar e não intrusão sobre ele.
Havia, percebeu Wukong numa tarde naquelas pedras vermelhas, algo no som dos sutras que agia no próprio estado interno de quem ouvia. Era difícil de identificar com precisão — não era que as palavras faziam sentido completo para ele; muitas das referências ainda eram obscuras, os nomes dos patriarcas e dos reinos, os sistemas de correspondência entre o cosmos e a prática humana. Mas havia uma qualidade no ritmo, na estrutura da entonação, na forma como o monge sustentava certas sílabas e acelerava ligeiramente em outras, que criava um estado diferente do estado de alerta permanente que era seu padrão.
Menos tenso. Não relaxado — havia uma diferença enorme entre os dois. Mais presente, talvez. Como quem ouve música e descobre que estava segurando a respiração sem saber.
"Mestre," disse ele numa tarde, quando as rochas vermelhas criavam sombras longas na estrada e o ar tinha aquele cheiro de pedra quente que ainda guarda o calor depois que o sol baixa, "quando recitais os sutras — o que sentis?"
Tang Sanzang considerou a pergunta com a seriedade que ela merecia, com o silêncio de quem realmente busca a resposta em vez de entregar a resposta pronta. O cavalo branco continuou com seu passo suave. As sombras das rochas cruzaram lentamente o caminho.
"Uma âncora," disse o monge por fim. "As palavras têm sido recitadas por tantos seres ao longo de tanto tempo, com tanta intenção, que carregam em si uma força acumulada que não pertence a nenhum deles individualmente mas que está disponível para todos. Quando as recito, não estou sozinho — estou numa linhagem que se estende para muito além de qualquer vida."
Wukong caminhou em silêncio com isso. "Uma linhagem."
"Como tua linhagem com o Patriarca Subhuti, que te ensinou o que sabe e que aprendeu de quem o ensinou antes. Como tua natureza que vem da pedra que vem do cosmos." Uma pausa, com a qualidade das pausas de quem escolhe a próxima palavra com cuidado verdadeiro. "Linhagem não é o passado fixo e acabado. É o presente que o passado torna possível."
Era uma ideia que Wukong não havia formulado antes com aquelas palavras mas que reconhecia como verdadeira — reconhecia da mesma forma que reconhecia um caminho que já havia percorrido mesmo que não se lembrasse de tê-lo percorrido, com o corpo antes da mente. Porque havia nele, desde sempre, a pedra da qual havia nascido, e a pedra havia absorvido o sol e a lua por incontáveis anos, e o sol e a lua eram expressões do cosmos, e quando empunhava o Bastão de Ouro havia naquele gesto toda a linhagem do cosmos inteiro condensada num único ser de olhos dourados no meio de uma estrada de montanha no ocidente do mundo.
Era uma maneira de ver que tornava cada passo mais pesado e ao mesmo tempo mais leve — mais pesado porque carregava o peso de tudo que havia vindo antes, mais leve porque esse peso não era fardo mas fundação.
O cavalo branco continuou. O sol baixou completamente. As primeiras estrelas apareceram sobre as rochas vermelhas, pequenas e precisas como pontas de agulha no tecido escuro do céu.
E os dois continuaram em silêncio, o monge e o macaco, numa estrada que se prolongava para o oeste sem mostrar ainda onde terminaria — mas que se prolongava, e isso era o suficiente.