Capítulo 100: O Retorno ao Leste — Cinco Sábios Alcançam a Iluminação
Os peregrinos retornam a Chang'an, entregam as escrituras ao Imperador Tang, e voltam ao Lingjiu onde Buda Tathagata confere a cada um o título e o destino que mereceram ao longo de catorze anos de jornada.
Na manhã seguinte ao último obstáculo, quando as escrituras estavam secas e as vestes dos peregrinos haviam voltado à sua forma habitual depois da noite no rio, os oito Grandes Vajras desceram do céu como oito colunas de vento dourado e convocaram os peregrinos para a última trecho da viagem.
Tang Sanzang olhou para Chen Jia Zhuang — a aldeia que havia sido hospedeira e testemunha —, olhou para os aldeões que se inclinavam na margem da estrada com aquela reverência que é ao mesmo tempo despedida e gratidão, e virou-se para seus discípulos com a serenidade de quem terminou o que havia começado.
— Vamos — disse ele.
O vento os levou.
Em Chang'an, o Imperador Tang Taizong havia construído anos antes a Torre de Observação das Escrituras — uma estrutura erguida justamente para o momento em que o peregrino voltasse —, e visitava aquele lugar todo ano, como quem mantém um compromisso com alguém que ainda não chegou. Naquela manhã estava lá, no topo da torre, olhando para o oeste com os olhos de um homem que havia aprendido a distinguir nuvens de presságios.
Quando o vento de sândalo apareceu no horizonte oeste, carregando quatro figuras e um cavalo branco numa luminosidade que não era do sol mas da qual o sol parecia uma cópia pálida, Taizong desceu os degraus da torre mais depressa do que um imperador normalmente desce qualquer coisa e foi ao encontro do irmão espiritual que havia mandado para uma missão impossível treze anos antes.
— Irmão — disse o Imperador, e havia naquela única palavra toda a distância percorrida.
— Majestade — respondeu Tang Sanzang, curvando-se na reverência que não havia esquecido em catorze anos de ausência.
A entrada dos peregrinos em Chang'an foi diferente de tudo que a cidade havia visto. Não foi um desfile de conquista nem uma procissão de heróis — foi algo mais silencioso e mais profundo do que isso. As pessoas saíam às portas das casas, os monges do Templo de Hongfu corriam pelas ruas descalços porque haviam acordado na madrugada e visto os pinheiros do jardim virar todos as pontas dos galhos para o leste, como uma bússola confirmando o que ainda não sabiam mas sentiam: o Mestre havia voltado.
No grande Salão do Trono, Tang Sanzang apresentou ao Imperador o passaporte que havia recebido em Chang'an e que agora trazia carimbados os selos de uma dúzia de reinos — Baoxiang, Wuji, Chechi, Xiliang, Jisai, Zhuzi, Biqiu, Miefa, Fengxian, Yuhua, Jinping — os nomes de cada lugar que havia existido entre a partida e o retorno. Taizong leu cada carimbo como quem lê um poema.
Depois os discípulos foram apresentados. O Imperador olhou para Sun Wukong — aquela figura pequena e elétrica, o rosto de macaco com os olhos de ouro que não piscavam da maneira normal —, para Zhu Bajie com seu focinho e suas orelhas e seu sorriso de quem comeu bem a vida toda, para Sha Wujing silencioso e sólido como pedra de rio.
— São... exterioridade incomum — disse o Imperador, com a diplomacia específica dos que governam muita gente diferente.
— Majestade — disse Tang Sanzang —, a exterioridade foi forjada por provações que eu não poderia ter sobrevivido sem eles.
O banquete que se seguiu no Pavilhão Oriental foi o melhor que Chang'an podia oferecer — e Chang'an era a capital do maior império do mundo mortal, de modo que era considerável. Mas havia algo curioso naquele banquete: os que mais haviam comido ao longo de todos os catorze anos — especialmente Zhu Bajie, cujo apetite era lendário desde o tempo em que era General do Rio Celestial — agora comiam pouco, quase com indiferença. Algo havia mudado no interior de cada um deles que tornava a comida mortal uma formalidade cortês mais do que uma necessidade.
Zhu Bajie notou isso e ficou genuinamente perturbado por um momento, procurando em si mesmo a voracidade habitual e não a encontrando.
— O estômago fraquejou — comentou ele para ninguém em particular.
— Não fraquejou — disse Sun Wukong, ao lado. — Cresceu.
Na madrugada, quando Chang'an dormia profundamente e as ruas estavam vazias exceto pelas tochas que os guardas carregavam em rondas preguiçosas, Tang Sanzang acordou Sha Wujing e Bajie com um sussurro.
— Devemos partir.
— Agora? — Bajie olhou para a janela. — É de madrugada.
— Precisamente. — Tang Sanzang já estava de pé, ajeitando as vestes. — Os verdadeiros sábios não se exibem. Os que se revelam não são os verdadeiros. Se ficamos aqui muito tempo, começamos a ser reverenciados pelo que somos, e reverência é uma forma suave de gaiola.
Sha Wujing estava de pé antes de o Mestre terminar a frase. Sun Wukong, que provavelmente nunca havia dormido, já estava na porta com o Bastão de Ouro.
Partiram em silêncio pelo portão do templo — Sun Wukong usou seu jieshi fa, a arte de abrir fechaduras, nos dois portões sem barulho —, e na rua vazia de Chang'an, na hora em que a cidade pertence apenas às tochas e às sombras, os cinco ouviram vozes vindo do alto.
Eram os oito Grandes Vajras, descendo como estrelas cadentes em câmara lenta, convocando-os de volta.
— Os que foram buscar as escrituras — chamou a voz mais alta —, vinde. É hora.
Tang Sanzang sentiu o vento de sândalo nos cabelos pela segunda vez. Desta vez não havia hesitação — nenhuma olhada para trás, nenhum peso nos pés. O Mestre que havia deixado Chang'an catorze anos antes para buscar algo que não sabia completamente o que era voltava agora sabendo, e o saber tornava tudo mais leve.
Subiram.
O Grande Salão do Herói no Lingjiu estava cheio como nunca havia estado — todos os Budas das Três Idades, todos os Bodhisattvas, todos os Arhats e Reveladores e Protetores reunidos numa assembleia que preenchia o ar com uma luz que não era luz mas era o que a luz tenta ser quando está no seu melhor.
Buda Tathagata sentou-se no Trono de Lótus e chamou os peregrinos um a um.
Tang Sanzang se aproximou primeiro. Buda olhou para ele com o reconhecimento específico de quem vê pela primeira vez algo que sempre soube que existia.
— Em tua vida anterior — disse Buda —, eras meu segundo discípulo, o Monge Grilo Dourado. Adormeceste durante meu sermão por um único instante de descuido, e esse instante foi suficiente para que tua essência verdadeira descesse ao mundo mortal e percorresse o caminho de volta. Hoje esse caminho está completo. Recebes o título de Buda da Virtude de Sândalo.
Tang Sanzang curvou-se.
Sun Wukong se aproximou. Havia em seus olhos de ouro algo que não era o triunfo que alguém poderia esperar — era algo mais tranquilo, como a água de um lago depois que o vento para.
— Causaste grande tumulto no Céu — disse Buda. — Estiveste preso por cinco séculos. E depois percorreste dezoito mil li protegendo um Mestre mortal contra perigos que teriam destruído qualquer criatura menos teimosa do que tu. Em cada momento de tentação, escolheste o caminho correto — não sempre facilmente, não sempre sem reclamação, mas consistentemente. Recebes o título de Buda Vencedor das Batalhas.
Sun Wukong tocou a testa. A argola de ouro havia desaparecido — havia desaparecido no momento em que Tang Sanzang verificou, mas agora a ausência era oficial, selada, permanente. O Macaco que havia nascido de uma pedra no Monte das Flores e Frutos havia chegado ao único lugar onde pedras não precisam mais de nenhuma forma específica para serem o que são.
Zhu Bajie se aproximou com aquela mistura específica de confiança e hesitação que o havia caracterizado desde o início.
— Eras o Marechal Celestial Tianpeng — disse Buda —, Comandante dos Exércitos do Rio Celestial. Bebeste em excesso no Banquete dos Pêssegos e importunaste uma fada imortal, e por isso desceste ao mundo mortal numa forma que era punição e lição ao mesmo tempo. No caminho, carregastes o fardo com mais bom humor do que o merecimento estrito exigia, e a tua voracidade — de comida, de descanso, de reclamação — foi um tipo de honestidade que a jornada precisava. Mas ainda há em ti algo que não está completamente polido. Recebes o título de Purificador dos Altares.
— Purificador dos Altares? — repetiu Bajie, com aquela expressão de alguém que recebeu um presente e está tentando decidir se gostou. — Os outros receberam Buda e eu recebi Purificador?
— Em todo festival budista no mundo — disse Buda, com paciência — os altares precisam ser limpos das oferendas. É uma função de grande utilidade prática, e tu és de grande utilidade prática.
Bajie pensou nisso. Depois abriu seu sorriso enorme.
— Comerei bem, então.
— Comerás muito bem — confirmou Buda.
Sha Wujing se aproximou em silêncio. Havia percorrido toda a jornada em silêncio relativo — carregando o fardo, puxando o cavalo, mergulhando nos rios para recolher o que havia caído, dizendo as palavras certas nos momentos de discórdia entre os irmãos. Era o tipo de virtude que não aparece nas histórias heroicas porque não faz barulho, mas sem a qual as histórias heroicas não chegam ao fim.
— Eras o General Cortineiro de Jade — disse Buda. — Quebraste um vaso de cristal no Banquete dos Pêssegos e foste mandado para o Rio de Areia, onde cometeste pecados que agravaram a queda. Mas cumpriste tua penitência com inteireza e protegeste o Mestre ao longo da subida de cada montanha e da travessia de cada rio. Recebes o título de Arhat de Corpo de Ouro.
O cavalo branco foi o último. Buda olhou para ele com aquela ternura específica que reserva para as criaturas que servem sem poder pedir reconhecimento.
— Eras o filho do Grande Rei Dragão do Mar Ocidental — disse Buda. — Cometestes o erro da desobediência filial e foste salvo por Guanyin para este propósito. Carregastes o Mestre nas costas pelo caminho de ida, e as escrituras nas costas pelo caminho de volta. Nenhuma das duas coisas foi pequena. Recebes o título de Dragão do Céu das Oito Legiões.
O cavalo foi conduzido à Lagoa da Transformação do Dragão, no extremo posterior da Montanha Espiritual, e quando saiu da água era um dragão — escamas douradas, chifres prateados, a aura de quem finalmente habita a forma que sempre foi a sua.
E assim a assembleia do Lingjiu ficou completa na maneira mais literal possível: os cinco que haviam partido como diferentes graus de pecadores e penitentes chegavam como diferentes graus de sábios, cada um com seu título e seu lugar na grande arquitetura do Dharma.
Sun Wukong ficou ao lado de Tang Sanzang — do Buda de Sândalo — e disse, com aquela voz que havia gritado e combatido e reclamado ao longo de catorze anos e que agora era simplesmente clara:
— Mestre. Já não há argola. Já não há manto. Já não há nenhuma das coisas que eram necessárias quando eu ainda precisava delas.
Tang Sanzang olhou para ele com os olhos que haviam chorado no escuro de jaulas de ferro e de cavernas sem fundo e de noites sem estrelas, e respondeu:
— Nunca foram para te conter, Wukong. Eram para te lembrar do que já eras, enquanto ainda estavas aprendendo a saber.
No Grande Salão do Herói, a assembleia recitou os nomes de todos os Budas — a litania que começa no Buda da Lâmpada Antiga e termina no Buda Amitabha, e que inclui agora, nos lugares que lhes pertencem desde sempre, o Buda da Virtude de Sândalo e o Buda Vencedor das Batalhas.
Lá embaixo, em Chang'an, o Imperador Tang acordou e encontrou seus melhores copistas trabalhando nas cópias das escrituras, e as cópias foram distribuídas por todo o império, e as palavras que Tang Sanzang havia buscado viajaram do Lingjiu para cada aldeia e cada cidade do mundo conhecido.
E a Jornada ao Oeste — que havia começado com um macaco nascido de uma pedra e um monge que adormeceu durante um sermão num tempo antes do tempo —, chegou ao seu fim, que era ao mesmo tempo um começo de uma história muito mais longa do que qualquer jornada pode conter.