Capítulo 10: O Rei Dragão da Jing Viola o Decreto do Céu; O Imperador Taizong Visita o Submundo
O Rei Dragão perde uma aposta e é decapitado em sonho pelo Conselheiro Wei Zheng. O Imperador visita o submundo e retorna com a missão de organizar uma cerimônia budista e enviar um peregrino ao Ocidente.
O Imperador Taizong — Li Shimin, o segundo imperador da grande dinastia Tang, cuja sabedoria havia reunido um Império fragmentado sob um único e funcional governo — era um homem que havia visto muita coisa. Havia lutado guerras desde a juventude, julgado ministros, equilibrado as necessidades impossíveis de um vasto império com uma eficiência que seus biógrafos posteriors identificariam como o padrão ideal de governo. Havia enfrentado traições, fomes, inundações e as complexidades infinitas de governar um país de proporções que a imaginação comum mal conseguia abarcar.
Nada disso o havia preparado para o que estava prestes a acontecer.
Tudo começou, como muitas histórias importantes começam, com uma aposta.
O adivinho Yuan Shoucheng tinha uma banca num mercado de Chang'an onde vendia previsões com a confiança tranquila de quem raramente errava. Era famoso o suficiente para ser procurado pelos oficiais da corte quando precisavam de conselho discreto, e por mercadores quando precisavam de previsões de tempo para as viagens de comércio, e por artesãos quando precisavam saber se um empreendimento seria favorável. Não prometia o impossível — mas o que prometia, entregava.
O Rei Dragão do Rio Jing havia ouvido falar desse adivinho e resolveu testá-lo. Disfarçou-se de homem comum, foi até a banca, e pediu uma previsão do tempo para a cidade nos próximos dias.
Yuan Shoucheng disse com precisão exata: "Amanhã, na hora da tarde, haverá chuva. Começará com trovão leve à hora do cavalo, o primeiro temporal às três horas da tarde, duração de dois chi e três cun de precipitação total."
O Rei Dragão retornou satisfeito — porque ele era o Rei Dragão do Rio Jing, era ele quem controlava a chuva naquela região, e ele sabia que o decreto celestial para o dia seguinte era de zero precipitação. O adivinho estava errado. Isso o satisfazia.
Mas quando retornou às profundezas e verificou o decreto celestial para o dia seguinte, descobriu algo desconcertante: o decreto havia sido alterado durante a manhã, enquanto ele estava na cidade. A ordem agora especificava chuva — com os detalhes de tempo e quantidade que o adivinho havia previsto.
O adivinho havia previsto o decreto antes que o decreto fosse emitido.
Aquilo deveria ter intimidado qualquer ser com bom senso. Em vez disso, irritou o Rei Dragão — porque revelar que seus atos eram previsíveis era uma forma de diminuir sua liberdade aparente, e o Rei Dragão tinha o tipo de orgulho específico que não aceita bem esse tipo de revelação.
Decidiu alterar os parâmetros da chuva: faria chover mais cedo, e mais do que o decreto especificava. Isso tornaria a previsão do adivinho errada e provaria que os dragões tinham liberdade real sobre seus domínios.
O problema com alterar um decreto celestial — mesmo em detalhes que parecem menores — é que o Palácio Celestial rastreia essas coisas com uma precisão burocrática que os reis dragão às vezes esquecem quando estão irritados.
A ordem de julgamento chegou ao Rei Dragão do Rio Jing naquela mesma noite, com o tipo de urgência que indica que o assunto foi levado diretamente ao Imperador de Jade: ele seria julgado e executado por violação deliberada de um decreto imperial. A execução seria conduzida pelo Conselheiro Wei Zheng, ministro do Imperador Taizong — porque havia uma ironia específica no fato de que um mortal virtuoso executasse um rei dragão imortal.
O Rei Dragão do Rio Jing, que havia começado o dia com a intenção de embarrassar um adivinho de mercado e terminava agora com uma sentença de morte, entrou em desespero.
Havia apenas uma opção que lhe parecia viável: o Imperador Taizong. Se conseguisse chegar ao Imperador antes que Wei Zheng recebesse sua execução no sono, e se o Imperador mantivesse o Conselheiro ocupado o dia inteiro sem deixá-lo dormir — seria salvo.
Apareceu em sonho ao Imperador Taizong.
Prostrou-se com toda a reverência disponível, que para um rei dragão era considerável, e narrou sua situação com a honestidade do desespero genuíno: havia violado um decreto, a pena era justa em termos formais, mas implorava pela intervenção do Imperador humano para que Wei Zheng ficasse ocupado durante as horas críticas.
O Imperador Taizong acordou perturbado e com o coração compassivo que era uma de suas qualidades mais conhecidas — aquela compaixão que havia sido tanto sua virtude dominante quanto, ao longo dos anos, a razão de algumas de suas decisões mais questionáveis. Decidiu ajudar.
Na manhã seguinte, convocou Wei Zheng ao palácio antes do amanhecer — horas antes da rotina normal do Conselheiro — e começou a mantê-lo ocupado com a criatividade sistemática de quem tem recursos de imperador à disposição. Partidas de xadrez que duravam horas, com o Imperador estudando cada jogada com uma atenção que os serventes reconheceram como atípica. Discussões de política que se ramificavam para subtemas que normalmente não receberiam atenção naquele formato. Relatórios de províncias distantes que geralmente eram delegados aos ministros relevantes, hoje examinados pessoalmente com o Conselheiro como interlocutor.
Wei Zheng, que era um homem de cortesia profissional desenvolvida ao longo de décadas de serviço, conduzia cada parte dessas atividades com a paciência de quem sabe que o Imperador tem suas razões mas não consegue sempre identificá-las imediatamente.
No início da tarde, o Imperador tirou uma breve soneca — porque os imperadores tiravam sonecas e nenhum protocolo impedia isso. Wei Zheng ficou sentado na sala adjacente. E os olhos do Conselheiro, que havia acordado muito cedo naquele dia e havia sido mantido ocupado por horas, fecharam-se por alguns minutos.
Nesses minutos, o espírito de Wei Zheng — que havia cultivado capacidades que sua posição de funcionário público raramente revelava — foi ao aquém e executou o Rei Dragão do Rio Jing com precisão e sem demora.
Quando o Imperador acordou de sua soneca, Wei Zheng acordou na sala adjacente com os olhos calmos do sono completamente cumprido.
"Quanto tempo estive dormindo?" perguntou o Conselheiro com a placidez de quem não precisa fingir que não dormiu.
"Breve," disse o Imperador, calculando. "Breve o suficiente."
E havia na voz do Imperador uma tristeza suave que Wei Zheng notou mas não comentou, porque havia coisas sobre o Conselheiro que o Conselheiro claramente preferia não elaborar.
Naquela noite, o Rei Dragão do Rio Jing apareceu nos sonhos do Imperador novamente — mas desta vez como fantasma, com a cabeça separada do corpo, a mão segurando o que havia sido cortado, os olhos sem o desespero de antes mas com uma acusação silenciosa que era diferente e mais perturbadora. "Prometestes ajudar. E ainda assim..."
O Imperador acordou em suor frio.
O trauma do sonho instalou-se como hóspede que não havia sido convidado e não estava com pressa de partir. Nos dias que se seguiram, o Imperador começou a adoecer — não de doença física mas do tipo de perturbação que vem de dentro, a perturbação de alguém que falhou numa promessa e cujo sistema nervoso se recusa a esquecer isso. Os fantasmas de inimigos vencidos em batalha começaram a aparecer à noite, exigindo explicações de sangue. O sono que vinha era o sono dos perturbados, e o Imperador acordava mais cansado do que havia deitado.
Os médicos da corte tentaram cada remédio disponível. Os especialistas em rituais de purificação foram convocados. Os melhores astrólogos calcularam configurações de estrelas e propuseram datas de rituais. Nada funcionava com a consistência necessária.
Foi Wei Zheng que propôs o que propôs: "Vossa Majestade deve visitar o submundo. Os Dez Reis do Julgamento têm registros de todas as dívidas kármicas — com os vivos e com os mortos. Uma visita pessoal, conduzida com os rituais corretos, poderia resolver as pendências que se acumularam." Uma pausa. "Tenho o conhecimento para conduzir o processo."
A morte temporária do Imperador foi assistida com os rituais protetores mais elaborados disponíveis — Wei Zheng e dois outros especialistas trabalhando em coordenação, o corpo do Imperador posicionado segundo orientações precisas, os canais de energia preparados para receber o espírito de volta depois de um período especificado.
O espírito de Taizong desceu ao submundo acompanhado por dois guardas fantasmas — figuras que o Palácio Imperial mantinha especificamente para essa função, seres que conheciam o caminho entre os mundos e podiam conduzir um espírito mortal pelo labirinto do aquém sem que se perdesse.
O submundo era exatamente como os textos budistas descreviam: um sistema de labirintos extensos iluminados por uma luz que não vinha do sol nem da lua, onde as almas dos mortos aguardavam em filas que não tinham fim visível antes que seus méritos e culpas fossem pesados, avaliados e convertidos em destinos de reencarnação. Era barulhento de uma maneira específica — não o barulho do caos mas o barulho de processos que nunca param, de burocracias cósmicas que processam incontáveis almas com a eficiência necessária para manter o ciclo funcionando.
O Rei Yama e os nove outros Reis do Julgamento receberam o espírito do Imperador da Tang com uma cortesia que era genuína — havia no cerimonial do submundo o reconhecimento específico que alguém de grande mérito merecia.
"Há uma irregularidade nos registros de Vossa Majestade," disse o Rei Yama com aquela diplomacia que havia desenvolvido ao longo de eons de lidar com seres que tinham diferentes relações com a verdade sobre suas próprias vidas. "Segundo o livro original, o reinado de Vossa Majestade havia sido calculado para durar treze anos. Mas os méritos acumulados durante esse tempo foram avaliados e encontrados suficientes para uma extensão significativa."
O Imperador processou isso. "Quanto tempo ainda me resta?"
"Vinte anos adicionais foram registrados no livro de contas de Vossa Majestade."
Era alívio misturado com a estranheza específica de ouvir a própria expectativa de vida discutida em termos quantitativos por quem mantém os registros.
O Rei Yama então guiou o espírito do Imperador pelos arquivos — os vastos salões onde ficavam os livros de todos os seres do Império de Tang, cada um com seu registro de ações e consequências. E em meio a esses registros, o Imperador viu os rostos dos milhares de soldados que haviam morrido nas campanhas de unificação — seres cujos espíritos estavam presos num limbo intermediário porque ninguém havia organizado cerimônias para liberá-los, ninguém havia feito as oferendas que permitiriam que seguissem para o próximo destino.
"Há algo que Vossa Majestade poderia fazer," disse o Rei Yama com a delicadeza de quem pede um favor que tem forma de sugestão, "que beneficiaria incontáveis almas. Uma grande cerimônia budista, organizada nos moldes que o Dharma especifica, com sutras recitados por monges de virtude profunda, poderia liberar esses espíritos do limbo." Uma pausa. "E há também as escrituras sagradas no Grande Templo do Trovão no Ocidente Supremo — se fossem trazidas ao Leste, a sabedoria que contêm poderia iluminar o Império por gerações e salvar almas em número que excede qualquer cálculo."
O Imperador prometeu ambas as coisas — a cerimônia e o envio de um peregrino — com o tipo de promessa que um homem de honra faz quando está diante de autoridades que não aceitam promessas vazias e cuja seriedade é evidente em cada detalhe do lugar onde estão.
O retorno ao corpo foi menos dramático do que a saída — uma sensação de contração, de peso retomado, de respiração relembrada. O Imperador abriu os olhos na câmara real cercado pelos especialistas que haviam conduzido o processo, que olhavam para ele com alívio que mal conseguiam conter profissionalmente.
"Mandai preparar a cerimônia budista," disse o Imperador antes mesmo de pedir água. "Grande escala. Quarenta e nove dias. E precisamos de um monge — um homem de virtude extraordinária — para ir ao Ocidente Supremo buscar as escrituras sagradas."
Os ministros que ouviram reconheceram que algo havia mudado no Imperador. Havia nele uma seriedade diferente — não a seriedade do administrador eficiente que ele sempre havia sido, mas a seriedade de alguém que havia estado onde a maioria dos vivos nunca vai e voltou com um peso diferente de qualquer outro que havia carregado antes.
Nos dias que se seguiram, enquanto os preparativos da cerimônia avançavam, o Imperador pensou muito sobre o peregrino de que precisava. Não era apenas um monge virtuoso que poderia ser designado por cargo ou por reputação. Era necessário alguém com uma raiz espiritual que resistisse a cada tentação ao longo de cem e oito mil li de perigos — alguém cuja virtude fosse estrutural, parte de sua natureza mais fundamental, não produto apenas de disciplina ou de circunstâncias favoráveis.
A resposta chegou com a clareza das soluções que já estavam prontas esperando apenas ser reconhecidas: o jovem Tang Sanzang, cuja origem era ela mesma um milagre, cuja formação havia sido uma vida inteira de cultivo no silêncio de um mosteiro, era a escolha que se impunha.
O encontro entre o Imperador e o Monge estava prestes a ocorrer. E com ele, o início oficial de uma jornada que mudaria o mundo — não de forma súbita e dramática como os exércitos mudam o mundo, mas da forma mais duradoura que existe: trazendo sabedoria que permite que seres sofrentes compreendam a natureza de seu sofrimento e encontrem o caminho para além dele.
O fio do destino estava sendo puxado de todos os lados ao mesmo tempo. E quando muitos fios convergem, o tecido que produzem tem uma resistência que nenhum deles teria sozinho.