Capítulo 12: Tang Sanzang Parte para o Ocidente
Tang Sanzang é escolhido para buscar as escrituras sagradas no Grande Templo do Trovão, recebe o manto e o cajado de peregrino e parte de Chang'an com a bênção do imperador.
O Grande Ritual pelos Mortos durou sete semanas e transformou Chang'an numa cidade de luz e cântico.
Tang Sanzang presidiu as cerimônias com a presença quieta e luminosa que havia marcado toda a sua vida de monge. Sua voz ao recitar as escrituras tinha uma qualidade que fazia os presentes fecharem os olhos involuntariamente, como se as palavras tocassem alguma corda interna que normalmente permanecia muda. Centenas de monges se reuniram no grande templo. Incenso subia em colunas até o céu. Lanternas flutuavam no rio pela noite adentro.
Foi no décimo terceiro dia do ritual que Guanyin apareceu.
Não como a Bodhisattva majestosa que apareceria em outros momentos da história — apareceu como um monge ancião de aparência comum, misturado entre os peregrinos que observavam as cerimônias. Mas quando abriu a boca e perguntou ao mestre pregador se ele ensinava apenas as escrituras menores do leste, quando havia escrituras maiores no ocidente, a voz que emergiu tinha uma qualidade que fez Tang Sanzang imediatamente descer do pódio de pregação.
"Onde estão essas escrituras?", perguntou ele.
O ancião — que Guanyin havia se transformado — explicou: no Grande Templo do Trovão, no extremo ocidente, morava o Buda Tathagata. Ali estavam os Três Cestos das Escrituras: o Cesto da Disciplina, o Cesto da Doutrina e o Cesto dos Tratados. Qualquer um que as trouxesse ao leste e as ensinasse com fidelidade abriria o caminho da libertação para incontáveis seres.
Tang Sanzang voltou-se para o imperador Taizong, que havia presenciado a troca com crescente intensidade.
"Eu irei", disse Tang Sanzang simplesmente.
O imperador olhou para aquele rosto — sereno, determinado, sem nenhum traço de medo disfarçado de coragem — e assentiu com uma solenidade que ia além do protocolo imperial.
"Você é meu irmão de dharma", disse Taizong, usando uma expressão que elevava o monge ao nível da família imperial. "Eu estarei esperando seu retorno."
Os dias que se seguiram foram de preparativos. O imperador mandou confeccionar um manto de viagem bordado com fios dourados que refletiam a luz como escamas de peixe. Um cajado de nove anéis de ferro que tilintavam a cada passo, anunciando a presença de um peregrino. Um chapéu de monge cerimonial. Uma carta imperial em papel de seda com o selo do dragão, pedindo passagem segura em todos os reinos e territórios que pudesse encontrar.
Na manhã da partida, Chang'an acordou mais cedo do que o costume. As ruas que levavam ao portão ocidental estavam repletas de pessoas — não pelo espetáculo, mas por algo mais difícil de nomear, um presentimento coletivo de que algo importante estava acontecendo, que aquele monge pequeno montado em seu cavalo branco era de alguma forma crucial para o mundo que habitavam sem saber.
O imperador Taizong esperou no portão da cidade com seus ministros e generais. Quando Tang Sanzang chegou montado, Taizong desceu do seu palanquim e se ajoelhou.
Um imperador se ajoelhando diante de um monge.
Os ministros trocaram olhares — alguns de surpresa, alguns de compreensão. Tang Sanzang desceu do cavalo imediatamente e foi ajudá-lo a se levantar, mas Taizong insistiu em oferecer primeiro a taça de terra que havia preparado.
"Carregue um pedaço da sua terra natal", disse o imperador. "Para que, nos momentos mais difíceis da jornada, você lembre que tem um lar para o qual voltar."
Tang Sanzang recebeu a terra, sentiu seu peso modesto nas palmas das mãos, e inclinou-se em gratidão profunda.
Depois montou novamente, voltou o rosto para o ocidente, e partiu.
Por um longo tempo, o imperador e seus cortesãos ficaram parados no portão observando a figura do monge diminuir na estrada que levava ao horizonte. Não havia palavras adequadas para o momento, então ninguém falou.
Tang Sanzang viajou pelos primeiros dias com dois jovens discípulos — monges que o acompanhavam como criados de jornada — pelas paisagens familiares do interior do império Tang. A estrada era boa, as aldeias hospitaleiras, os templos ao longo do caminho abriam seus portões com prazer para receber o peregrino imperial.
Mas havia uma linha invisível à frente, além da qual o mundo que Tang Sanzang conhecia simplesmente terminava.
Na primeira noite além dessa linha, num vale escuro onde a lua não chegava e os sons da floresta eram desconhecidos, os dois jovens discípulos foram levados por tigres.
Tang Sanzang ficou sozinho.
Sozinho, sem proteção, num mundo que não obedecia nenhuma das regras do mundo civilizado que havia deixado para trás. Ficou sentado na escuridão com o cajado de nove anéis no colo, ouvindo os sons ao redor com o coração batendo forte mas a mente surpreendentemente calma.
Não havia voltado. Não havia gritado por socorro. Havia ficado sentado, esperando.
Era esse tipo de coragem — não a coragem que não sente medo, mas a coragem que sente medo e permanece de qualquer forma — que havia feito o Buda escolhê-lo para esta missão.
De manhã, ele continuou.
O que Wukong havia dito ao camponês — "ainda estou descobrindo isso" — ficou com ele nos dias que se seguiram.
Era uma resposta honesta que ele raramente dava sobre coisa alguma. Wukong tinha opiniões e as expressava com uma clareza que não deixava muito espaço para nuança. "Ainda estou descobrindo" era o vocabulário da incerteza, e incerteza não era algo com que havia muito convívio na vida anterior do Rei dos Macacos.
Mas havia algo na jornada que produzia incerteza de um tipo que não era desconfortável — era o tipo de incerteza que aparece quando um horizonte se amplia além do que os olhos estavam acostumados a alcançar. Não a incerteza do perigo ou da derrota, mas a incerteza de não saber ainda o que você está se tornando.
Tang Sanzang havia colocado o diadema em sua cabeça e ele havia doído. Isso era real. Mas também era real que havia um motivo para o diadema existir — e o motivo não era punição, era proteção. Proteção não de inimigos externos mas de uma parte de si mesmo que, se operasse sem freio, destruiria precisamente o que estava ali para proteger.
Era um tipo de lógica que levava tempo para se tornar confortável.
Nos intervalos do caminho — na hora quieta antes do amanhecer quando Tang Sanzang recitava seus sutras e Wukong ficava sentado perto em silêncio, não meditando exatamente mas tampouco completamente fora do estado que a presença do Mestre criava —, algo estava sendo tecido que nenhum dos dois havia nomeado ainda.
Era o começo de um entendimento que só poderia ser construído passo a passo, obstáculo a obstáculo, e que ao fim seria tão forte quanto qualquer coisa que Wukong havia aprendido nas madrugadas da Caverna do Coração Oblíquo da Lua — mais forte, talvez, porque era aprendido não em silêncio mas em movimento, no mundo real, com as consequências reais de cada lição.
A jornada continuava. E cada passo era ele mesmo um ensinamento para quem soubesse estar presente o suficiente para recebê-lo.
O encontro com a velha senhora demônio naquele dia havia sido diferente dos bandidos do dia anterior de uma maneira que Tang Sanzang havia notado mas não comentado imediatamente.
Os bandidos haviam sido humanos — seres com história, com necessidades, com potencial de transformação real. A decisão de Wukong de agir imediatamente havia sido discutível não apenas por princípio mas por prática.
A velha senhora havia sido demônio — uma criatura cuja intenção era específica e cuja forma era enganosa precisamente para causar dano. A ação de Wukong havia sido tecnicamente correta.
E ainda assim havia algo no como que merecia atenção. A velocidade com que Wukong havia avaliado, decidido e agido era notável e eficaz. Mas havia um custo: a celeridade não deixava espaço para errar. E em situações ambíguas — onde o que parecia demônio poderia ser humano assustado, onde o que parecia ameaça poderia ser pedido de ajuda mal expresso — aquela velocidade poderia produzir erros irreversíveis.
Tang Sanzang havia, naquela tarde, abordado o tema de uma forma que era específica para Wukong: não como princípio geral mas como pergunta sobre o caso concreto. "Como sabes, nesse momento exato, que a criatura era demônio e não humana?"
Wukong havia respondido com a confiança de quem sabe a resposta: "Os olhos. A aura. Há uma qualidade de energia nas criaturas das trevas que os olhos de alperce reconhecem."
"E se os teus olhos errassem?"
"Raramente erram."
"Raramente não é nunca."
Havia sido aí que a conversa havia entrado num território mais produtivo — não de regras mas de epistemologia: como se sabe o que se sabe, e o que fazer com a possibilidade de erro.
Não chegaram a uma conclusão final. As questões que a jornada levantava raramente tinham conclusões finais. Mas havia o processo — a conversa, a disposição de examinar, a abertura ao questionamento que era em si mesmo uma forma de sabedoria que Wukong estava aprendendo a não apenas tolerar mas a encontrar genuinamente interessante.
Esse processo era, talvez, a própria jornada que estavam fazendo — não apenas no espaço externo de cem e oito mil li, mas no espaço interno de cada ser que caminhava aquela estrada.