Capítulo 11: A Visita ao Submundo e o Retorno do Imperador
O imperador Taizong visita o submundo, encontra os dez Reis do Inferno e seus ancestrais mortos, e retorna ao mundo dos vivos com uma missão religiosa a cumprir.
A alma do imperador Taizong deslizou para fora de seu corpo adormecido como fumaça saindo por uma janela entreaberta.
Ele se encontrou numa paisagem que era e não era o mundo que conhecia — os mesmos campos e estradas, mas tingidos de uma luz cinzenta que tornava tudo levemente irreal, como ver o mundo através de um véu de seda desbotada. Caminhou por um tempo que não tinha duração mensurável, desorientado e mais assustado do que havia estado em qualquer batalha da sua vida de guerreiro, até que ouviu uma voz chamando-o pelo nome imperial.
Era um funcionário do submundo — o julgador Cui Jue, que em vida havia servido na corte Tang e que na morte exercia o cargo de Juiz dos Registros na primeira câmara do submundo. Havia recebido uma carta do ministro Wei Zheng pedindo que tratasse o imperador com cortesia e facilitasse seu retorno.
O julgador Cui Jue o acompanhou com a eficiência polida de um guia experiente, mas o caminho até a presença dos dez Reis do Inferno não era direto. Havia câmaras a cruzar, portões guardados por guerreiros de faces terríveis, e em determinado ponto do trajeto, Taizong se viu face a face com vultos que reconheceu: seu pai, o fundador da dinastia Tang, e seus dois irmãos — homens que ele havia mandado matar numa disputa pelo trono anos atrás.
Os irmãos vieram com a raiva preservada dos mortos que não esqueceram as injustiças sofridas. Taizong recuou instintivamente, mas o julgador Cui Jue foi rápido o suficiente para interposicionar guardas entre eles.
"O passado não pode ser desfeito aqui", disse Cui Jue com gentileza firme, "mas pode ser reconhecido."
O Grande Salão dos dez Reis do Inferno era uma maravilha de terror e ordem ao mesmo tempo: dez tronos em semicírculo, cada um ocupado por uma figura de majestade sombria, com registros e livros empilhados até o teto e funcionários correndo de um lado para outro com urgência burocrática. Os Reis eram os Rei Qinguang, Rei Chujiang, Rei Songdi, Rei Wu'guan, Rei Yanluo, Rei Biancheng, Rei Taishan, Rei Dushi, Rei Pingdeng e o Rei da Roda da Reencarnação — os governadores dos dez estágios do julgamento pós-morte.
Eles receberam Taizong com uma reverência que o surpreendeu — um imperador dos vivos, mesmo aqui, ainda portava o peso de sua posição. Explicaram a situação com uma franqueza que só os mortos podiam ter com os vivos: o Rei Dragão do Rio Jing havia apresentado queixa, Taizong havia prometido proteção e não a conseguira fornecer, e havia um desafio moral que precisava ser resolvido.
"Mas também", disse o Rei Yanluo, com uma voz como trovão distante, "consultamos os registros. Sua Majestade deveria ter vivido treize anos de reinado. Ainda faltam vinte anos."
O julgador Cui Jue havia, com uma discreta manipulação dos registros — motivada pela carta de Wei Zheng e pela sua própria admiração pelo monarca — acrescentado dois zeros ao que restava do reinado de Taizong. O Rei Yanluo fingiu não notar essa irregularidade, ou talvez genuinamente não notasse, ou talvez os registros do destino tivessem mais flexibilidade do que a maioria das pessoas imaginava.
"Sua Majestade pode retornar", disseram os Reis em coro. "Mas há uma condição — não uma ordem, mas uma recomendação forte: que Sua Majestade patrocine cerimônias religiosas pelos mortos. Há muitas almas presas entre os mundos que não têm quem ore por elas."
Taizong concordou de imediato, com a sinceridade de alguém que havia visto o que estava prometendo remediar.
O caminho de volta foi longo à sua maneira — passando pelos tribunais das almas, pelas multidões de espíritos esperando julgamento, pelos rios de sofrimento que corriam entre as câmaras. O julgador Cui Jue garantiu-lhe melões e frutas para presentear as almas famintas que encontrassem — um gesto de cortesia ultraterrena que Taizong executou com a seriedade de alguém que sabia que cada gesto aqui tinha peso.
Quando a alma do imperador retornou ao seu corpo e Taizong despertou de um sono que havia parecido durar séculos mas durou apenas uma noite, seus conselheiros que haviam velado seu leito com crescente ansiedade exalaram de alívio coletivo.
Taizong ficou sentado por um longo momento, olhando para suas mãos como se as visse pela primeira vez. Depois chamou seus ministros.
"Precisamos organizar um Grande Ritual", disse ele. "Pelas almas dos mortos nas guerras de unificação. Por todos que morreram por nossas ordens ou omissões. Pelo Rei Dragão do Rio Jing. Por todas as almas que vi nessa noite que precisam de alguém que ore por elas."
E foi nesse contexto que Tang Sanzang — já famoso no império pela pureza de seu caráter e pela profundidade de seu conhecimento budista — foi convocado para presidir o ritual mais grandioso que a Terra Tang jamais havia organizado.
O destino estava se tecendo com a paciência de um artesão que trabalha em séculos, e cada fio que parecia acidental era na verdade uma parte do padrão maior.
O primeiro trecho da jornada foi percorrido em silêncio que não era constrangido mas era denso de presença — dois seres que acabavam de se encontrar e que eram completamente diferentes um do outro em quase todos os aspectos, caminhando lado a lado numa estrada que levava a algum lugar que nenhum dos dois havia visto.
Tang Sanzang observava seu discípulo com aquela atenção serena que era sua maneira de conhecer as coisas — não com perguntas imediatas mas com presença acumulada, deixando que a natureza das coisas se revelasse no próprio tempo delas.
Wukong observava o Mestre com aquela vigilância constante que havia sido sua por natureza e que havia passado quinhentos anos sem objeto adequado para ser aplicada.
"Discípulo," disse Tang Sanzang depois de alguns li de caminhada em silêncio, "há quanto tempo estavas aprisionado?"
"Quinhentos anos," disse Wukong.
"E como foram?"
Era uma pergunta que ninguém havia feito antes. Os macacos do monte não haviam perguntado — quando Wukong voltasse, seria o Rei, e reis não narram seus sofrimentos. Guanyin havia perguntado com delicadeza se estava bem, que era diferente de perguntar como havia sido. O Imperador de Jade certamente não havia perguntado.
Wukong caminhou em silêncio por um momento que era a duração de uma resposta genuína sendo formulada.
"Foram quinhentos anos de aprender a não precisar de nada além de existir," disse ele por fim. "Não é o tipo de aprendizado que escolheria voluntariamente. Mas também não foi inútil."
Tang Sanzang assentiu. E havia em seu aceno o reconhecimento de quem compreende que experiências que não escolheríamos são frequentemente as que mais nos formam.
"Será uma jornada longa," disse o monge.
"Sim."
"Haverá muitos obstáculos."
"Sim."
"E muitas oportunidades de aprender coisas que não escolheríamos aprender voluntariamente."
Wukong olhou para o Mestre de lado — aquele olhar avaliativo que era seu antes de qualquer outro gesto. E viu no rosto do monge aquele sorriso suave que guardava mais do que revelava.
"Mestre é esperto," disse Wukong.
"Apenas velho o suficiente para ter encontrado o padrão antes," disse Tang Sanzang.
E continuaram, a estrada do Oeste se estendendo à frente como uma história que não havia ainda decidido como terminaria.
A libertação do Monte dos Cinco Elementos foi um evento de uma discreta grandiosidade que nenhum dos dois soube completamente naquele momento.
Tang Sanzang havia subido ao cume da montanha — uma subida não trivial, pelas pedras empilhadas em ângulos que pareciam desafiar a lógica, com o vento frio fazendo voar as abas do manto vermelho e dourado — e havia chegado ao lacre de papel com o símbolo Om em ouro que o Buda havia colocado ali quinhentos anos antes.
Havia ficado parado diante daquele lacre por um momento.
Havia naquele papel, percebeu, não apenas um sigilo mágico — havia uma decisão. A decisão do Buda, há quinhentos anos, de que havia uma forma de transformar o caos de Sun Wukong em algo que servisse ao bem de incontáveis seres. Uma aposta no potencial de um ser que havia causado devastação imensa — uma aposta que quinhentos anos de espera havia sustentado.
Tang Sanzang removeu o lacre com as mãos juntas numa reverência. Não ao papel — ao que o papel representava. À confiança que o Buda havia depositado neste momento, nesta escolha, neste monge que havia percorrido o caminho desde Chang'an até este monte.
A montanha tremeu. As pedras se moveram.
E Sun Wukong saiu das entranhas da terra — não enfraquecido, não diminuído, mas diferente. Havia nos seus olhos dourados algo que não estava lá antes. Uma profundidade que quinhentos anos de imobilidade havia depositado camada por camada como sedimento no fundo de um rio.
O primeiro gesto de Wukong depois de sair das pedras foi uma reverência profunda — mais profunda do que qualquer reverência que havia feito nos dias do Palácio Celestial, mais profunda do que a reverência ao Patriarca Subhuti na primeira chegada à caverna. Era a reverência de alguém que sabe, com uma certeza que não precisa de argumentação, que está diante da pessoa certa no momento certo.
"Mestre," disse ele.
E essa única palavra continha tudo: o reconhecimento, a entrega, a disposição de percorrer o que restava a percorrer.
Tang Sanzang recebeu a reverência com a simplicidade de quem sabe que não é seu mérito pessoal que cria esses momentos — mas o mérito de um propósito maior que os usa como instrumentos.
"Levanta," disse o monge. "Há estrada pela frente."
E havia, como sempre, estrada pela frente.